Molina: terreiros do DF e entorno vivem clima de terror

Em entrevista ao 247, o jornalista Danilo Molina analisa os recentes casos de agressões a terreiros de matriz africana no Distrito Federal e entorno; um deles foi incendiado na madrugada desta quarta-feira (23); só na última semana foram três; Molina, que também é dirigente de um centro de umbanda no Distrito Federal, defende que as agressões estão relacionadas ao ranço cultural de preconceito e ódio relacionado ao nosso passado escravagista; para o jornalista, é preciso o grande desafio é “a criação de uma cultura coletiva de tolerância e de convivência com a diversidade e com a diferença”

Em entrevista ao 247, o jornalista Danilo Molina analisa os recentes casos de agressões a terreiros de matriz africana no Distrito Federal e entorno; um deles foi incendiado na madrugada desta quarta-feira (23); só na última semana foram três; Molina, que também é dirigente de um centro de umbanda no Distrito Federal, defende que as agressões estão relacionadas ao ranço cultural de preconceito e ódio relacionado ao nosso passado escravagista; para o jornalista, é preciso o grande desafio é “a criação de uma cultura coletiva de tolerância e de convivência com a diversidade e com a diferença”
Em entrevista ao 247, o jornalista Danilo Molina analisa os recentes casos de agressões a terreiros de matriz africana no Distrito Federal e entorno; um deles foi incendiado na madrugada desta quarta-feira (23); só na última semana foram três; Molina, que também é dirigente de um centro de umbanda no Distrito Federal, defende que as agressões estão relacionadas ao ranço cultural de preconceito e ódio relacionado ao nosso passado escravagista; para o jornalista, é preciso o grande desafio é “a criação de uma cultura coletiva de tolerância e de convivência com a diversidade e com a diferença” (Foto: Leonardo Lucena)
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247 - Em entrevista ao 247, o jornalista Danilo Molina analisa os recentes casos de agressões a terreiros de matriz africana no Distrito Federal e entorno. Só na última semana três terreiros de candomblé foram incendiados na região.

Molina, que também é dirigente de um centro de umbanda no Distrito Federal, defende que as agressões estão relacionadas ao ranço cultural de preconceito e ódio relacionado ao nosso passado escravagista e, também, a recente escalada das forças conservadoras, autoritárias, obscurantistas e intolerantes sobre setores historicamente excluídos da nossa sociedade. Para o jornalista, é preciso o grande desafio é “a criação de uma cultura coletiva de tolerância e de convivência com a diversidade e com a diferença”.

Além disso, afirma a necessidade da retomada do diálogo entre as lideranças religiosas e os governos do Distrito Federal e Goiás para a retomada dessa agenda por parte do Estado brasileiro.

247 - Em seus recentes artigos, você vem denunciando o aumento dos casos de intolerância e agressão, especialmente contra as religiões de matriz africana, o que de fato está acontecendo em Brasília?

Molina: Nos últimos anos, têm crescido de forma assustadora os casos de ataques contra templos religiosos de matriz africana em todo Distrito Federal e entorno. Para se ter uma ideia do tamanho do problema, em 2016, considerado o tamanho da população, fomos a segunda unidade da federação com o maior número de registro de casos de intolerância religiosa de todo o país. Só o Rio de Janeiro superou o Distrito Federal nesse lamentável ranking.

Na última semana, os terreiros do DF e entorna passaram a viver um clima de verdadeiro terror. Desde sábado, três templos foram alvejados: um em Samambaia, um no Jardim Ingá e outro em Luziânia. Os criminosos sempre utilizam o mesmo padrão de ataque, que consiste em incendiar os terreiros, uma prática de ódio típica dos tribunais de inquisição da idade média.

247 – E a que você atribui esses ataques?

Molina: É impossível desassociar esse problema do ranço cultural de preconceito e ódio relacionado ao nosso passado escravagista e, também, a recente escalada das forças conservadoras, autoritárias, obscurantistas e intolerantes sobre setores historicamente excluídos da nossa sociedade. Essa nova cultura fundamentalista do ódio, que agora não tem mais vergonha de se apresentar como tal, é contra os direitos humanos de todas as minorias: mulheres, negros, sociedade acadêmica, cultura, entre outros. Agride nossa democracia e todos aqueles que lutam por uma cultura de paz em nossa sociedade.

Basta olharmos para o perfil dos agredidos e dos agressores para constatarmos isso que estou falando. Em quase 26% dos casos relatados ao Dique 100, os agressores são identificados como brancos.  As vítimas preferenciais das denúncias de intolerância religiosa são as religiões de matriz, como a umbanda e o candomblé, respondendo juntas por 25% dos relatos.

