O bolsonarismo paralisa o governo para intensificar a guerra política

Para prosseguir com o projeto totalizante de desmontar o Estado, Bolsonaro e seus asseclas necessitam de desarticulação política, logo, a paralisia do governo tende a ser intencional; o presidente vê o Congresso como inimigo, já que venceu as eleições encarnando a candidatura da negação da política e do “antissistema”

O bolsonarismo paralisa o governo para intensificar a guerra política
O bolsonarismo paralisa o governo para intensificar a guerra política (Foto: REUTERS/Adriano Machado)

Há o costume de se tratar o presidente Bolsonaro como um simples tosco e incapaz. De fato, tosco ele é, mas sua incapacidade está em não saber e, sobretudo, querer governar sob um regime democrático e de direitos. Seus desprezo para com as instituições é a base de sua visão de mundo estreita e autoritária.

A formação de um governo democrático e republicano se dá pela harmonia, principalmente, entre o chefe do Executivo e o Legislativo. No entanto, Bolsonaro não está disposto a isso, porque acredita que alianças são o mesmo que corrupção. Se tivesse um programa de governo, o presidente se empenharia na formação de uma coalizão capaz de dar segurança para desempenhar a função para a qual foi eleito: governar.

Para prosseguir com o projeto totalizante de desmontar o Estado, Bolsonaro e seus asseclas necessitam de desarticulação política. Logo, a paralisia do governo tende a ser intencional. O presidente vê o Congresso como inimigo, já que venceu as eleições encarnando a candidatura da negação da política e do “antissistema”.

Agora, mostrar 1964 como “revolução democrática” e não como golpe acumula capital político para a coalizão que derrotou, nos tribunais e nas urnas, a Nova República. Assim, o governo pode alimentar sua base na sociedade com ideologia enquanto os resultados não chegam. Isto faz com que o bolsonarismo mantenha a iniciativa com teses alucinadas, fazendo com que o debate se dê em torno destas.

É uma tática eficiente num curto prazo, porque a crítica pela esquerda acaba por focar no ridículo, deixando de lado o mérito. O “Que imbecil!” e o “nossa, que burro!” substituem a crítica com foco na argumentação. A polarização, a “briga de surdos” e o “gato x cachorro” ideológico imperam.

Em sua estratégia, o bolsonarismo precisa colocar o povo contra o Congresso, contra o “establishment”, travando um embate (com a ajuda da Lava-Jato) contra as instituições, emparedando-as. Diante disso, tenho clareza de que o caminho a ser trilhado pelas forças democráticas e republicanas, da esquerda a direita, é o da conciliação com vistas à salvação nacional.

As recentes reações das instituições frente às propostas de desmonte do Estado Nacional e do revisionismo histórico com a ressurreição de fantasmas do passado que este governo quer nos impor, apontam para uma compreensão, ainda que incipiente, por setores da grande mídia, da política, do mercado e da burguesia nacional que o Brasil não aguenta mais essa polarização.

Para as forças progressistas e de esquerda, a melhor tática será ampliar as alianças para sair do isolamento, contribuindo para distensionar a sociedade e a política em direção a uma posição moderada, mais ao centro, possibilitando acordos e consensos mais amplos.

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