Por Florestan Fernandes Jr. para o Jornalistas pela Democracia – “Me preocupa essa linha da polarização que a esquerda assume. Mas devo estar chovendo no molhado, pois acredito que essa decisão de polarizar seja um debate aí entre vocês da inteligência política nacional.” Esse foi o comentário que recebi de uma leitora sobre o texto que publiquei no “Jornalistas Pela Democracia”, no qual mostrava algumas das diferenças entre o fascismo dos anos 30 na Itália e o de hoje no Brasil de Bolsonaro.
Fiquei bem preocupado com o comentário. Veio de uma pessoa formada em comunicação. Ou ela não compreendeu o texto, ou o vírus esparramado por setores da mídia corporativa está corroendo o disco principal da memória de boa parte da população.
Explico: desde a campanha de 2018, para inviabilizar a candidatura de Fernando Haddad, parte da mídia argumentava que o PT e o bolsonarismo se igualavam no extremismo à esquerda e à direita. Está claro que a intenção é reforçar a ideia de que a saída para o Brasil continua sendo, pelo menos para setores da elite, a volta da centro-direita tão bem representada por FHC. Talvez Luciano Huck, Rodrigo Maia ou até João Doria. Foi justamente apoiando os candidatos da centro-direita que estes setores da elite brasileira amargaram quatro derrotas seguidas. Inclusive a de 2014 com o “incorruptível” Aécio Neves. No desespero após perderem a eleição, foram para o tapetão utilizando todas as artimanhas possíveis, inclusive o apoio a Eduardo Cunha e a Michel Temer para afastar a presidenta democraticamente eleita, Dilma Rousseff, num processo que resultou numa crise econômica sem precedentes e no enfraquecimento das nossas instituições, reforçando um antipetismo que só fez abrir caminho para a chegada ao poder da extrema-direita comandada por Bolsonaro e seus filhos.
O PT nunca foi marxista. Sua origem é ligada ao sindicalismo. Teve e ainda tem, em seus quadros, representantes das esquerdas. Mas o partido continua sendo progressista. Uma legenda de centro-esquerda nos moldes dos partidos socialistas da Europa. Lula é um grande líder reformista. Seu discurso foi e continua sendo o da conciliação.
Como disse Elio Gaspari em uma de suas colunas: “Jair Bolsonaro, o cavaleiro do antipetismo, governa o Brasil há quase um ano testando uma agenda desnecessariamente radical…Desde que ele (Lula) foi para a cadeia, muitas foram as radicalizações surgidas na política nacional. Nenhuma partiu dele.” Portanto, não existe polarização. Existe, sim, o Lula de volta à oposição fazendo ao lado de seus companheiros o embate de ideias. As especulações sobre a radicalização da política por conta da liberdade de Lula é pura manipulação.
Quando eu comecei na reportagem de televisão, o mantra repetido à exaustão no rádio e na TV era de que o PT era sectário, radical e não fazia concessões políticas. A história provou exatamente o contrário. Ao chegar ao poder, o PT fez concessões até demais. Governou com desiguais e tinha, em seu governo, intelectuais, trabalhadores, empresários e banqueiros. Abriu espaço, democraticamente, para as mulheres, os negros e os gays.
Inventar um radicalismo que não existe pensando em tirar proveito político futuro é ruim para quem depende da credibilidade para dar audiência. Mais cedo ou mais tarde, os enganados se rebelarão. Quando isso acontecer poderá ser tarde demais para voltar atrás. Vide o apoio que Bolsonaro tem de telespectadores desinformados na cruzada que ele faz contra grandes órgãos de imprensa.
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