Opinião

A bem-vinda volta de Lupin

Capaz de derrotar seus rivais pela astúcia, o mito do ladrão cavalheiro tem muito a ensinar numa sociedade cada vez mais desigual, escreve Paulo Moreira Leite, do Jornalistas pela Democracia

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Por Paulo Moreira Leite, do Jornalistas pela Democracia

Capaz de proporcionar um rápido riso de vingança diante das tremendas injustiças da vida contemporânea, “Lupin” é uma das boas surpresas do Netflix. 

O universo social da série — cinco capítulos até agora — tem um parentesco surpreendente com o sul coreano Parasita, grande vitorioso no Oscar de 2020, ainda que os dois filmes apresentem enfoques muito diferentes. 

“Parasita” tem a grandeza de  uma obra épica, que cumpre a difícil ambição de mostrar a tragédia de uma família mergulhada nos abismos da injustiça e da falta de perspectivas da sociedade contemporânea,  conseguindo captar o ” pavoroso momento de uma civilização humana”, como escrevi aqui neste espaço (12/11/2019).  

“Lupin” é uma versão atualizada das aventuras bem humoradas de um dos grandes personagens da cultura de massa da primeira metade do século XX, período em que o cinema engatinhava e a televisão não fora inventada. 

Mito do ladrão cavalheiro, de modos refinados e educação sofisticada, que vence  pela astucia,  sem usar a violência contra inimigos e rivais,  Arsène Lupin foi um colosso industrial: protagonizou de 18 romances, 30 novelas e cinco peças de teatro. Suas aventuras deram várias voltas ao mundo, inclusive no Brasil, onde integravam o repertório de histórias que as crianças de minha geração podiam ouvir de pais e avós.

Numa série que tem Osmar Sy no papel principal, e vários coadjuvantes em boa atuação, a versão 2021 passou por várias atualizações.  

Sem deixar de inspirar boas gargalhadas, continua servindo como um painel dos dramas da existência dos pobres e excluídos de nosso tempo. 

Capaz de oferecer humor num horizonte social definido, Lupin cumpre uma função cultural sempre bem-vinda. 

Ao exibir, como protagonista, um cidadão que, nascido e criado nas camadas subalternas da sociedade, é capaz de dominar e vencer seus principais códigos de conduta, o seriado tem muito a ensinar sobre as armadilhas e preconceitos de nosso tempo. 

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