Escola sem perdão

Qual "partido" pressupõem que as "escolas" tenham? Será o partido de combater a intolerância, o preconceito, o desrespeito pelos outros, de incentivar uma atitude ética e responsável frente à vida?

Até quatro anos atrás, atuei como professora em um curso de Jornalismo de uma Instituição particular no Ceará. Ao todo, foram nove anos. Aprendi muito com essa experiência. Aprendi, por exemplo, que a vivência em sala de aula pode ser tudo, menos monótona ou "controlada". Uma aula planejada com cuidado pode tomar um rumo completamente diferente, pelo simples fato de que lidamos com gente, e cada um tem sua própria visão de mundo, que pode vir à tona a qualquer momento. É por isso que a maior alegria de um professor vem daquela aula em que a turma inteira se envolve e todos aprendem, inclusive ele. É a sensação de que vale a pena persistir ensinando, não pelo salário, que faz muito tempo é baixo demais no país, mas pela realização. Tive retornos incríveis, como o de alunos que já trabalhavam na área e transformaram sua atuação a partir do que foi discutido na turma; ou os que anos depois mencionam sua gratidão e a lembrança de determinada aula que marcou. Até hoje agradeço pelas inúmeras experiências positivas que vivi.

Mas há muitas dificuldades, que têm aumentado nestes últimos anos, aliás. Há uma grande pressão feita pelas instituições de ensino. Tornou-se padrão exigir mais e mais atividades extra-classe dos professores sem remuneração à altura. Quem tem família divide-se entre duas ou três instituições para conseguir um salário compatível com os gastos. As exigências são muitas, e há sempre alguém disposto a reclamar de algo. Do professor se espera que seja pontual, que envolva boa parte dos dias -e noites- em preparar aulas e corrigir provas, que tenha uma paciência sem fim, que exercite ao máximo sua criatividade em tornar assuntos interessantes e devidamente ilustrados pelos novos meios digitais e, de quebra, que mantenha todos alunos satisfeitos, o que realmente é muito difícil. Hoje em dia, com o ensino transformado em mercadoria, os alunos são "clientes" e podem reclamar da nota recebida, sempre que não lhes agradar, sem precisar, para isso, justificativa alguma. Dos professores se espera tudo, dos alunos nada. Nem gentileza, nem ética, nem vontade de aprender.

A falta de respeito para com o professor em aula na última década é notória. Eu senti isso na pele, precisei lidar com simples conversas paralelas que não silenciam ou celulares tocando – e sendo atendidos! - em sala. Um dia, um aluno ameaçou bater no outro por considerar que ele estava me desrespeitando, e precisei acalmar os ânimos... Em outro, logo após a apresentação de um trabalho sobre assistência social (e religiosa) aos LGBTS, feita por um aluno de orientação homossexual, um grupo exigiu a palavra para condená-lo, com direito a citação de trechos da Bíblia!

Mas também fiquei sabendo de casos mais graves, bem próximos a mim, como o de uma professora ameaçada repetidamente de agressão que não recebeu apoio suficiente da instituição, relutante em expulsar o autor das ameaças. Sobre isso, basta acompanhar as notícias nos jornais para saber de agressões que chegaram às vias de fato e comprovam o grau lamentável de desrespeito aos mestres...

Refleti, diversas vezes, que a falta de valores da sociedade acabou estourando em sala de aula, um ambiente pequeno, em que o professor é obrigado a lidar com todo tipo de gente, muitos que foram pouco educados para viver em sociedade, ou muito egoístas, ou ainda sem a mínima noção de como contribuir com a coletividade. Ou seja, tudo que funcionou mal na criação destes jovens desemboca ali, como turbulência que o professor precisa resolver a cada dia, da melhor forma possível.

Da minha vivência em particular, posso dizer que abandonei o magistério devido a diversos fatores, entre eles um profundo desestímulo com certos retornos negativos de alunos. Como responsável pela disciplina de Estética e Meios de Comunicação, resolvi transformar uma das notas do semestre em um divertido trabalho para dar aos alunos a oportunidade de exercitar alguma tendência artística. Assim, propus a cada um dos grupos gerar uma obra (desenho, montagem fotográfica, pintura, poesia, música, etc.) que abordasse a releitura crítica de algum conto de fada. Algo como aquela versão de que chapeuzinho vermelho jogava lixo na floresta, e o lobo era um ambientalista ferrenho...

É claro que eu não iria avaliar o grau de talento artístico de cada um, o que contava era a reflexão e a tentativa de expressão artística, era uma prática lúdica. Me coloquei à disposição ao final de diversas aulas para esclarecimentos, mas a maioria não fez uso disso. No dia da avaliação, muito desengano, muita falta de preparação, e também algumas trapaças. Surgiu um lindo desenho de uma Branca de Neve vampira, com pouca explicação crítica para justificar a interpretação. Chegando em casa, fui direto ao Google – prática desenvolvida com presteza por todos professores-, e lá encontrei o desenho.

