Bibi e Jajá: a confraria dos párias

O editor do 247 e membro do Jornalistas Pela Democracia, Gustavo Conde, afirma que o premiê israelense Benjamin Netanyahu precisa tanto de Jair Bolsonaro quanto Jair Bolsonaro precisa dele; Conde diz "a semelhança de Bolsonaro e Netanyahu é, fundamentalmente, essa: eles não representam seus povos. Alçaram o poder com as diversas variedades de atalhos obscuros, um com o parlamentarismo debaixo do braço armado e outro com a guerra híbrida das mentiras digitais turbinadas por empresários escravocratas e sonegadores"

Bibi e Jajá: a confraria dos párias
Bibi e Jajá: a confraria dos párias
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Netanyahu e Bolsonaro são irmãos siameses na vocação de párias internacionais. Com sua política genocida e egocêntrica, Netanyahu é capacho contumaz de Donald Trump. Habita um mundo que espanca os símbolos sagrados e cuja proficiência se resume à dicção da força. São dessas figuras que, diante das palavras ‘amor’, ‘igualdade’ e ‘democracia’, se coçam antes de fugir.

Netanyahu é o Bolsonaro de Israel, um pouco mais culto, talvez (proeza absolutamente impossível de não ser cumprida). Triste, fraudulento, inseguro, covarde e subserviente. Sem o arsenal nuclear e o dedo podre dos americanos, teria de combinar alguma coisa com os russos para sobreviver. Geopolítica é dose. Ainda mais em terra historicamente conflagrada e disputada.

Israel, não nos enganemos, é tão complexo quanto o Brasil e comporta uma heterogeneidade política tão exótica quanto à nossa. Há vários Israéis e, há quem diga, pelo menos dois. O de Netanyahu, que busca esmagar palestinos, e o de Amos Oz, que busca a paz e a devida deferência aos povos árabes.

O escritor israelense morreu justamente quando o premiê que não o representa arriscou um voo inédito ao Brasil, novo pária internacional, habitante recém-chegado no mundo dos fundamentalismos charlatães de ultra-direita.

Se Hitler fosse vivo, viria à posse de Bolsonaro. Se Mussolini fosse vivo, viria à posse de Bolsonaro. Se Ustra fosse vivo, desfilaria no rolls royce da presidência da república, ao lado de Bolsonaro.

Um governo que faz apologia aberta à tortura, a assassinatos (o natal em local de desova de corpos, a Restinga de Marambaia), ao ódio, à mentira só poderia ter a admiração e a chancela de um governo que pratica atrocidades contra palestinos e envergonha a maioria do povo israelense, pacífico e inscrito na lógica da democracia.

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A semelhança de Bolsonaro e Netanyahu é, fundamentalmente, essa: eles não representam seus povos. Alçaram o poder com as diversas variedades de atalhos obscuros, um com o parlamentarismo debaixo do braço armado e outro com a guerra híbrida das mentiras digitais turbinadas por empresários escravocratas e sonegadores.

Há diferenças, no entanto. Netanyahu não é a expressão da boçalidade extrema. Ele faz política há mais de 30 anos com os peixes grandes da cena internacional. Conhece a psicologia dos governos, as oscilações de humor, os interesses econômicos, enfim, é fascista mas é player.

Bibi, como Netanyahu também é conhecido – um apelido fofo demais para um agente político fofo de menos -, flana nas asas no trumpismo, escorando-se das eternas crises internas que os segmentos políticos indóceis de Israel têm a dignidade de preservar.

Mas Bibi sente a água dessalinizada bater na bunda. Ele articulou a dissolução do parlamento e convocou eleições para 2019. Nem de longe está garantido na condução do governo. Arriscou porque teve de arriscar.

É por isso que ele precisa de Bolsonaro e do exotismo político extemporâneo que brotou abaixo da linha do Equador. Bibi sabe que Bolsonaro é uma peça descartável, extremamente fragilizada pela ausência de personalidade. Bibi sabe que Bolsonaro nega a política.

Convenhamos: Netanyahu pode ser um agente truculento do ultra-conservadorismo judaico (que extrapola a própria cultura judaica, nos flertes surpreendentes que o premiê faz com os evangélicos americanos), mas não representa pura e simplesmente a negação da política.

É até curioso que seu nome seja tão bipolar: Bibi Netanyahu. Enquanto ‘Netanyahu’ tem uma articulação fonética ríspida, resvalando na lógica onomatopaica, ‘Bibi’ parece coisa de criança. Noves fora, isso revela traços da personalidade do premiê, que pode ser escroto, mas não é rupestre como Bolsonaro.

O cálculo de Bibi, com essa aproximação do Brasil é puramente estratégico: o Brasil ainda carrega uma imagem residual de grande país no exterior. Um flerte desses, mesmo Bolsonaro sendo um pária, gera dividendos políticos na cena interna da política israelense. Ou, se preferirem: o marketing supera a factualidade que, a rigor, nem existe (Netanyahu não tem afinidades com o bolsonarismo, porque o bolsonarismo é a versão subdesenvolvida do racismo).

Por outro lado, o bolsonarismo precisa de Bibi. Pária internacional mais anunciado das últimas décadas, Bolsonaro precisa de algum chefe de Estado para chamar de seu. O premiê israelense atende perfeitamente para essa função.

Claro que há muito mais em jogo. Há em cena uma hiper interpretação dos símbolos religiosos que se alastra pelas comunidades evangélicas brasileiras. Elas fazem um movimento de atualização dos textos sagrados, subscritos na conhecida condição da interpretação de texto que se nos foi legada por toda sorte de pressões sócio-educacionais.

Chamando Bibi para dançar, Bolsonaro agrada e sacia a demanda por essas simbologias supostamente atávicas (a atualização artificial e forçada, que mergulha na literalização do passado), instadas neste populoso e decisivo segmento (os evangélicos é que decidiram a eleição em favor de Bolsonaro, mais especificamente as mulheres evangélicas).

Os evangélicos fazem uma leitura excessivamente literalizada dos textos cristãos, sufocando a poesia das metáforas, clássica dicção subscrita no catolicismo. Essa simplificação os faz pensar que o premiê israelense representa algum tipo de verdade místico-religiosa.

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Tudo é uma imensa fraude, a bem da verdade, como sói acontecer em disputas de poder tão violentas, ressentidas e mal resolvidas com o próprio passado. Bolsonaro e Netanyahu são dois dinossauros lutando agonicamente contra a própria extinção.

A tsunami fundamentalista do ocidente pode afundar tão rápido quanto emergiu. Trump está ameaçado de sofrer impeachment e sua reeleição já é dada como incerta por muitos especialistas. Bibi pode sofrer um revés nas próximas eleições do parlamento e Bolsonaro inicia seu governo acossado pelo caso Queiroz e por sua absoluta e escandalosa falta do que dizer.

Juntos, no entanto, Bibi e Jajá (permitam-me chamar Jair Bolsonaro de Jajá, para buscar uma simetria onomástica com o colega) formam uma dupla curiosa. Um é pária internacional há boas décadas. O outro acabou de entrar para o clube. Há no horizonte, uma espécie de “confraria dos párias”. Viktor Orbán, da Hungria e Rodrigo Duterte, das Filipinas, completam essa excentricidade semântica e política.

Não deixa de ser interessante.

Ademais, o oportunismo mútuo de se jogar com a imagem alheia para colher dividendos políticos de sustentação não parece lá ter muita eficiência histórica. Como dizia aquele assessor de Bill Clinton, James Carville, no final de tudo, o que conta mesmo “é a economia, estúpidos”.

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