Golpes por todos os lados?

"Se Bolsonaro ameaça com golpe, é preciso intimidá-lo. Se vai ter golpe, é preciso que haja resistência", defende Aldo Fornazieri

www.brasil247.com - Ato Fora Bolsonaro
Ato Fora Bolsonaro (Foto: Oliven Rai/Mídia Ninja)


Embora Bolsonaro seja golpista, não tem força para dar um golpe. Nunca teve e dificilmente terá. Mas boa parte da esquerda, desde o início desse governo, vê golpes por todos os lados. Há quem diga que o golpe virá com certeza. Outros jogam o golpe para depois da posse de Lula. Tem gente também que aconselha enviar os filhos para o exterior. De modo geral, boa parte da esquerda vem exercitando a pedagogia do medo. 

Aliás, a cidadania brasileira vem sofrendo um ataque em pinça pela pedagogia do medo: de um lado, Bolsonaro. De outro, setores oposicionistas. São duas pedagogias diferentes. Mas resultado é o mesmo: Bolsonaro intimida; setores de esquerda disseminam medo. Medo de golpes, medo de enfrentar Bolsonaro, medo do segundo turno...

Bolsonaro e o bolsonarismo adotam a metodologia do nazi-fascimo para se imporem pela intimidação e pela violência: das mentiras transitam até as ameaças e das ameaças para a prática de atos violentos. Com isso querem calar, bloquear reações dos seus inimigos, conseguir adesões forçadas dos neutros e até de adversários. Intimidados, os partidos adversários fazem uma oposição pacata, protocolar que, em última instância, termina por naturalizar as práticas antidemocráticas. Em muitos casos, como o foi na Alemanha, até autoridades deixam de cumprir o seu dever por estarem intimidadas. 

O uso da ameaça da violência e de sua prática efetiva tem como objetivo também o de produzir o efeito psicológico do aviltamento dos sentimentos e da resignação covarde ao poder tirânico. As pessoas se sentem impotentes para reagir. 

A oposição parlamentar a Bolsonaro é uma oposição tíbia, ressalvadas as honrosas exceções. Age como se tudo o que Bolsonaro faz, fizesse parte da normalidade institucional do país. Essa oposição parlamentar afirmava que queria o impeachment, mas esperava que Rodrigo Maia ou Arthur Lira resolvessem o problema do impeachment. Todos sabem que sem fortes mobilizações de rua o impeachment nunca se realizaria.

Sempre que Bolsonaro avançou o sinal, de modo geral, essa oposição parlamentar correu para debaixo das togas dos ministros do STF para pedir socorro. Tire-se a CPI da pandemia, nada de mais contundente aconteceu na Câmara ou no Senado. Tudo foi mais ou menos acertado nas negociações. Assim passou a boiada do orçamento secreto e a boiada da PEC da compra de votos. Esta, inclusive, com o apoio da oposição parlamentar. Enquanto Lula ataca, praticamente sozinho, a excrescência do orçamento secreto, a oposição parlamentar o negocia, quando não recebe verbas.  

A oposição parlamentar dissemina o medo quando afirma que é preciso vencer no primeiro turno para evitar que Bolsonaro conteste as eleições ou leve a efeito um golpe se for derrotado no segundo turno. Ora, isto é medo. A campanha de Lula deve ter, sim, a ambição de vencer no primeiro turno. Mas uma ambição fundada nos méritos de Lula. Fundada na necessidade de impor uma derrota avassaladora a Bolsonaro, já no primeiro turno, por tudo de ruim que ele e seu governo representam. Mas da forma como o discurso vem sendo feito, trata-se da pedagogia do medinho. 

O discurso antidemocrático, de ataque às urnas e ao TSE e de insinuações golpistas, precisa ser enfrentado com energia, com mobilização da sociedade civil e dos movimentos sociais e com a afirmação categórica de que aqueles que se aventurarem contra a ordem democrática terão como destino a cadeia. 

Se a oposição acredita realmente que Bolsonaro tentará um golpe, então é seu dever preparar a sociedade para a resistência e a reação. Se tiver segundo turno e Bolsonaro ameaçar um golpe o que farão e onde irão os líderes da oposição? Comandarão uma resistência? Mobilizarão o povo? Ou irão para alguma embaixada? Para a Nunciatura Apostólica ou alguma catedral? 

Essas questões não podem ficar em aberto. Se há risco de golpe, a preparação e o exercício da mobilização precisam vir antes dele. Se Bolsonaro ameaça com golpe, é preciso intimidá-lo. Se vai ter golpe, é preciso que haja resistência.

Como seria o golpe e quem participaria dele? Depois do ato de traição ao Brasil praticado por Bolsonaro ao convocar embaixadores para atacar as instituições democráticas do país houve uma forte reação de entidades da sociedade civil  em defesa da democracia e das eleições. Ficou claro que Bolsonaro não terá apoio das Forças Armadas, da Polícia Federal, dos empresários e do capital financeiro em uma possível aventura golpista. Não há indício de que teria apoio das Polícias Militares, como não o teve no 7 de Setembro do ano passado.

Então, quem seriam os golpistas? Hostes evangélicas com estandartes de Cristo? Dona Michelle incorporando o Espirito Santo? Militares da reserva e milicianos? Motoqueiros enlouquecidos com jaquetas de couro e cornos na cabeça? Se a oposição está convicta de que haverá uma tentativa de golpe, tem o dever de mapear os possíveis setores golpistas, monitorar suas atividades e denunciar seus movimentos às autoridades constituídas.

A oposição fugirá do 7 de Setembro entregando-o de mão beijada a Bolsonaro, deixando que ele se aposse dos símbolos nacionais? A oposição comemorará o 7 de Setembro do bicentenário da independência no dia 10 de setembro que não é o dia 7 de Setembro? E depois, na reta final da campanha colocará o verde e amarelo na propaganda de TV? 

A oposição parlamentar não aprendeu lições da história compreendidas por Alexandre de Moraes. Tiranos, ditadores e autocratas, que usam métodos extraordinários para conquistar ou se manter no poder, precisam ser combatidos por medidas e atos extraordinários. Não se pode ser nem condescendente e nem leniente com eles. 

Como eles usam a legalidade democrática para destruir a democracia, os democratas precisam tensionar os limites da legalidade para salvar a democracia.  Se os candidatos a ditadores mobilizam suas forças para escalar o poder pela violência, os democratas precisam mobilizar o povo para derrota-los. Se há ameaça de golpe, essas questões precisam ser respondidas pelas oposições durante a campanha, não só na TV, mas também nas ruas.

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