O que fazer com Bolsonaro?

"O presidente e o governo precisam ser parados, contidos, pela mobilização popular. Se Bolsonaro não revir seu posicionamento e não quiser conduzir seu governo por um caminho de razoabilidade, de sensatez e de razão, será um direito do povo mobilizado exigir a renúncia do presidente. Mas esta não é uma consigna que possa ser jogada ao vendo num momento qualquer. Ela precisa ser construída pela mobilização e pela organização popular", diz o colunista Aldo Fornazieri

O que fazer com Bolsonaro?
O que fazer com Bolsonaro? (Foto: Antonio Cruz/ Agência Brasil)

“O que fazer com Bolsonaro” é uma questão que se coloca de forma crescente em diversos setores da sociedade. Em tese, seria uma questão prematura, já que o governo mal tem cinco meses de existência. E, de fato, seria se Bolsonaro e o setor ideológico que o apoia – aqui denominado bolsonaristas, que inclui também os olavistas – não tivessem dado mostras assustadoras da capacidade destrutiva de que estão munidos. Bolsonaro e seu grupo mostraram que não têm nenhum propósito de construir, de unir, de governar. Só pensam na ilusão de uma indefinida e imaginária revolução antissistema, contra o establishment.

Bolsonaro e os bolosnaristas dissiparam em pouco tempo o bônus da vitória, a chamada lua de mel, e transforaram a esperança em desesperança e as expectativas positivas em desengano e descrença. Todos os dias provam mal-estar e desconforto na sociedade. Investem contra a sociedade e contra a soberania. Investem contra as universidades, a pesquisa e a ciência e tecnologia. Secundados por Sérgio Moro, investem contra a segurança pública. Desmantelaram o programa “Mais Médicos”, deixando milhões de pessoas sem acesso a médicos. Martelam contra o programa “Minha Casa, Minha Vida”. Dirigem suas fúrias destrutivas contra a preservação ambiental, contra florestas, rios, parques, terras indígenas e, neste quesito, chegam a causar indignação no mundo. Na economia, a maior parte dos indicadores apresentam tendências negativas, agravando o desemprego e o drama social do país. Enfim, são poucas as áreas que não sofrem os efeitos danosos dessa destruição e desse desgoverno deliberado.

Bolsonaro vem se revelando um desagregador, provando rejeição e repulsa crescentes na sociedade. Ele desorganiza o próprio governo. Primeiro, queimou em praça pública Gustavo Bebianno. Depois, cuidou de transformar os superministros Paulo Guedes e Sérgio Moro em ministrinhos. Agora, desmoralizou os generais e demais militares de seu governo ao apoiar os ataques de Olavo de Carvalho e dos seus filhos contra os representantes militares. Bolsonaro conseguiu fazer com que palavrões de baixo calão proferidos pelo seu guru adquirissem estatuto filosófico e a mais alta distinção do Estado brasileiro com a medalha de Grão-mestre da Ordem de Rio Branco. Em nenhum outro momento da história generais foram tão humilhados e  o Estado tão conspurcado como agora.

 Havia e ainda há uma crença de que os generais enquadrariam e limitariam os desatinos do presidente. Mas o que ficou claro foi que o capitão enquadrou os generais. No governo Bolsonaro não vale o lema “um por todos e todos por um”. Vale o salve-se quem puder, pois “cada um é dono de seu nariz”. A questão é: na medida em que Bolsonaro não protege os seus ministros, até quando estes lhes permanecerão fieis?

Na sua relação com o Congresso, Bolsonaro promove atritos crescentes com partidos e parlamentares que poderiam até vir a apoiá-lo. Estimula as hordas bolsonaristas a ataques em onda contra os parlamentares que seriam representantes da “velha política”, corruptos e propensos a uma corrupção continuada. 

A essência do quadro que se tem é a seguinte: Bolsonaro não tem programa e plano de governo e não se dispõe a governar. A sua atividade predileta são as redes sociais e as solenidades, de preferência com militares e policiais, onde não possa ser hostilizado por manifestantes. O seu governo não tem políticas públicas para enfrentar os diversos problemas sociais e econômicos do país. O governo não tem maioria no Congresso e o PSL prima pelo amadorismo, pela confusão e pelo despreparo. Com pouca chance de aprovar reformas, ao menos como o governo as quer, com o agravamento da crise econômica e social e com a tendência de manifestações crescentes contra o governo, o Brasil vai sendo conduzido para um beco sem saídas. Este governo está fadado ao fracasso. Nenhum governo sem base política e popular tem condições de produzir algo razoável.

Cabe perguntar: Bolsonaro poderia ouvir a voz da razão e aconselhar-se com pessoas competentes para dar um rumo ao seu governo? Não há nenhum elemento que indique uma resposta positiva a esta questão. Por não ser sábio e nem prudente, Bolsonaro não se dispõe a buscar bons conselhos. Mesmo que estes existam, de nada servirão porque o presidente não é nem sábio e nem prudente, pois está empenhado em destruir sua própria autoridade, tornando-se cada vez mais desprezado e odiado – os dois maiores males que um líder pode angariar. 

É justamente por isso que crescem as especulações acerca do que fazer com Bolsonaro. Alguns insinuam a sua substituição pelo vice Hamilton Mourão. Outros defendem a permanência dos militares no governo para impedir os excessos do presidente. A questão é que não há um elemento factível e evidente para um processo de impeachment. Ademais, os democratas e progressistas deveriam ficar com os dois pés atrás em relação ao impeachment. Contra a Dilma, foi golpe. E, olhando retrospectivamente, o próprio impeachment de Collor deve ser colocado sob suspeita de que tenha sido uma medida acertada e de que trouxe benefícios. É preciso que haja razões muito fortes e evidentes para que se faça um impeachment de um presidente eleito por voto popular. Os processos e as escolhas que são feitos nas democracias precisam se esgotar para que o povo possa aprender. É preciso também bloquear a tradição golpista no Brasil.

Mas, por outro lado, a sociedade não pode aceitar que um governo destrua o que ela conseguiu conquistar de positivo em termos de direitos, cidadania e avanços institucionais. Desta forma, os partidos democráticos e progressistas, os diversos movimentos sociais, os mais variados setores da sociedade atingidos pela fúria destruidora do bolsonarismo precisam se por em movimento, nas ruas, nas praças, para dizerem a Bolsonaro e ao governo que não aceitam este retrocesso brutal, que não aceitam esta destruição promovida por um grupo desprovido de senso civilizatório, de senso de razoabilidade. 

O presidente e o governo precisam ser parados, contidos, pela mobilização popular. Se Bolsonaro não revir seu posicionamento e não quiser conduzir seu governo por um caminho de razoabilidade, de sensatez e de razão, será um direito do povo mobilizado exigir a renúncia do presidente. Mas esta não é uma consigna que possa ser jogada ao vendo num momento qualquer. Ela precisa ser construída pela mobilização e pela organização popular. 

Se os generais, o Centrão ou quem quer que seja quiserem trocar Bolsonaro por Mourão, o problema é deles. Não é um problema das forças democráticas e populares. Se os militares quiserem ficar no governo para enquadrar Bolsonaro, trata-se de uma escolha deles. Este governo, aliás, embora não seja um governo militar é um governo de militares. Fizeram uma escolha. Nada contra. Mas precisam arcar com as consequências dessa escolha. Os progressistas e democratas precisam abandonar a política especulativa para ter um único foco: mobilizar e organizar grupos e movimento sociais para barrar retrocessos e defender direitos, justiça e cidadania.

Aldo Fornazieri – Professor da Escola de Sociologia e Política (FESPSP). 

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