Ciro e PC do B querem ser boia de salvação de Bolsonaro?

"A repulsa nacional diante do escândalo Queiroz antecipa crise inevitável do governo Bolsonaro e deixa uma pergunta sobre o papel que Ciro Gomes e o PC do B pretendem desempenhar para defender a democracia e os interesses da maioria", escreve Paulo Moreira Leite, articulista do 247. "Num impasse em gestação, o pior que que pode acontecer no Congresso é uma aliança dos antigos adversários de Bolsonaro com Rodrigo Maia, criando uma geléia política capaz de paralisar o debate político e amortecer um descontentamento que já mostra vigor, inclusive em mensagens negativas nas redes sociais"

 Ciro e PC do B querem ser boia de salvação de Bolsonaro?
Ciro e PC do B querem ser boia de salvação de Bolsonaro?

A repulsa nacional diante do escândalo Queiróz-Bolsonaro pode ter uma utilidade insubstituível. Ao mesmo tempo em que alerta os navegantes do céu de Brasília sobre o aparecimento de nuvens sombrias no horizonte de um governo recém-empossado, ajuda a sublinhar a obrigação das forças comprometidas com a democracia e os interesses do povo a preparar uma porta de saída para uma crise cuja gravidade não pode ser minimizada.

Neste horizonte de crise em gestação, quando o Executivo encontra-se militarizado e o STF cotidianamente abre mão de suas obrigações constitucionais, o pior que pode acontecer no Congresso é uma aliança dos adversários de Jair Bolsonaro com Rodrigo Maia, reforçada pela cooptação do PDT de Ciro Gomes (28 deputados) e PC do B (9). A operação soma 37 votos em plenário mas possui um alcance político maior. Expressa a lamentável ruptura das lideranças que fizeram oposição à extrema-direita no segundo turno e mais do que nunca deveriam estar unidas para enfrentar as ameaças que já se desenham na paisagem.  

Ambiente natural para o debate, a contradição e a disputa entre forças abençoadas pelas urnas, a transformação do Congresso num bloco monolítico de apoio a um governo eleito por 39,3% dos brasileiros representa uma opção suicida do ponto de vista da democracia e da preservação das instituições construídas pela Constituição de 1988. O que se pretende é preparar uma geléia -- disforme pela própria natureza --, capaz de paralisar a disputa política -- o que sempre beneficia quem está no comando --, dividir forças que deveriam estar unidas e amortecer um descontentamento que começa a mostrar seu vigor, inclusive no predomínio das mensagens negativas nas redes sociais.

Sem apelar para as conversas sobre "velha" e "nova" política, noções  manipuladas ao gosto do freguês e do interesse do momento, o importante é reconhecer que, do ponto de vista dos interesses e valores da maioria,  este pacto   constitui uma mão estendida a  um governo que  antes de completar um mês no Planalto já se definiu assim:

--inimigo da paz social, como mostra o decreto de armas;

--adversário dos mais pobres e desamparados, como está claro pela proposta de reformar a providência e outras medidas anti-sociais;

--disposto a todo tipo de aventura para agradar Washington,  como demonstra em suas risíveis manifestações a favor de uma intervenção na Venezuela.

--finalmente, nenhuma disposição para apurar ou esclarecer suas mazelas e tragédias internas, como está claro no caso Queiróz-Flávio Bolsonaro.

Mesmo envolvendo personalidades diferentes -- e ninguém irá negar a distância que separa  Rodrigo Maia do último antecessor -- a cooptação das lideranças que se apresentaram como adversárias de Bolsonaro no palanque e agora mudam de lado reproduz o esquema destrutivo que empossou Eduardo Cunha -- agora com o sinal trocado.   

Se o foco anterior era preparar o terreno para o golpe de abril-agosto de 2016, a missão em 2019 será formar um muro de proteção para defender Bolsonaro contra ventos, marés e inevitáveis trovoadas. O espírito manda-chuva permanece, opção obrigatória.

O fundamental, aqui, é negar a soberania popular que, em contraste com a eleição presidencial, colocou o Partido dos Trabalhadores como o primeiro em número de deputados eleitos, em contraste flagrante com a eleição presidencial, registrando um país politicamente dividido, longe do salvacionismo mistificador que o Planalto anuncia desde 1 de janeiro.  

O respeito ao espírito democrático sempre foi condição para o Congresso se colocar a altura das dificuldades surgidas ao longo da eterna luta dos brasileiros e brasileiras  pela preservação de direitos e liberdades. 

Na conjuntura de dificuldades que se anuncia, a motoniveladora articulada pelo Planalto procura sufocar o Congresso através de uma falsa maioria, que nem Bolsonaro não obteve junto ao eleitorado. Já sabemos quem ganha com isso: o atraso, o entreguismo, a miséria. Já sabemos quem perde: o povo.

Alguma dúvida? 

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