Sou homem de sorte. Minhas filhas e minha namorada me ajudaram e continuam a estender as mãos. Conversam, dão livros, mostram filmes e eu, na plenitude dos meus 63 anos, começo, finalmente, a entender.
Feminismo não significa uma multidão de mulheres iradas querendo ser homens.
Feminismo não é sinônimo de larápias a surrupiar o emprego dos homens.
Feminismo não é mulher x homem.
Feminismo é a busca por direitos iguais.
Com paciência e amor, as três me ensinam mais: Feminismo é para mulheres e homens, porque Feminismo é caminho para uma sociedade mais justa. Isso melhora o mundo e o universo.
Sei que não serve de consolo, mas já foi muito pior. Quando minha mãe, a Therezinha, nasceu, em 1930, as mulheres não votavam. As brasileiras só começaram a ir às urnas em 1932. E, claro, votavam em homens. Não havia candidatas.
O pai dela, meu avô, proibia, sem dizer palavra, apenas com o olhar, que Therezinha fosse ao baile, que namorasse, que mostrasse os joelhos. Não era só ele. Naquela época, a maioria das moças não contestava ou argumentava, tinham medo. Medo dos machos, de seus olhares, de seus poderes.
Hoje as mulheres falam mais e falam bem. É o que ouço aqui e ali.

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Duas amigas entram no restaurante por quilo. O celular toca, está no viva voz.
– Oi.
– Querida, já sabe se vai ao show?
– Ainda não. É daqui a dez dias, né?
– Resolve logo, porque se você não for vou convidar outra pessoa.
– Isso é convite ou ameaça, Éverson?
– Convite.
– Parece chantagem. Chame quem você quiser. Tchau.
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As mulheres às vezes nem estão na cena, porém a voz ecoa, como esta semana na feira aqui do bairro. Entre espinafres e chicórias, dois marmanjos relembram um casamento despedaçado.
– Ela repetia: Armando, pra que o banco de couro? O carro já é novo. Por que não me perguntou, a gente decidia junto. Aí no dia das nossas bodas de prata você me dá um jogo de panelas porque tá sem dinheiro. Armando, aprende, vai na minha.
– Você ia, Armando?
– Não. Se eu fosse na dela, aí que a Joelma ficava cheia de razão. E eu não podia admitir, né?
– Não sei.
– Uma vez, a gente discutiu indo para Mongaguá. Ouve a frase dela: “Você tá torcendo para o caminho que eu escolhi dar errado para depois dizer, eu falei que não era por ali. E aí repetir: Joelma você é um fracasso.”
– Ela tava certa?
– Tava, mas nunca dei o braço a torcer. Acha que eu sou trouxa?
– E agora?
– Sei lá. Faz um ano que a gente não se fala.
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Na livraria, o casal, ali pela casa dos 50, toma café expresso.
Ele é escritor, lançou um livro que virou filme. É quase famoso.
– Gostou do conto que mandei pra revista, Alice?
– Mais ou menos, o início é divertido. Depois fica saudosista demais e – não leve a mal – o fim é previsível.
– Eu imaginava que teria mais apoio e menos reclamação.
– Você quer uma companheira ou uma fã?
– Você só critica.
– Aproveita enquanto é tempo.
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No balcão da padaria, mãe e filha em frente a pães na chapa com pingados.
– Rita, e o trabalho?
– Difícil, mãe.
– O que te incomoda?
– Cliente mala. O cara vai todo dia ao restaurante e sempre me chama de “Irrita”. Daí eu falo: meu nome é Rita. E ele:
– Então, “Irrita”, esse prato do dia só serve no dia?
– Sim.
– Por quê?
– Porque se for todo dia não é do dia.
– Não achei graça. Presta atenção: quero que você troque o acompanhamento do peixe. Em vez de legumes, quero risoto e no lugar da salada verde, quero o bolinho vegetariano. Não quero que passe muito e nem que demore.
– Mãe, o grosso só fala “quero, quero”. Depois, olhando o meu decote, disse que ia me esperar na saída para gente se divertir um pouco.
– O que você fez, filha?
– Contei ao gerente. Ele me trocou de mesa e botou o cliente pra fora. Diante do segurança, o mal educado pediu desculpas e se mandou.
Ouvi o “Tum, Tum” quando mãe e filha brindaram duas vezes com as xícaras fumegantes.
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Somos testemunhas: o Feminismo está vivíssimo em cada esquina. Sem medo e com um pouco de humildade, nós, os machos, temos muito a aprender e a ganhar.
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