O trabalhador não tem tempo para política: precisa lutar pelo pão de cada dia e contra a ineficiência do Estado

Além da labuta diária para conseguir o “pão de cada dia”, boa parte do tempo e energia que sobra ao cidadão, trabalhador brasileiro, é gasta lutando contra a precariedade dos serviços que o Estado informa oferecer, prejudicando a possibilidade de uma participação política mais próxima

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Ouvimos e lemos aqui e acolá que o cidadão, trabalhador brasileiro, é muito pacífico, não se envolve com a política, não sai às ruas para defender bandeiras e encontra-se anestesiado mesmo frente aos desmandos do governo central.

Em parte o exposto pode ser explicado.

Além da labuta diária para conseguir o “pão de cada dia”, boa parte do tempo e energia que sobra ao cidadão, trabalhador brasileiro, é gasta lutando contra a precariedade dos serviços que o Estado informa oferecer, prejudicando a possibilidade de uma participação política mais próxima.

A imagem que me vem à cabeça, quando me refiro a trabalhador brasileiro, é a formada por aqueles classificados como empregados e, portanto, subordinados a algum contratante, hoje em torno de cinquenta e sete milhões segunda a PNAD, embora facilmente outros possam ser enquadrados nesta grande imagem, sejam eles trabalhadores por conta própria, pequenos empreendedores ou outros.

É fato público e notório que nas grandes cidades brasileiras os trabalhadores, no trajeto residência-trabalho-residência, gastam uma, duas ou até mais horas dentro de transportes públicos, na maioria das vezes ou precários ou lotados. 

Considerando uma jornada de trabalho de 8 horas, uma hora para refeição, e os deslocamentos, lá se foram em torno de doze ou treze horas diárias em busca da própria manutenção e de sua família.

E quando aqui menciono a luta pela própria manutenção e de sua família, temos que ter em mente que são trabalhadores percebendo, em média, salários em torno de R$ 2.400,00, conforme dados da PNAD divulgados em abril de 2021.

Convenhamos; esta renda próxima a dois salários mínimos não é exatamente suficiente para a manutenção digna de uma família média de quatro pessoas, necessitando de muito malabarismo para cobrir gastos básicos, o que por si só deixa o cidadão fragilizado em seu emocional e socialmente.

Além da luta em busca da renda o trabalhador brasileiro se vê obrigado a, permanentemente, lutar contra o Estado: luta para que seus filhos consigam uma vaga na creche, para conseguir uma consulta médica, um medicamento, uma vacina, uma parcela do abono emergencial, uma vaga na fila de transplante, conseguir marcar uma perícia junto ao instituto previdenciário, por uma inscrição na fila da sonhada casa própria ou mesmo para ver deferido seu benefício de aposentadoria, depois de trinta e cinco ou quarenta anos de trabalho, que na maioria das vezes é equivalente a um salário mínimo.

Outros, em situações mais fragilizadas, lutam para não serem despejados de uma ocupação, para garantir um barraco na periferia ou para salvar algum móvel doméstico em época de enchente na boca do rio.

Com tais dificuldades que assolam grande parte da classe trabalhadora, questiona-se: como sobrar tempo e energia para discutir e lutar por melhores políticas sociais?

Alguns encontram ânimo para se organizarem e mostrar a voz em seus reclamos, mas representam uma minoria embora de suma importância.

Como não tem tempo para a política, o que em regra está ao alcance do trabalhador brasileiro é realizar um reclamo entre familiares e amigos, comentar sobre este ou aquele governante, sendo guiado, em boa medida, por quem apresenta a “melhor solução” que hoje, com certa frequência, é conhecida como fake news.

Por ora, em regra, os trabalhadores brasileiros depositam suas poucas esperanças em seus representantes nas casas legislativas, nos sindicados de classe, organizações sociais ou até igrejas. Fora isso, não se sentem cidadãos.

Considerando as condições sociais do povo e o sistema político atual, no final das contas, para o trabalhador brasileiro não faz muita diferença quem será o governante no próximo mandato, posto que imediatamente após a eleição ele está obrigado a enfrentar seus perrengues cotidianos, sem proteção social, dependendo exclusivamente de si para sobreviver. Portanto, é evidente que não lhe sobrará muito tempo ou energia para discussão política.

Tivesse o país algum projeto de Nação e para a melhoria da situação de vida de seu povo, talvez o trabalhador brasileiro demonstrasse maior interesse em participar das discussões sobre a condução das políticas nacionais.

Mas, não vemos um projeto para o país. Não sabemos onde estaremos daqui a 50 anos. Não temos projeto para melhorar a educação, a saúde, ou para proporcionar moradia digna para todos, melhorar a cultura, segurança, paz social ou ter um desenvolvimento sustentável.

Em geral, e de concreto, o que para muitos chega como notícia é o que o governante está preparando para o próximo semestre, no máximo para o próximo ano, ou sobre seus arranjos políticos para a manutenção dos privilégios de uma casta da sociedade.

Quando chega um governo progressista, instituindo políticas públicas vislumbrando um aumento real dos salários, ou possibilidade de acesso a água, luz, casa, universidade ou médico, lá vem o Estado, representado por alguns que parecem odiar o trabalhador, retrocedendo a marcha para não prejudicar o tal “equilíbrio das contas públicas”.

No final, o cidadão, trabalhador brasileiro, sempre está no final da fila.

Para termos uma sociedade mais engajada nas discussões políticas é urgente que o país tenha uma plano de desenvolvimento para, no mínimo, trinta, quarenta, cinquenta anos, visando verdadeiramente a inclusão dos chamados pobres e da classe trabalhadora na agenda econômica, sem desconsiderar a importância dos empreendedores.

Há de se ter um plano de longo prazo e a obrigação de investir em políticas para a efetiva melhoria das condições de vida do cidadão brasileiro, em todos os setores e, se necessário, instituir tal plano como CLÁUSULA PÉTREA de que trata o artigo 60, parágrafo 4º, da Constituição Federal, com vistas a que nenhum governante possa, ao assumir um mandato, se eximir de tal obrigação sob pena de crime de responsabilidade.

Não dá para pensar em desenvolvimento de uma Nação que visa apenas o curto prazo de quatro anos. 

É preciso que o foco da Nação se volte para o cidadão e não para manter uma estrutura que privilegia alguns que encontram brechas no Estado para manter suas benesses.

Acaso o cidadão, trabalhador brasileiro, tivesse melhores condições de vida, melhor educação, ciência e crença da existência de um projeto para um futuro melhor, ou mesmo não gastasse tanto tempo lutando contra a ineficiência estatal, provavelmente encontraria espaço e energia para se envolver mais com a política e realizar melhores escolhas.

Quiçá, daqui a 50 anos, quem estiver lá, juntamente com as futuras gerações, possa encontrar um país melhor, onde não precise gastar boa parte do tempo apenas para sobreviver ou despender muita energia para se defender de um sistema que o impeça ou dificulte seu direito em ser um verdadeiro cidadão em plena participação política e social.

 

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