Estudo brasileiro cria composto menos agressivo para o tratamento de leucemia

Cerca de 70% dos pacientes com a doença desenvolvem reações alérgicas à medicação atual

Laboratório de testes de Covid-19
Laboratório de testes de Covid-19 (Foto: Itamar Crispim / Fiocruz)
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Mariana Nakajuni, da Agência Einstein - Pesquisadores da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Universidade de São Paulo (FCF-USP) desenvolveram uma enzima que pode reduzir os efeitos colaterais do tratamento para leucemia linfoide aguda (LLA). A enzima é uma mutação da asparaginase, um dos principais componentes de medicamentos contra esse tipo de câncer. 

A asparaginase é obtida a partir da bactéria Escherichia coli e controla a concentração da asparagina, um aminoácido que auxilia no bom funcionamento do corpo humano, mas que pode contribuir para o desenvolvimento de células cancerígenas. Enquanto células saudáveis são capazes de produzir asparagina naturalmente, os linfoblastos — células que se multiplicam desordenadamente na LLA — não conseguem. A asparaginase, então, diminui os níveis de asparagina nessas células, impedindo que elas se desenvolvam e contendo o avanço do câncer no organismo. 

“A introdução da asparaginase em tratamentos de leucemia linfoide aguda aumenta de 20 para 80% as chances de desaparecimento completo dos sintomas da doença”, afirma o estudo, publicado no periódico Biochemical Pharmacology. Porém, por ser uma proteína vinda de uma bactéria, cerca de 70% dos pacientes tratados com o medicamento produzem anticorpos contra ele. Isso leva a uma inativação do efeito da enzima e pode causar fortes reações alérgicas, que exigem a interrupção do tratamento. “A hipersensibilidade pode impedir a administração da medicação, piorando o prognóstico de LLA e aumentando as chances de recaída”, explica.  

A ideia dos cientistas era desenvolver uma enzima mais resistente à ação das proteases, que quebram a proteína em partes menores e acabam expondo as regiões da asparaginase que estimulam a resposta do sistema imune. Para isso, eles examinaram 1.128 clones da asparaginase, gerados a partir de mutações ao acaso. Dessa amostragem, seis clones foram selecionados, pois mantiveram sua função principal, ou seja, reduziram a concentração de asparagina nas células cancerosas. Em seguida, as investigações mostraram que dois deles eram resistentes às proteases e, portanto, menos agressivos ao sistema imunológico dos pacientes. 

A leucemia linfoide aguda é o câncer mais comum entre crianças e adolescentes, e ocorre quando há uma multiplicação desordenada de glóbulos brancos na medula óssea, tecido responsável por produzir as células do sangue. 

O estudo afirma que é possível substituir a asparaginase da bactéria Escherichia coli pela obtida a partir da Erwinia chrysanthemi, que não causa a mesma reação alérgica. No entanto, desde 2016, existe uma escassez global da segunda, por conta de dificuldades de fabricação. Isso preocupa os pesquisadores, uma vez que a descontinuação de doses da asparaginase — seja pela reação do organismo à Escherichia coli, ou devido à falta de Erwinia chrysanthemi — está associada a uma menor taxa de sobrevida em pacientes de alto risco. “Todas essas observações reforçam a urgência de se resolver o fornecimento de asparaginase e desenvolver alternativas que induzam uma resposta imunológica mais moderada”, finalizam os cientistas. 

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