Heróis e traidores

Dom Pedro Casaldáliga e Dom Tomás Balduíno deveriam obter nomeações como heróis nacionais

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No dia 8 de agosto morreu Dom Pedro Casaldáliga, Bispo emérito de São Félix do Araguaia. Junto com Dom Tomás Balduíno formou entre os religiosos que confrontaram a ditadura e o fascismo inerente à sociedade brasileira em suas bases fundamentais, defendendo indígenas, camponeses e comunidades tradicionais e colaborando com a organização dessas populações. As conjunturas nacional e latino-americana não era favorável. Durante as décadas de 1960 até 1980, a execução de religiosos era uma prática comum, independentemente das posições que ocupassem na hierarquia religiosa. O latifúndio e o grande capital confrontavam violentamente militantes de esquerda e religiosos adeptos da Teologia da Libertação, considerados comunistas.

Dom Pedro era catalão e chegou ao Brasil em 1968 como missionário para trabalhar em São Félix do Araguaia. Em 1971, o Papa Paulo VI nomeou-o bispo da Prelazia baseada neste município. Lutou em defesa de indígenas e camponeses em uma área de fronteira, uma terra de ninguém onde conflitos pela posse de terras devolutas e reservas indígenas geraram diversos assassinatos cometidos por grileiros, esses sim os verdadeiros invasores de terra. 

Entre os anos 1960 e 1980 o centro-oeste brasileiro era uma área de fronteira, uma terra que a ditadura civil-militar utilizava para resolver os conflitos agrários entre sem-terras e estancieiros que geravam tensão na região sul do Brasil, sobretudo no Rio Grande do Sul. Os governos ditatoriais incentivaram o deslocamento de agricultores sem-terra gaúchos, catarinenses e paranaenses para o oeste do Paraná e para o centro-oeste do Brasil. Estes agricultores deslocados contavam com pouco auxílio do governo e se estabeleciam nestas regiões ocupando terras devolutas, desmatando-as, semeando-as, tentando sobreviver. Muitos fracassaram e venderam suas terras para aqueles que foram bem sucedidos que, desta maneira, passaram a controlar grandes extensões de terra. Os que não conseguiram estabelecerem-se restava assalariarem-se, migrarem para outras regiões ou retornarem para seus municípios de origem.

Estas terras de fronteira eram ocupadas por indígenas, por comunidades tradicionais ou por pequenos agricultores. Poucos desses ocupantes possuíam título de propriedade. A posse e a propriedade da terra eram decididas na bala entre seus antigos ocupantes e os colonos que buscavam reterritorializarem-se. 

Tal política de colonização incentivava o confronto entre camponeses pobres deslocados de seu estado natal no sul do país e camponeses pobres e indígenas que viviam nas regiões de fronteira. Esses conflitos explicitavam uma nuance da velha política de dominação e controle social utilizada pelas classes dominantes brasileiras, cuja versão mais conhecida e urbana incentiva o confronto entre policiais de origem pobre contra os também pobres moradores de comunidades. 

Empresas de colonização surgiram como responsáveis pelos deslocamentos e assentamento dos colonos e enriqueceram com este negócio.

Como outra faceta desta política fundiária, a ditadura permitiu que grandes empresários e banqueiros ocupassem extensas áreas e construíssem empresas que expulsavam camponeses, comunidades tradicionais e indígenas para a criação extensiva de enormes plantéis bovinos ou exploração de grandes extensões de monoculturas como soja e cana. 

Dom Pedro Casaldáliga chegou a uma região de fronteira e colocou-se ao lado dos pobres e explorados que perdiam a posse de suas terras e eram obrigados a trabalhar para os colonos bem sucedidos ou a abandonar a região. Sua opção pelos pobres fez com que tivesse sua vida ameaçada muitas vezes. 

Em 1972 participou ativamente da formação do Conselho Indigenista Missionário (Cimi) vinculado à Conferência Nacional do Bispos do Brasil (CNBB), cujo objetivo é lutar pela diversidade cultural dos povos indígenas, bem como assegurar sua autonomia. Em 2005, aos 77 anos, renunciou ao bispado. 

Dom Tomás Balduíno também desempenhou importante função na defesa dos direitos dos camponeses como bispo da Diocese de Goiás, posteriormente bispo-emérito de Goiás. Este estado também fazia parte das áreas de fronteira agrícola do Brasil nos anos 1960 até 1980.

Dom Tomás foi cofundador do Cimi, além de ter participado da criação da Comissão Pastoral da Terra (CPT), em 1975, que presidiu entre 1997 e 2005.

