A lucidez questionadora da dama do teatro

A atriz Fernanda Montenegro "enfrentou a censura em várias épocas de sua carreira de mais de 70 anos, deixou claro que apesar da idade continua firme na defesa dos seus princípios de liberdade e do Estado Democrático de Direito", escreve Florestan Fernandes Jr., do Jornalistas pela Democracia, ao lembrar os 90 anos da artista. "O Brasil e a cultura agradecem", diz

www.brasil247.com - A atriz Fernanda Montenegro
A atriz Fernanda Montenegro (Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil)


Por Florestan Fernandes Jr., do Jornalistas pela Democracia

A primeira dama do teatro brasileiro completa hoje 90 anos de idade. Para comemorar a data, Fernanda Montenegro lançou recentemente sua biografia: "Prólogo, Ato, Epílogo". 

No lançamento do livro no Teatro Municipal em São Paulo, Fernanda, que enfrentou a censura em várias épocas de sua carreira de mais de 70 anos, deixou claro que apesar da idade continua firme na defesa dos seus princípios de liberdade e do Estado Democrático de Direito. “Sistema nenhum vai nos calar. Este é um livro sobre uma mulher de teatro e, de repente, passou a ser um ato de resistência. Estamos unidos aqui, hoje, em torno da liberdade de expressão”.

Em junho de 2000 conheci pessoalmente Fernanda Montenegro. O encontro foi no apartamento dela no Rio. Fui até lá para gravar um depoimento para o documentário, que depois virou livro, "Histórias do Poder". Ao me apresentar, falei da emoção que sentia em conhecê-la pessoalmente. Abrindo um enorme sorriso, Fernanda me respondeu: "Eu também estou emocionada. Quando soube que era você que viria fui correndo contar ao Fernando. Tenho o maior respeito e admiração pelo seu trabalho como jornalista. Além disso, eu e o Fernando somos, há muito tempo, grandes admiradores do seu pai." 

Depois desta troca de afagos, Fernanda deu um dos mais importantes depoimentos sobre o teatro, a televisão e a política brasileira no século XX. Separei um trecho bem divertido sobre a censura no Brasil no período da ditadura militar. 

"Você só sabia que o espetáculo não ia passar quando você apresentava. Quando você apresentava o espetáculo, já estava com a corda no pescoço. Quando fizemos a "Volta ao Lar", de Harold Pinter, tem uma coisa que pouca gente sabe. A peça tinha muitos palavrões. Tinha uma hora em que a peça muda de tom, que o Ziembinski tinha que dizer para o irmão, que era chofer de táxi em Londres: "olha aqui, você não consegue diferenciar uma caixa de máquina do olho do cú". Aí tinha uma pausa que o autor pede, por que o clima mudou. E os censores cortaram todos os palavrões da peça. O Ziembinski não sei como não morreu, disse: "Não, não pode cortar. Pode cortar tudo, mas não pode cortar 'o olho do cú'. Não pode... Então foram ele e o Fernando barganhar os palavrões. E o Ziembinski entrou com o raciocínio dramático dele, razões dramáticas para o palavrão. Ele dizia: "minha senhora, a senhora tire tudo, mas não tire 'o olho do meu cú'. Porque isso é fundamental para o meu papel. Essa hora é a hora em que eu paro de ser o pseudo-educado e jogo no ventilador... Liberaram. Quando a peça estreou, foi um escândalo! Teve artigo de jornal, editorial do Globo contra os termos." 

No seu livro biográfico, a atriz, que foi indicada ao Oscar pela magistral interpretação de Dora, uma ex-professora que ganha a vida escrevendo cartas para pessoas analfabetas no filme: "Central do Brasil", resumiu seu sentimento sobre a finitude: "O que lamento é a vida durar apenas o tempo de um suspiro. Mas, acordo e canto". Que esse suspiro dure ainda alguns bons anos. O Brasil e a cultura agradecem. 

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