Bolsonaro joga para a própria plateia e perde apoio em todos os campos

"Investido da certeza de que levaria as fileiras a segui-lo em sua aventura autoritária, desta vez Bolsonaro levou um toco e novamente assumiu o papel de 'lançadeira', voltando atrás em tudo o que tinha ameaçado. Não convenceu. O que consegue é desnortear a verdadeira pauta do momento, o combate ao Covid-19", diz Denise Assis, do Jornalistas pela Democracia

Bolsonaro participa de ato por intervenção militar
Bolsonaro participa de ato por intervenção militar (Foto: Ueslei Marcelino/Reuters)
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Por Denise Assis, do Jornalistas pela Democracia

Em um dos primeiros textos que escrevi para o 247, comparei as oscilações e atitudes de Bolsonaro à pecinha da máquina de costura chamada “lançadeira”, cuja função é ir e voltar levando a linha que amarra os tecidos. Uma descrição simplória, para um personagem idem. Não há como falar em sofisticação quando se trata de Jair. Até mesmo o sociólogo português, Boaventura de Sousa Santos, reconhecido mundialmente, reduziu o discurso para melhor definir o que se passa no Brasil, em plena era da Covid-19: “o Brasil é um caso especial. Porque o Brasil não tem um problema de Saúde Pública, tem dois. A pandemia e o presidente.” Uma fala direta, para resumir o cenário a que estamos expostos.

O Bolsonaro que subiu numa caminhonete e foi até a porta do QG do Exército em Brasília, no domingo (19/04) – dando as costas ao bom senso e às regras de saúde – dando apoio a um movimento golpista, sabia bem o que estava fazendo, para quem estava falando e o que estava dizendo. A esta altura, é forçoso voltar ao discurso do dia 21 de outubro de 2018 (entre o primeiro e o segundo turno da eleição que o levou ao cargo), como já considerei também em um dos meus artigos, o seu verdadeiro discurso de posse. 

Ali está a bula que norteia o seu governo. A frase dita no domingo passado está lá, literal, para quem quiser reprisá-lo: “Vocês estão aqui porque acredito em vocês. Vocês estão aqui porque acreditam no Brasil”. E quem quiser entender os seus passos e suas mesuras, tem de levar aquele discurso em conta. Aterrador, sim, mas ali está contida a sua verdadeira essência e as promessas feitas ao eleitorado. 

Bolsonaro fala para a parcela de 30% de fanáticos que o seguem (elegeu os canais popularescos para as suas aparições de TV, com largo alcance entre os ainda sem-internet) e naquele dia, o 21 de outubro, discursou também aos outros 27 %, capturados pela cartilha da Lava-Jato, antes dos vazamentos de Glenn Greenwald e da estagnação econômica, que o golpe e o seu governo provocaram e ele não resolveu. 

“Nós somos o Brasil de verdade. Junto com este povo brasileiro construiremos uma nova nação (...). Nós acreditamos no futuro do nosso Brasil e juntos, em equipe, construiremos o futuro que nós merecemos” (21/10/2018). Jair falou e continua falando para aquela gente. A sua gente. Pessoas a quem ele fez acreditar que após a sua chegada à cadeira presidencial, tudo poderia. Bastaria mandar um cabo e um soldado. “Nós não queremos negociar nada”, disse, no domingo. Traduzindo: estamos dispostos a tudo e não dependemos de ninguém porque o poder somos nós. Ou voltando à fala na Paulista: “construiremos o futuro que nós merecemos”. 

Uma de suas principais provocações aos seguidores é fazê-los acreditar que estão lhes tirando o único direito de participar da vida política do Brasil: o direito de escolher e ter o seu representante. Ao se colocar como o alvo de uma trama para derrubá-lo, Bolsonaro faz crer à sua gente, que estão tentando tirar deles o poder de escolha. O livre arbítrio. Ao tentarem “derrubá-lo” ou “manietá-lo” é a eles que o STF e a Câmara estão imobilizando. Este é o significado do seu discurso. Por isto produz tamanha revolta.

