Bolsonaro perde relevância

"Mais do que incompetente, perigoso. Mais do que tosco, irresponsável. Jair Bolsonaro conjuga falhas de caráter com nanismo cognitivo e se transforma num estorvo à paz social exigida pelo momento de conflagração a que estamos submetidos", diz o jornalista Ricardo Bruno, acerca da crise política que toma conta de Brasília

Com a Wal de Bolsonaro, Eleição 2018 será ainda mais cínica
Com a Wal de Bolsonaro, Eleição 2018 será ainda mais cínica (Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil)
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Mais do que incompetente, perigoso. Mais do que tosco, irresponsável. Jair Bolsonaro conjuga falhas de caráter com nanismo cognitivo e se transforma num estorvo à paz social exigida pelo momento de conflagração a que estamos submetidos. Atordoado, incendeia a Nação, com ataques e ameaças a adversários e a seus próprios colaboradores. Seus movimentos erráticos estão transformando a vida dos brasileiros num pandemônio. Não bastassem as turbulências funestas decorrentes da disseminação do vírus, estamos sujeitos ainda aos arrancos ilógicos e grotescos de um presidente que age quase sempre movido pelo ódio patológico.

Neste torvelinho de crises, o país afunda não apenas na recessão mas, sobretudo, na desesperança, na falta de horizontes para a retomada, na ausência de confiança naquele que deveria nos conduzir com segurança na travessia à normalidade. Aos poucos, a cada ato desmesurado, a cada rompante avilanado, a cada agressão disparada a esmo, Bolsonaro se reduz, se deprecia, se apequena diante dos brasileiros que dele ainda esperavam um mínimo de equilíbrio. Cada vez mais, governa menos; não delibera, não decide, não orienta; as ações que ainda norteiam a rotina administrativa do país são emanadas pela junta palaciana que reúne militares e civis ainda comprometidos com o bom senso.

A observação da rotina presidencial mostra que a Bolsonaro está reservado um papel menor, quando muito coadjuvante Por absoluta inépcia, perdeu protagonismo: de chefe da nação passou a reles animador da trupe. Desajeitado, troncho, primário, Bolsonaro é uma caricatura presidencial. Sobram-lhe defeitos na imagem desfocada que insistentemente projeta a partir de suas ações estapafúrdias.  À distância, vê-se o contorno burlesco de um palhaço. No zoom, encontramos um homem desorientado, em meio à tempestade que ameaça seu reinado. Em público, rosna maldições, vitupera ataques, com esgares que traem desequilíbrio e insegurança.  Encrespado, faz ameaças de que vai exercer finalmente o poder que lhe confere o cargo. Já não consegue. Contido pelas instituições, e pelo próprio grupo palaciano, não ultrapassa a linha das provocações, retirando credibilidade de seus movimentos.  Torna-se apenas um ventríloquo malsão das alucinações de seu guru, Olavo de Carvalho.

Por necessária, há uma nítida ação de isolamento do presidente diante do agravamento de seu quadro patológico - marcado pelo desvario quase absoluto. As instituições da República, Câmara, Senado, Supremo e governadores , se articulam diretamente e definem diretrizes para o país, à revelia dos arroubos insanos do presidente. O processo faz Bolsonaro perder relevância.

O caso do Ministro Mandetta é exemplar. Bolsonaro não exige apenas alinhamento ideológico. Quer mais: quer submissão canina a sua obscura visão terraplanista. Ninguém dúvida da natureza conservadora de Mandetta, que destruiu o programa farmácia popular, não chamou de volta os médicos cubanos e apoiou o golpe que retiraria Dilma do poder, abrindo espaço para ascensão de Bolsonaro. O presidente quer demiti-lo, portanto, não por distanciamento ideológico, mas pelo brilho com que conduz os trabalhos no front de combate ao vírus. Bolsonaro não perdoa a inteligência, mesmo em seu campo político. O seu pacto não é apenas com a direita. É, sobretudo, com o atraso. Mais uma vez, contudo, foi posto a recuar, num zigue-zague público próprio de quem já não manda como imagina.

Médico, Mandetta jurou o mandamento de Hipócrates; não a cartilha de absurdos do astrólogo atrabiliário da Califórnia. Ao ameaçar demitir o ministro, Bolsonaro tenta, na verdade, fazê-lo renunciar ao manuscrito bizantino em que os profissionais de medicina se comprometem a exercer a arte de curar, fiel aos preceitos da honestidade, da caridade e da ciência. Ofuscado e atormentado, o presidente talvez queira reescrever Hipócrates, fazendo seu ministro da saúde jurar obediência aos desonestos, injustos, néscios e parvos. Até aqui, para a sorte dos brasileiros, não conseguiu.

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