Dei um zero, achei que ainda podia fazer isso. Os alunos que receberam a nota, entretanto, não se conformaram. Me perseguiram pela Faculdade em dias de aulas com outras turmas, pediram que eu desse alguma nota pela apresentação -ou seja, por terem contado a história de Branca de Neve em aula (!?)-, e fizeram outras argumentações ridículas. Não cedi. Eles mobilizaram a parte da turma que havia se saído mal no trabalho e mais duas outras turmas que nada tinham a ver com isso, para fazer reclamações sobre mim na coordenação.

O coordenador de curso, um profissional e humano de verdade, entendeu o que havia acontecido, mas uma pedagoga foi designada para acompanhar minhas aulas. Como estava passando por crises recorrentes de afonia, também, e ainda por problemas pessoais, além de sentir a grande degradação da qualidade de vida na cidade, decidi que era tempo de buscar outras formas de lidar com a vida...

Minha experiência me fez ver os colegas que continuam a exercer a profissão como heróis, por persistirem em lidar com um público em sua maioria acomodado, sem criatividade, e sem a mínima compreensão para com quem não tem direito sequer de ficar doente e passa, muitas vezes, noites em claro preparando aulas e corrigindo provas. Qualquer deslize, mínimo que seja, cai logo na Coordenação do curso, que pode não ser tão compreensiva. Em outros casos, mesmo sem deslize algum, os "clientes insatisfeitos" inventam situações para vingar-se ou para obrigar o professor a refazer trabalhos e provas que não foram do seu agrado. Como também passei um período na Coordenação de curso, testemunhei claramente muitas destas situações, e precisei negar ao "cliente" a revisão, tentando dar ao remédio gosto de bala de mel...

E, de repente, sem ter a menor noção da realidade nas salas de aula, alguns parlamentares surgem com a tal proposta da "Escola sem partido". Como se fosse possível lidar, hoje em dia, com um bando de crianças e jovens já des-educados pela internet ou pela TV, sem que eles questionem cada parte do que lhes parece diferente. Como se o professor ainda tivesse autoridade sobre as turmas. Como se as aulas fossem algum tipo de equação exata de depositar conhecimento na cabeça dos alunos. Como se os educadores não tivessem que passar por processos exigentes de formação e seleção para desempenhar suas tarefas, como se não fossem avaliados todos os dias por alunos, pais, diretores, coordenadores... Como se fosse algum prêmio lecionar em uma sociedade que não remunera minimamente ou sequer cuida da segurança física de quem se encarrega desta missão ingrata... Como se professores fossem bandidos!

A perseguição e humilhação a que foi submetido o Reitor da UFSC, Luis Carlos Cancellier, incluindo ser conduzido a uma delegacia, colocado nu e ser submetido a revista íntima – que o levou ao suicídio -, será o início de uma nova era, em que professores serão considerados criminosos!? - E agora anunciam, como se fosse algo a ser comemorado, a "Lava-Jato" na Educação!? Não, é uma nova onda de violência, que se dissimula, mais uma vez, de combate à corrupção, mas não passa de manifestação irada de uma sociedade corrupta e amarga, que não pode admitir a sobrevivência, em seu âmago, de alguns oásis de esperança, de preservação de valores, que abriguem o incentivo ao pensamento livre. Quanto tempo vai precisar para os que ainda conseguem distinguir a água do barro entenderem que não se pode lavar o Brasil com jatos de lama!? Quantas outras vidas vão ficar pelo caminho? Qual o estímulo que restará para uma profissão tão perseguida e penalizada? Que país sobreviverá a isso!?

Ah! E qual "partido" pressupõem que as "escolas" tenham? Será o partido de combater a intolerância, o preconceito, o desrespeito pelos outros, de incentivar uma atitude ética e responsável frente à vida? Eu pergunto: como juntar um bando de seres ainda em processo de educação NA MESMA SALA (e talvez armados) se eles não tiverem as mínimas condições de respeitar-se mutuamente e ao professor?

Escola sem partido!? Não, o que dizem, por trás de sua hipocrisia, é que há uma Escola Sem Perdão. Os indivíduos fascistas, que mataram dentro de si qualquer esperança de uma sociedade mais justa e feliz, querem matar todas as nossas esperanças. Querem cobrir com lama tóxica a nossa vontade de ensinar, de aprender, de criar, de amar! A única coisa que pode detê-los é a nossa resistência em voz alta, nossa coragem em persistir com as diversas formas de continuar a construir um Brasil melhor.

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