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América Latina

Breno Altman: onda progressista na América Latina depende de ruptura com neoliberalismo

Margens de manobra estão mais estreitas e a luta pela direção do Estado será dura, afirma fundador de Opera Mundi; veja vídeo na íntegra

Breno Altman / manifestações contra Bolsonaro (Foto: Felipe L. Gonçalves/Brasil247 | Amanda Perobelli/Reuters)
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Opera Mundi - No 20 MINUTOS ANÁLISE desta terça-feira (12/07), o fundador de Opera Mundi, Breno Altman, defendeu que a luta pela hegemonia sobre o Estado definirá os rumos da segunda onda progressista que avança na América Latina desde 2018, com a eleição de Andrés Manuel López Obrador no México. 

Em sua avaliação, reformas estruturais e esforços concentrados na educação e mobilização do povo dariam condições mais sólidas de governabilidade aos grupos progressistas que chegam ao poder em países como Chile e Colômbia, assim como à coalizão liderada por Luiz Inácio Lula da Silva, em caso de vitória nas eleições de 2022.  

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“Países que  optaram por uma forte estratégia de hegemonia, particularmente Venezuela e Bolívia, apresentaram maior capacidade de resistência ao golpismo. Afinal, ganhar o governo não é a mesma coisa que conquistar o poder”, afirma o jornalista, acrescentando que a Venezuela resiste a pressão de golpe permanente desde a chegada de Hugo Chávez ao poder, em 1998, no início da primeira onda que seria fortalecida em 2002 pela primeira eleição de Lula. 

A Venezuela adotou medidas mais duras que o Brasil, e a resposta da burguesia e do sistema imperialista foram a contrarrevolução e o golpismo. "Ironicamente, o mesmo iria se passar em países com políticas menos hostis ao capital, como o Brasil, que adotou políticas derivadas da mudança de prioridades orçamentárias”, diz. 

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Os avanços sociais durante os governos petistas se deram pela reorientação do orçamento, colocando os pobres dentro, como Lula costuma dizer, mas sem adotar reformas estruturais. Para Altman, a elite latino-americana jamais irá aceitar reformas progressistas, sejam elas menos ou mais moderadas. 

O capitalismo latino-americano, observa, foi construído com base na escravidão, a forma mais extrema de superexploração do trabalho. “Qualquer reforminha mais cedo ou mais tarde tem como resposta uma ofensiva reacionária da burguesia e de seus agentes políticos e militares. A burguesia não aceita reformas, porque sua acumulação é assentada sobre a lógica da superexploração do trabalho."

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O jornalista brincou com a sigla Ursal, cunhada jocosamente pela socióloga Maria Lúcia Vitor Barbosa, com o significado de União das Republiquetas Socialistas da América Latina, e difundida mais tarde com ares de seriedade por figuras como o bolsonarista Olavo de Carvalho e o ex-candidato presidencial Cabo Daciolo, segundo o qual seria um plano "diabólico" para impor o comunismo na região. A segunda onda avança com alcance maior que a primeira, como atesta a recente vitória de Gustavo Petro na Colômbia, país que pela primeira vez será governada pela esquerda.

Neste momento, cinco das seis maiores economias da América Latina estão sendo ou serão comandadas por partidos progressistas: México, Argentina (com Alberto Fernández), Venezuela (Nicolás Maduro), Chile (Gabriel Boric) e Colômbia, aos quais se somam Cuba, Bolívia, Panamá, Honduras e Nicarágua (o Peru também elegeu um presidente de esquerda, Pedro Castillo, que abandonou o partido original, Peru Livre, e se aproximou da direita). Caso Lula vença no Brasil, cerca de 530 milhões dos 650 milhões de cidadãos latino-americanos estarão sob governos de esquerda ou centro-esquerda a partir de 2023.

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Manifestação popular

Na primeira onda progressista que se espalhou por países como Venezuela, Brasil, Argentina, Bolívia e Uruguai, os avanços sociais se fizeram acompanhar por expansão da demanda interna, que se refletiu em aumento real dos salários para a classe trabalhadora, sem que a oferta respondesse à mesma altura. 

O crescimento dos salários empurrou para baixo a taxa de lucro das empresas, que depois da crise mundial de 2008 fizeram um giro na direção de programas de recuperação de lucratividade através de redução dos salários, precarização de direitos trabalhistas, novas privatizações e assim por diante. "Em resumo, a luta de classes foi adquirindo acelerada intensidade, alimentando a lógica de sabotagem, desgaste e golpe contra administrações avessas à implementação da nova agenda neoliberal pelo grande capital”, analisa Altman.

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A expansão interna da demanda sem industrialização e diversificação da economia levou a um crescimento brutal das importações, o que desajustava a balança comercial de vários países, fazendo vazar para o exterior o crescimento da demanda. “O governo progressista faz a lição de casa, aumenta salários e a demanda interna, e quem se beneficia não é o desenvolvimento interno, mas as economias de outros países”, avalia o jornalista, acrescentando que “a contradição entre demanda e oferta acabou por erodir a base de apoio de administrações progressistas, reabrindo espaços para os discursos de direita alinhavados pela ideia da modernização conservadora, consumista, individualista, prometida pelo neoliberalismo".

Apoiada pelos Estados Unidos, a contraofensiva conservadora levou nos anos 2010 à derrocada da esquerda em quase todos os países que governava, fosse por meio de golpes (como em Honduras, Paraguai, Brasil e Bolívia), insucessos eleitorais (Argentina, Uruguai, Peru, El Salvador) ou traições abertas (Equador). Na Bolívia, o golpe liderado por Jeanine Añez (hoje presa) foi desmontado em um ano, sob forte resistência popular, enquanto o Brasil segue desde 2016 conduzido por governos neoliberais.

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Hoje com margens de manobra muito mais estreitas, os novos governos progressistas terão de refletir a respeito da primeira onda progressista para determinar o futuro, conclui Altman. “O desafio é saber se essa segunda onda terá sustentabilidade e se os partidos e movimentos de esquerda, além de revelarem notável pujança eleitoral, estão dispostos e aptos para romper com a estrutura política e econômica que aprisiona a América Latina no modelo neocolonial comandado pela Casa Branca."

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