Lição francesa ao sindicalismo brasileiro que abandonou Vargas

A greve francesa evidencia fracasso neoliberal e deixa a política sindical no Brasil nua em cima do palco. A mobilização dos trabalhadores franceses, por uma nova proposta econômica anti-neoliberal, é o modus operandi sindical eficiente para garantir aposentadoria futura.

Derrota do neoliberalismo

Se a CUT tivesse convocado a classe trabalhadora para resistir à destruição da aposentadoria dos mais pobres e a privatização do sistema previdenciário em marcha, depois das reformas neoliberais de Bolsonaro e Guedes, teria ou não logrado êxito, como logram os trabalhadores franceses contra o governo Macron?

Os sindicalistas franceses dão lição ao mundo: sindicato forte é a única arma para negociar com o capital com chances de vitória; derrotaram as terapias neoliberais cuja essência é arrocho salarial e roubo de direito dos trabalhadores.

As centrais sindicais brasileiras, ao contrário dos sindicatos franceses, desmobilizaram os trabalhadores, desde o golpe neoliberal de 2016; a apatia sindical se acentuou a partir de 2019, com o fechamento do Ministério do Trabalho, o fim do imposto sindical e a desarticulação total da CLT.

Tiro em Vargas

Foram para o sal as três principais heranças de Getúlio Varga para os trabalhadores se organizarem a fim de garantirem conquistas sociais expressas na CLT.

Em vez de agirem como os sindicalistas franceses, ou seja, irem ao enfrentamento nas ruas contra o governo Bolsonaro, os sindicatos, capitaneados pela CUT, recomendaram aos trabalhadores ficarem em casa.

As lideranças sindicais, sem poder de mobilização, correram para o Congresso, onde a oposição, francamente, minoritária perdeu todas as batalhas; ou seja, os sindicatos, diante dessa nova conjuntura bolsonarista de destruição, optaram pela derrota parlamentar, para fugir das suas próprias derrotas, dada incapacidade de dirigir os trabalhadores, como fazem os sindicalistas franceses.

Luta parlamentar inglória

As votações expressivas das forças governistas, que derrubaram as leis trabalhistas e a previdência social dos trabalhadores, mostraram aos sindicatos a impossibilidade de ter sucesso a guerra parlamentar; no parlamento, a burguesia neoliberal, com muito dinheiro em caixa, deitou e rolou.

O que se esperava dos sindicatos não aconteceu: mobilização das ruas para orientar o voto no Congresso a favor dos trabalhadores; os congressistas governistas se sentiram seguros para votar contra suas próprias bases eleitorais, diante da desmobilização dos trabalhadores para defender seus direitos.

As mentiras de que a Previdência representava maior fonte de déficit público ganharam a narrativa; acomodou os sindicatos rendidos à pregação conservadora de que o povo apoiava a reforma previdenciária.

Manipulação do mercado

Pesquisas fajutas do mercado financeiro, maior interessado em abocanhar seguridade social, foram engolidas sem protestos das ruas (des)convocadas pelos sindicatos; os ecos da oposição, no Congresso, fragilizados pela desmobilização dos trabalhadores, frente à apatia sindical, não foram suficientes para evitar a destruição da herança varguista: a Consolidação das Leis do Trabalho, o imposto sindical e o Ministério do Trabalho.

Sem receita do tributo, os sindicatos perderam independência e dinheiro, para garantir financeiramente as mobilizações dos trabalhadores.

Os trabalhadores ficaram sem líderes, com a desmobilização sindical e o alinhamento dos sindicatos a associações internacionais que defendem o livre sindicalismo desmobilizador das lutas trabalhistas.

Resultado: os sindicatos perderam força e representatividade, para mobilizar a classe laboral diante da classe patronal.

Utilitarismo fracassado

Os sindicatos se descaracterizaram como instrumentos de luta de classe e feriram o pragmatismo utilitarista ideológico capitalista: “Tudo que é útil é verdadeiro; se deixa de ser útil, deixa de ser verdade.”(Keynes).

Na prática, sem a CLT e sem o imposto sindical, os sindicatos, destituídos do seu poder independente, perderam utilidade, deixando de ser úteis, portanto, de ser verdade.

Os sindicatos brasileiros, com o bolsonarismo, foram, completamente, neutralizados, e as lideranças sindicais brasileiras, ao contrário das lideranças franceses, não foram à luta; na França, mobilização popular criou nova correlação de forças e colocou Macron, aliado do mercado, em sinuca de bico.

Forjados na luta política sindical, os sindicatos franceses radicais e moderados se uniram; Macron tentou dividi-los; não conseguiu; o recuo do presidente francês, no último final de semana, representa vitória dos trabalhadores.

Fora, Macron!

Esse é o novo grito de guerra na França: fora Macron!

A vitória sindical empurra, por sua vez, a oposição na Assembleia para posições mais arrojadas; os trabalhadores dão tapa na cara do neoliberalismo.

A greve francesa evidencia fracasso neoliberal e deixa a política sindical no Brasil nua em cima do palco.

A mobilização dos trabalhadores franceses, por uma nova proposta econômica anti-neoliberal, é o modus operandi sindical eficiente para garantir aposentadoria futura.

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