Alianças e trapaças que fizeram história

Alianças são uma necessidade cotidiana da política mas desastres recentes mostram que é necessário resistir à tentação de fazer pactos a qualquer custo, escreve Paulo Moreira Leite, do Jornalistas pela Democracia

(Foto: Reprodução/Twitter | Ricardo Stuckert)
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Por Paulo Moreira Leite, para o Jornalistas pela Democracia - Embora costume ser apresentada no tom de voz empostado de quem pretende revelar maturidade política e espírito responsável para encarar o futuro brasileiro, a empolgação de tantas personalidades respeitáveis com a ideia de "frente ampla", "conciliação" e outras poções mágicas de nosso laboratório político  revela um conhecido problema do país -- a falta de memória. 

As alianças que marcaram os 14 anos do PT no Planalto raras vezes deram certo -- e a postura desleal de aliados, muitas vezes definida como traição, ajuda a explicar a catástrofe que o país enfrenta hoje. 

O vice José de Alencar foi um grande aliado de Lula e uma exceção. Nunca escondeu discordâncias com determinados pontos do PT e tinha restrições à reforma agrária. 

Mas, um dos  maiores empresários do país, mantinha uma postura desenvolvimentista que era útil a Lula e necessária ao país - até para denunciar a força dominante dos interesses financeiros sobre a política econômica. 

A história ensina que há dois tipos de aliança. A menos difícil de colocar de pé  reside naqueles acordos com base em pontos de conjuntura - como o Lula Livre e, em 1984, a campanha das diretas, uma das maiores da nossa história. 

Unidos pela disposição de formar um governo sem submeter-se ao crivo do voto popular, razão que nos anos anteriores levara milhões às ruas, PMDB e PFL se aliaram para formar um governo de coalizão que, após quatro anos de mútua sabotagem, entregou o país ao Salvador da Pátria número 1, Fernando Collor. 

Alianças que envolvem a formação de governos e projetos políticos duradouros costumam ser mais complicadas e desafiantes do que simples acordos em cima de pontos definidos. 

As várias crises que marcaram os governos do PT no Planalto não podem ser separadas das alianças de governo, sempre  estabelecidas com duas ótimas intenções. Uma delas, criar um palanque sólido nas campanhas eleitorais. A outra, garantir uma base confiável no Congresso, capaz de impedir que o governo fosse sufocado por uma coalizão inimiga. 

Para fazer a discussão que interessa, vale a pena reconstituir a história da AP 470, o Mensalão, que abriu uma crise devastadora no primeiro mandato de Lula, o primeiro ataque de uma ofensiva permanente  que só seria encerrada quando Dilma foi retirada do Planalto, e, em seguida, Lula foi impedido de disputar a presidência em 2018. 

Na origem dessa crise não se encontra um adversário político de Lula nem do PT. Mas um aliado, desses que estão disponíveis em cada esquina do Congresso, Roberto Jefferson. A partir de um acordo com o PTB de Jefferson o inimigo entrou dentro de casa. 

Quando se convenceu de que seus interesses haviam sido desprezados pela coalizão do governo, dificuldade natural em qualquer acerto político do planeta, Jefferson foi à guerra. Com apoio previsível das forças adversárias, que logo passaram a atuar de modo orquestrado com a ajuda da mídia corporativa, o antigo aliado iniciou  um movimento de destruição que inutilizou a melhor geração de dirigentes do PT e não parou mais. 

O desastre de nossos dias começou com o aliado Jefferson e terminou com outro aliado, Michel Temer. Mas o vice Temer não fez tudo sozinho, vamos reconhecer. 

Após a apertadíssima vitória de 2014, que a massa militante do PT arrancou no braço na reta final do segundo turno, o governo foi ao mercado recrutar Joaquim Levy para tentar salvar o Brasil de uma catástrofe que se desenhava no horizonte. Para militantes pasmos com aquilo que ocorria nos bastidores de um governo que haviam acabado de eleger, a explicação era a mesma: ampliar o governo com novas alianças, trazendo um economista conservador que teria credibilidade para animar os  mercados e permitir a retomada dos investimentos. Na posse, banqueiros diziam que a economia seria arrumada em oito meses. Levy caiu no fim do ano. Dilma foi afastada do cargo um ano e quatro meses depois, num golpe que rompeu uma democracia instituída após 21 anos de ditadura militar. 

Mesmo profundos, desastres dessa natureza servem de advertência mas não podem ser vistos como obstáculos definitivos à realização de alianças, obviamente.  Elas  seguem sendo uma necessidade nas democracias, facilitando a formação de maiorias políticas num universo político cada vez mais pulverizado - por razões muito nobres e também por motivos nada nobres. 

Os desastres e tragédias têm a utilidade de reforçar a noção de que é preciso resistir à tentação de fazer alianças de qualquer maneira, pois podem constituir aquele tipo de esperteza que acaba devorando o dono. 

Instalado na presidência do Banco Central como homem do mercado financeiro no governo Lula, mais uma presença justificada pela necessidade de ampliar a sustentação do governo, Henrique Meirelles nunca escondeu a que veio. (Em conversas muito reservadas, na época chegou-se a pensar que Armínio Fraga, presidente do BC na fase final do governo FHC, poderia permanecer no cargo nos primeiros meses do governo Lula). 

Na crise mundial de 2008-2009, quando Lula  tentava mobilizar o país para transformar o tsunami dos derivativos numa marolinha, o Banco Central de Meirelles era um obstáculo assumido às medidas de estímulo ao crescimento. 

Enquanto Lula, Guido Mantega e os dirigentes do Banco do Brasil, Caixa Econômica e BNDES mobilizavam a força econômica do Estado para manter a economia em atividade -- tarefa em que Lula foi elogiado publicamente  por Barack Obama - o Banco Central atuava na direção contrária. Meirelles estava e sempre esteve em desacordo com o caminho escolhido e não tinha o menor constrangimento  em afirmar isso. Quando Meirelles e Mantega davam entrevistas lado a lado, era mais fácil ouvir o ranger de dentes de ambos que entender suas palavras. 

Em 2016, após o golpe que derrubou Dilma, Meirelles foi levado para a Esplanada pelo amigo Temer. Aproveitou o cargo de Ministro da Economia  para fazer o cardápio completo, da reforma trabalhista ao teto de gastos, que congela os investimentos públicos por 20 anos. Hoje, é secretário da Fazenda de João Dória. 

Este era e é o primeiro ponto a se discutir numa aliança política que pretende reconstruir um país arruinado pelo bolsonarismo, com a democracia em risco e a soberania à venda. 

Diferentemente do que acontecia no Brasil da década de 1990, que produziu José Alencar e outros empresários críticos da subordinação da economia ao capital financeiro, na Faria Lima e na avenida Paulista há um ambiente de forte alinhamento com Paulo Guedes e, por essa via, com Bolsonaro. 

Como se recordam todos aqueles que, nas últimas semanas do segundo turno de 2018, já compreendiam a natureza ameaçadora da candidatura Bolsonaro, um grande número de eleitores preferiu votar nulo ou ficar em casa em vez de apoiar o candidato que tinha compromissos comprovados com a democracia. 

Um ano depois, perspectiva de ruína nacional explica a deserção de aliados e cabos eleitorais em vários degraus da pirâmide social, inclusive ídolos populares que serviram de cabos eleitorais em 2018. 

A postura do empresariado, 100% fechado com Bolsonaro, confirma uma velha verdade sobre o comportamento político do topo da pirâmide social brasileira. Mais uma vez, a promessa de  vantagens materiais imediatas tem prioridade sobre valores morais ou princípios democráticos.  

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