Agora, se cruzarmos esses dados com o perfil da população brasileira temos um retrato cruel do que de fato está acontecendo. Isso é, 25% das denúncias de intolerância religiosa se concentram em adeptos de religiões que representam 1,6% da população brasileira. Para se ter uma ideia da proporção, os católicos, que são quase 65% da população brasileira, relataram apenas 1,8% dos casos de intolerância.

247 – Na verdade, o que você está colocando é que a maioria das agressões se concentra sobre um grupo minoritário. É isso?  

Molina: Exatamente. Esses fundamentalistas do ódio absorveram e introjetaram todo esse passado de perseguição e abusos contra os escravos e tudo que representa a cultura dos negros em nosso país. As perseguições eram apoiadas pelo próprio Estado brasileiro, que fomentou esse sentimento de ódio para atender aos interesses de uma pequena elite nacional por séculos. Agora, esse mesmo Estado tem a obrigação de garantir as premissas constitucionais, como é o caso da liberdade religiosa.

As religiões de matrizes africanas nasceram dentro da senzala e eram reprimidas, inclusive com força policial, ainda no início do século XX. Já o catolicismo chegou em terras brasileiras junto com os colonizadores portugueses, sendo uma religião de Estado, oficializada e imposta como parte essencial do processo de colonização.

Só em 1824 foi permitida a prática de outras religiões em nosso país, porém, com rigorosas restrições. Os cultos deveriam ocorrer de maneira doméstica e não poderia haver a identificação oficial de igrejas ou centros religiosos que não fossem católicos. A separação oficial entre o Estado e a igreja só ocorre após a proclamação da república, em 1890, logo após o fim da escravidão, quase quatro séculos após o descobrimento do Brasil.

O que quero dizer com tudo isso é que toda essa intolerância e todo essa cultura de ódio contra as religiões de matriz africana fazem parte do processo de formação cultural do povo brasileiro. Um processo brilhantemente já descrito por Gilberto Freyre. Agora, o é fundamental que o enfrentamento de toda essa intolerância seja colocado dentro da agenda do Estado brasileiro.

Se a questão continuar a ser tratada como um problema menor, como de fato tem acontecido, corremos o risco de regredirmos à barbárie, na qual serão aceitos como normais esses crimes de ódio que atentam contra a dignidade humana e a liberdade.

247 -  E já há algumas inciativas nesse sentido?

Molina: As lideranças dos movimentos de combate à intolerância religiosa têm se organizado e algumas poucas iniciativas já foram adotadas. O Distrito Federal já possui uma Delegacia Especial de Repressão aos Crimes por Discriminação Racial, Religiosa ou por Orientação Sexual, ou contra a Pessoa Idosa ou com Deficiência.

As lideranças religiosas pressionaram o GDF e a pracinha dos orixás, que também havia sido alvo de depredação e incendiada, foi reformada e reinaugurada.  É preciso retomar o diálogo entre as lideranças do movimento e o GDF para que novos avanços sejam incorporados, especialmente a identificação e a punição dos agressores. Atitude semelhante deve ser adotada por parte governo Goiás, que ainda não possui uma delegacia especializada, em razão dos casos de depredação dos terreiros do entorno, alvos preferencias dos criminosos.

Além disso, uma série de passeatas e manifestações, nas principais capitais do país, contra a intolerância religiosa e a favor da liberdade de culto ocorreram nos meses de outubro e novembro. O documento “pela paz e fim da violência contra o povo de axé” foi entregue a representantes da Câmara dos Deputados e do Supremo Tribunal Federal. Nessa carta, é reafirmada a necessidade de uma ação de Estado que assegure o direito constitucional da liberdade religiosa, o respeito à diversidade e o resgate de uma cultura de paz entre os adeptos das diferentes religiões.

Já que nossa pauta é sistematicamente silenciada pela mídia tradicional, o grande desafio consiste em vencermos as falsas dicotomias, como a falsa oposição ou a disputa entre adeptos das mais diversas religiões. Devemos trabalhar pela criação de uma cultura coletiva de tolerância e de convivência com a diversidade e com a diferença, ou seja, uma cultura de paz. O ataque a um terreiro é tão grave quanto o ataque a uma igreja, a uma mesquita, a um templo evangélico ou a qualquer outro espaço religioso.

Precisamos nos posicionar em defesa da decisão civilizatória de que a agressão e a intolerância, contra qualquer grupo que seja, devem ser encaradas como um problema de toda a sociedade. o avanço e a conquista real estão na expansão da cultura da tolerância e na formação de uma sociedade em que todos sejam respeitados, valorizados e convivam em paz. Esses conceitos são fundamentais para a consolidação da democracia e dos direitos das minorias em nosso país.

 

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