Marli não nasceu ontem. É mulher madura e de coração calejado. Mas como resistir aos olhos de Celso? Conheceu seu amor na Bahia. Um gato, ela define. Celso cortejou, encantou e os dois passaram a morar juntos em Carapicuíba.
Essa história merece e terá alguns parágrafos a mais. Porém, antes de avançar na trama, esclareço que o que me deixou atento à paixão de Marli foi outro coração: o meu.
Um cardiologista curioso decidiu medir meus batimentos durante vinte e quatro horas e um aparelho – o tal do holter – foi fixado em meu peito. Para a maquineta trabalhar não se pode usar o celular. Nem ligar, falar ou digitar. Nada. O funcionamento de um atrapalha o outro.
Um conflito tecnológico e também um presente. Sem o celular, sem as redes, sem os aplicativos, vemos as pessoas, os pássaros, as margaridas que Gilson trouxe para vender, a estudante que corre atrás do ônibus; e também as calçadas quebradas, os congestionamentos, o abandono de nossas cidades. A vida real na era digital.
Uso o celular por necessidade e gostei do dia de folga. Como sempre faço, com ou sem o telefone, levo um livro para a pequena viagem sobre trilhos das segundas-feiras. Porém, aquele fim de tarde era da contemplação e não da leitura. Mal o trem partiu da estação Julio Prestes e a favela do Moinho me visitou pela janela.
O caminho é mais que conhecido, mas o crepúsculo por trás das construções inacabadas foi inédito para mim: o azul se avermelhando com os últimos raios de sol. O brilho nas cabeleiras de duas crianças na laje de um puxadinho.
Busco detalhes e eles abundam, basta olhar. O vagão é o C488, só ele tem esse número, como um CPF. Conecto-me no entra e sai, no senta e levanta dos passageiros. Jovem dorminhoco no banco do idoso, biscoito de camarão a dois reais, um seresteiro a cantar Lulu Santos. Viajantes a desembolsar dinheiro vivo e miúdo. E quase todos, claro, imersos em seus celulares.
Livre do meu, tenho chance de olhar melhor o casal que embarca de mãos dadas. Da cintura pra cima estão bem agasalhados; pra baixo, bermuda e sandálias de dedo. O rapaz, de pés grandes, veias azuladas e tornozelos protuberantes, esfrega os dedos. A moça, de pés delicados e unhas bem cortadas, brancas como lascas de gelo, esconde a mão no bolso do casaco dele.
Vejo também a moda de inverno do país tropical: casacos acolchoados, meias grossas e gorros coloridos. Mochilas nunca saem do figurino. Todas bojudas, pesadas. Marmitas, ferramentas, livros, remédios? Nunca saberei o que viaja dentro delas.
É então que Marli – lembra dela? – conta as aventuras de Celso, o gato. Surpresa! É um gato mesmo, um felino, e não um galã irresistível, como pensei. A conversa com uma amiga nem dá tempo à frustração.
– Fui visitar minha tia em Salvador e o gato apareceu.
– Do nada?
– Do tudo, minha filha. Chegou perto da janela e miou até eu abrir. Queria me ver em plena madrugada. Um fofo.
– O que você fez?
– Botei ele pra dentro. Dei leite morno e acomodei o bichano numa flanela. Depois, comprei uma caixa para ele viajar e paguei 500 reais na passagem de ônibus.
– Gastou hein?
– Fora a ração, os brinquedos, a caminha dele. A gente veio com tudo. Quando o chefe deixa, eu saio mais cedo para encontrar o Celso. O lindo me espera no sofá. Aí a gente janta, vê a novela e dorme junto.
– Por que escolheu esse nome?
Marli fica séria. A amiga insiste, pergunta mais uma vez. Silêncio.
Chegamos à estação Vila Leopoldina. Deixo o trem, curiosíssimo sobre os mistérios de Marli e seus Celsos.
**
Acordo e reconheço: querendo ou não, é preciso ligar o celular. Que recados me esperam, ou será que ninguém escreveu? Nem um mísero áudio? Não tenho o carisma do Celso, mas há uma solitária mensagem. Frase curta, de abreviadas palavras: “Kd vc?”.
Agora, sim. Meu coração passou no teste.
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