‘Toda a minha luta aqui vai ser em prol das pautas universais da Marielle’

"Eu sou deputada pela Espanha, mas eu vou aproveitar esta minha visibilidade para fazer eco das atrocidades e das violações de direitos humanos, direitos básicos dos brasileiros e das brasileiras que estão sendo levadas a cabo pelo governo Bolsonaro", diz a sergipana Maria Dantas, 49, eleita para o Parlamento espanhol pelo partido Esquerda Republicana da Catalunha

‘Toda a minha luta aqui vai ser em prol das pautas universais da Marielle’
‘Toda a minha luta aqui vai ser em prol das pautas universais da Marielle’

Paloma Varón, da RFI - "Eu sou deputada pela Espanha, mas eu vou aproveitar esta minha visibilidade para fazer eco das atrocidades e das violações de direitos humanos, direitos básicos dos brasileiros e das brasileiras que estão sendo levadas a cabo pelo governo Bolsonaro". Assim começa a entrevista com Maria Dantas, 49, brasileira eleita para o Parlamento espanhol pelo partido Esquerda Republicana da Catalunha.

Esta jurista sergipana radicada há 25 anos em Barcelona atua há décadas na sociedade civil em prol de causas como a imigração, a luta contra o racismo e o fascismo.

De fala rápida e combativa, Dantas já havia sido convidada a se apresentar para a Prefeitura de Barcelona, para o Parlamento da Catalunha, para o Parlamento Europeu e também para o Congresso espanhol. Mas não tinha vontade, preferia continuar seu percurso de ativista social, como ela se define.

"Eu sempre pensei que o meu lugar era na rua, nos movimentos sociais, porque acho que as mudanças de paradigma a gente faz é na rua, empurrando as instituições e os políticos", argumenta.

8 de março

Ela estava convencida que faria mais pelas causas que defende estando perto do povo, mas que, no dia 8 de março – ela faz questão de frisar a data do Dia Internacional da Mulher – deste ano, viu um vídeo do site Jornalistas Livres em que a vereadora assassinada em 2018 Marielle Franco falava sobre política.

"[No vídeo,] Marielle disse uma coisa muito importante: que nas instituições e no parlamentos, tem que ter população subalternizada. Neste sentido, pobre, negro, mulher, gay, lésbica, indígenas, têm que ir para as instituições para ver se a gente consegue mudar estas pautas terríveis", conta, explicando que se sentiu inspirada pela vereadora assassinada em 14 de março de 2018 no Rio de Janeiro.

A sergipana, então, decidiu se candidatar. "Toda a minha luta aqui vai ser em prol das pautas universais da Marielle: antifascismo; antirracismo; antiLGBTfobia. As pautas da Marielle são muito presentes."

Imigração

Na Espanha, Maria centra a sua luta pela defesa do direito dos imigrantes.
Ela diz que as lutas do seu mandato serão pela eliminação da Lei de Imigração, "que é uma lei racista, xenófoba, que mata gente nas fronteiras da Espanha", pela eliminação dos centros de internamento de estrangeiros – "verdadeiros cárceres, onde morrem pessoas que nunca cometeram nenhum crime, porque migrar é um direito"; e pelo fim da a externalização e a militarização das fronteiras.

"Todos os brasileiros e brasileiras que moram aqui na Espanha se beneficiarão com a eliminação da Lei de Imigração. Não só os subalternizados", afirma a depuatada.

Sobre o fato de ter sido eleita, ela opina: "Eu acho que esta referência é importante para 'empoderar' as pessoas, não só as pessoas brasileiras, mas todas as pessoas migrantes, pessoas pobres, pessoas humildes, negras que sofrem todo dia o racismo institucional. Para que possam pensar que um dia podem chegar a ser deputadas".

Fascismo

Dantas se diz "muito preocupada" com a ascensão da extrema direita na Espanha, no Brasil e no mundo. "No início das pesquisas, Bolsonaro tinha 1% de intenções de voto. Aqui no ano passado em maio nem se falava no Vox", fala, em alusão ao partido de extrema direita espanhol que entrou no parlamento pela primeira vez.

"No Brasil, o estopim foi o tema da segurança, a crise econômica e a corrupção. Fizeram um discurso barato centrado nestes temas e ganharam a eleição", elabora.

"Eu atribuo ao neopopulismo, que está crescendo muito no mundo, este aumento de votos da extrema direita. O formato é o mesmo no mundo todo, é um formato raso; aqui na Europa eles estão seguindo o The Movement, que é uma espécie de ONG fascista, na Bélgica, criada por Steve Bannon, que é amigo do sr. Olavo de Carvalho – que de filósofo não tem nada", analisa.

"O representante do The Movement do Brasil é um dos filhos do Bolsonaro. No Brasil, eles pegaram estes três eixos. Aqui na Espanha pegaram os eixos da imigração, da soberania da Catalunha e a deficiência econômica", diz ela, frisando que vai se opor às extremas direitas em ambos os países.

Maria Dantas vai completar 50 anos no dia 21 de maio, quando se constitui oficialmente o novo Parlamento espanhol, eleito neste domingo (28). Uma outra coincidência de datas que a deixa entusiasmada.

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