Opinião

A revolta da vacina

– A seringa vai entortar na mão da enfermeira e entrar no furico do fascistóide. – Ah, Butan, mas isso resolve o problema da polarização? – Resolver não resolve, mas pelo menos mais um reaça toma no rabo. – Oh! A criatividade brasileira. I love, love, love it!

–     Oi! Sou a Butanvac, e você?

–     Zeneca. Astra Zeneca. Tudo bem?

–     Indo, né?

–     Você quer dizer filas enormes e muita bagunça?

–     Por aí, como dá pra você ver.

–     Tem razão. Cheguei ontem num lote de Londres, e que diferença, menina…

–     Pô, imagino. Primeiro Mundo é outra coisa, colega.

–     Mais organizado, mas tem negacionismo lá também.

–     Ah! Burrice é global. Tem jeito, não.

–     Me assusta um pouco a violência no Brasil. Tô a meia hora nessa caixa de vacinas e já vi uns quatro se estapeando.

–     Ih! E olha que hoje tá a paz nesse postinho, Astra.

–     Sério?

–     Opa. Teve colega minha do Butantã que já presenciou até tiroteio aqui.

–     My God!

–     Bota God nisso, inglesa. Agora é tudo resolvido assim. 

–     Ai.

–     Quer um exemplo? Olha lá na fila. Atrás do cara com a blusa marrom, de lã. 

–     Hummm, eu vi. Tem um rapaz abraçando um velhinho.

–     Isso mesmo. Mas não tá abraçando, tá afanando o celular do tiozinho. De berro na mão e tudo.

–     Numa fila de imunização, assalto à mão armada?

–     Quer lugar melhor, Astra? Todo mundo ansioso, com o pensamento só na picadinha.

–     É, Butan…brasileiro é criativo até pra furtar os outros.

–     Só não é na hora de votar…

–     Unfortunately…E por que ficam discutindo tanto nessa fila, Butan?

–     É a polarização. Os que apoiam o governo geralmente partem pra ignorância com os que discordam deles.

–     Nossa! O senhor de jaqueta azul está quase batendo naquela mulher de calças jeans. Que coisa mais absurda, my Lord!

–     A gente é vacina, dura pouco, mas se você ficasse mais tempo no país veria bate-boca político toda hora.

–     Não dá pra fazer nada a respeito?

–     Dá, sim. Vou te passar uma dica. Na hora em que forem vacinar o senhor de jaqueta azul, você faz. Topa?

–     Deal.

–     Seguinte: vão te botar na seringa. Você entra lá na buena. Vai se espalhando…

–     Perfect.

–     Daí vão passar algodão na nádega do sujeito violento, aqueles procedimentos todos, coisa e tal. 

–     Sim.

–     Quando forem meter agulha nele, tu te joga todinha pra esquerda da seringa. De com força, Astra.

–     É? Mas o que vai acontecer?

–     A seringa vai entortar na mão da enfermeira e entrar no furico do fascistóide.

–     Ah, Butan, mas isso resolve o problema da polarização?

–     Resolver não resolve, mas pelo menos mais um reaça toma no rabo.

–     Oh! A criatividade brasileira. I love, love, love it!

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