Durante sua gestão frente à CPT defendeu a reforma agrária mesmo em latifúndios produtivos, angariando o ódio das organizações que defendem os interesses do latifúndio e do agronegócio. 

Dom Pedro e Dom Tomás formaram na linha de frente dos sacerdotes católicos ligados à Teologia da Libertação. Ambos foram perseguidos, ameaçados e taxados de comunistas pelas oligarquias brasileiras. Lutaram por um país mais igualitário e mais justo. Ambos farão falta na conjuntura brasileira atual em que é preciso cerrar fileiras contra o crescimento do fascismo que tem uma particularidade frente aos outros fascismos que surgiram no mundo: em outros países, os fascistas eram e são nacionalistas e defendem os interesses da burguesia nacional nacionalista. Pode parecer redundante, mas não é. No Brasil, o fascismo defende os interesses de uma burguesia nacional entreguista.

O fascismo bolsonarista é submisso, subalterno e subordina o Brasil e seu povo aos interesses do imperialismo porque é sustentado por uma “burguesia nacional” que acha que o lugar que o Brasil deve ocupar no mundo é de país satélite do imperialismo dos EUA.

Apesar de difundir um discurso nacionalista, na prática o governo Bolsonaro promove o desmonte dos organismos de apoio à cultura nacional, desindustrializa o Brasil, desnacionaliza as riquezas naturais, desmonta as estruturas de ensino e pesquisa e submete sua política externa aos interesses dos EUA. Desdenha a morte de 100 mil pessoas, o dobro de mortos brasileiros na Guerra do Paraguai, que durou cinco anos, e cinquenta vezes mais mortes do que aquelas ocorridas durante as campanhas da Força Expedicionária Brasileira (FEB) durante a Segunda Guerra Mundial. 

As classes dominantes brasileiras promovem genocídios no Brasil desde o começo da colonização. Indígenas, africanos e afrodescendentes, comunidades tradicionais vêm sendo dizimadas há 520 anos. Jamais um governo promoveu o genocídio de tanta gente em um espaço de tempo tão curto. Em seis meses, a política de saúde pública do governo Bolsonaro atingiu 100 mil mortes. Fica claro que é uma política de descaso com o povo quando o governo mantém um general como ministro interino da saúde desde maio e libera verbas para a fabricação e distribuição de remédios ineficazes contra a Covid-19. Esta atuação pífia do governo tem como justificativa razões econômicas. 

Em nome da recuperação da economia e chantageados pelo governo federal que condicionou empréstimos e liberação de verbas ao retorno das atividades econômicas, governos e prefeituras relaxaram medidas de controle da pandemia de maneira temerária. Pouco adiantou. A cidade do Rio de Janeiro é um local onde o relaxamento das medidas de controle da pandemia está mais adiantado. Reportagem recente informa que mesmo após a autorização de abertura do comércio, restaurantes do Centro do Rio de Janeiro apresentam queda de 95% no movimento. A população continua ressabiada com as decisões dos três níveis de governo e permanece em casa, o que fica mais evidente quando pais de alunos questionam prefeituras e governos sobre medidas que autorizam a retomada das atividades escolares.

Este governo não provê o bem-estar da população nem serve ao Brasil e ao seu povo.

A luta contra o Bolsonaro se mantém muito aquém do necessário. Seu governo assumiu o poder em um momento em que a esquerda está desorganizada e sua maior liderança é um senhor 74! Não houve renovação de seus quadros. Perdeu capilaridade entre as populações marginalizadas. Faltam também líderes nacionalistas como Leonel Brizola, Darcy Ribeiro, Anísio Teixeira, Paulo Freire e Luiz Carlos Prestes e as grandes lideranças da Teologia da Libertação. Lideranças que norteavam suas ações pela luta pelo bem-estar do povo brasileiro.

Brizola foi recentemente nomeado como herói nacional para o Panteão da Pátria e da Liberdade Tancredo Neves. Creio que Dom Pedro Casaldáliga e Dom Tomás Balduíno deveriam também obter nomeações como heróis nacionais. Embora essas nomeações tenham poucos efeitos práticos, simbolicamente são importantes.

Por outro lado, seria necessário criarmos um panteão para os traidores do Brasil, para que seus nomes ficassem para sempre marcados na memória do povo brasileiro. 

Para o panteão dos traidores, os golpistas de 1964 e seus sustentadores e apoiadores, juntamente com aqueles que apoiaram o golpe de 2016 no Congresso Nacional, que participaram dos governos Temer e Bolsonaro teriam a indicação de seus nomes. 

O Brasil precisa separar institucional e cabalmente aqueles que lutam em defesa dos interesses do povo daqueles que traem esses interesses.

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