Seguindo na tentativa de ficcionar o Plano Federal Anticrime, depois da proposta de um recall para que todos os CACs apresentem as armas compradas sob a leniente legislação do governo anterior – o “liberou geral armamentista” que abasteceu de fuzis boa parte do crime – imagino uma frente concentrada para asfixiar a chegada de armamentos e a saída de drogas por portos e aeroportos.
Sim, fiscalizações já existem. Mas, para enfrentar a narrativa simplória de que “entrar na favela atirando” resolve o problema, é preciso dar escala, método e visibilidade a essa rotina. Embalar melhor a operação e, sobretudo, publicizá-la.
Comecemos pelos portos: 100% dos contêineres provenientes de rotas clássicas de contrabando de armas submetidos a inspeção combinada da Receita e da Polícia Federal, com reforço da Marinha na segurança do perímetro e na varredura de casco, por dentro e por fora. Scanner de alta energia, cães de faro, leitura ótica de lacres, aferição de peso/volume e conferência manual quando houver divergência. Nada de plano amostral para cargas sensíveis – é “pente-fino total”. E tudo documentado por equipes próprias de comunicação: cada lacre rompido, cada apreensão, cada rota desbaratada.
Nos aeroportos, o mesmo espírito: checagem integral de bagagens despachadas e cargas em voos de risco, uso de PNR (registro antecipado de passageiros), cruzamento com bases de inteligência, câmeras com analytics nas áreas de pátio e armazém, e presença ostensiva da PF. Se faltar gente, convoca-se reforço temporário da Aeronáutica para triagem, logística e apoio técnico.
No sentido contrário – navios e aeronaves que deixam o Brasil rumo a mercados consumidores de drogas -, replicar a pinça: raio-X, conferência de manifesto, varredura com drones, helicópteros da PF e das Forças Armadas acompanhando comboios até a zona de exclusão econômica, câmeras térmicas para coibir “mergulhos” de entrega após a desatracação e integração com VTS/SISTRAM para monitorar rotas suspeitas. Em fronteiras secas e hidrovias, ampliar barreiras móveis com leitura automática de placas, sensores, balsas-scanner e bases fluviais permanentes.
Tudo isso articulado a um centro nacional de comando e controle que integre PF, PRF, Receita, Abin, Forças Armadas, ANTAQ, ANAC e administrações portuárias e aeroportuárias. Protocolos únicos, metas públicas, boletins diários de resultados.
Você, leitor atento, já percebeu: não há alquimia aqui. O ponto é a escala, a coordenação e, principalmente, a comunicação. O governo federal pode – e eu diria, deve – transformar essas ações em narrativa cotidiana. Comunicação diária, simples e factual, no estilo “Fronteiras” do Discovery, só que com alcance de rede aberta e plataformas digitais. A disputa de opinião pública não se vence com silêncio técnico enquanto governadores oportunistas vendem espetáculo. Vence-se cacarejando o que funciona: inteligência, rastreabilidade, sufoco financeiro e controle de rotas. Foi assim, aliás, quando a operação na Faria Lima expôs o braço financeiro do crime em fintechs: método, prova e luz.
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