Quando se depara com os freios e contrapesos dos demais poderes que compõem a democracia e das regras impostas ao presidente pela Constituição, Jair age como menino contrariado no shopping. Senta-se no chão para demonstrar o tamanho da frustração e da ira que o acometem. Sabe que prometeu (em 21 de outubro) o que não consegue entregar, esbarrando nos limites da institucionalidade. Neste ponto, retorna ao Vale do Ribeira, onde via os filhos de Rubens Paiva tomar banho de piscina e andar a cavalo, recreações impossíveis para a sua infância pobre retratadas por 01 na biografia que fez do pai. Faz o ressentido.

Para acalmá-lo e permitir que a máquina não pare a cada solavanco provocado por suas estripulias autoritárias – autoritárias, sim. Não adianta aumentar o tom, quando perde em argumentos – os militares da reserva que o cercam e de fato dirigem o país, o engambelaram (tal como se faz com os meninos), mostrando que o poder ele já conquistou e tem a Constituição nas mãos. 

Foi o bastante para sair repetindo: “Eu sou a Constituição”, numa tradução livre da frase de Luiz XIV: L’État c’est moi”. Maior atestado de autoritarismo, só na corte do rei em questão. Outra do mais puro pendor ditatorial: “Todos no Brasil têm que entender que estão submissos à vontade do povo brasileiro”. Ora, se ele se traduz como “o povo”, estão todos submissos à sua vontade. Elementar, meu caro...

Para se justificar diante do seu público, e não parecer “fraco” – imbuído dos princípios machistas que o norteiam – Jair assume o papel de vítima, elege um inimigo e o “atiça” através das fileiras de “robôs” que os filhos manejam com maestria. E, no domingo, os inimigos eram os já eleitos na manifestação anterior, convocada por ele, a do dia 15 de março: o STF e o presidente da Câmara, Rodrigo Maia. 

Formada a tempestade perfeita Jair costuma desviar a atenção da mídia, conflita os poderes e distrai o país, enquanto não governa, não decide. Ele é o tipo que não sabe e tem preguiça de aprender sobre como funciona o boeing que pilota. 

Rodrigo Maia não só sabe, como tem domínio da pauta e respeito do plenário, o que lhe dá poderes para barrar as excentricidades vindas das medidas provisórias presidenciais, muitas delas inconstitucionais, como foi o caso do “Decreto das Armas”, repleto de “pontos de inconstitucionalidades”, como apontou, na ocasião. Porém, se esquiva dos ditames da Constituição, onde consta ser ele o síndico a assumir o país em caso de impedimento da chapa Bolsonaro/Mourão. Sonha com a cadeira, mas não em tempos de pandemia, e com prazo para apenas organizar novas eleições.

No STF os ataques de Jair são rechaçados por parte dos ministros, enquanto o presidente Dias Toffoli sempre tenta contemporizar. (A ponto de impedir a sua queda). Desta feita, porém, foi instado não só a reagir, como a agir, indo ter conversa com o ministro da Defesa e seu “ex-comandado”, Fernando Azevedo da Silva. Foi a primeira vez que o ministro expôs, em nome das Forças Armadas, qual é a posição dos militares diante dos arroubos de Bolsonaro. Ao lado da Constituição. 

Investido, porém, da certeza de que levaria as fileiras a segui-lo em sua aventura autoritária, desta vez Bolsonaro levou um toco e novamente assumiu o papel de “lançadeira”, voltando atrás em tudo o que tinha ameaçado. (Não convenceu. Não convence e não mete medo). O que consegue é desnortear a verdadeira pauta do momento, o combate ao Covid-19.

Isolado, resta-lhe o pupilo e procurador-geral da República, Augusto Aras, que levado por todas as forças da sociedade contrárias às atitudes de Jair, abriu inquérito para apurar a organização de “atos contra a democracia”, dadas as movimentações ocorridas em várias cidades, todas exibindo faixas e cartazes confeccionados com esmero, e da mesma “grife”. Aras excluiu o presidente das investigações, sob o frágil argumento de que pretende “investigar a ação dos organizadores”. Tivesse relido o discurso da Paulista do dia 21 de outubro e poderia economizar tempo e dinheiro. Na dúvida, era só verificar o vídeo do pronunciamento presidencial na base aérea de Roraima, antes do embarque para os EUA, quando convocou a população para o ato do dia 15: "quem tem medo de movimento de rua não serve para ser político". Alguém poderia complementar a sua frase, dizendo: E quem tem medo de fazer política, não serve para governar.

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