Papa Francisco, entre o amor e o dogma?

Não se pode definir Deuses e crenças analisando a interação genética dos seres, senão suas ideias, fantasias, filosofias, todas rastejando sobre os mitos dogmáticos que as exigiram. Se em trinta mil anos saímos das armas rudimentares aos caças supersônicos, foi graças a capacidade de unir físicos e camponeses sob as mesmas verdades dogmáticas

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Não é muito difícil imaginar o Papa Francisco, quando então cardeal Bergoglio, desfilando seu sorriso fácil nas esquinas do bairro porteño de Almagro. Parando curioso à vista de um tango ou até mesmo sustentando cartazes numa passeata, com o propósito de que se devolva ao Clube de futebol que o aficiona, o San Lorenzo, o terreno da antiga sede. (o espaço foi tomado por questões políticas noutros tempos e entregue a uma rede de supermercados) Tampouco é raro revê-lo, em gravações caseiras, num ônibus coletivo comum. Por vezes de Palermoa Mataderos, por motivos distintos do futebol. Bergoglio sempre foi um cidadão honorável e respeitado, muito além do que o próprio cargo de cardeal na Santa costuma proporcionar. Isso porque não se punha, não só nos discursos, senão nos exemplos, acima de ninguém. (Bom, nos limites óbvios da própria estrutura social capitalista) Recusou várias mordomias deveras comuns a cardeais e continua a fazê-lo agora, enquanto Para Francisco. Quando a fumaça branca tomou os céus da praça de São Pedro e o nome Bergoglio foi pronunciado, natural que os corações religiosos e os nem tanto assim, como este meu, suspirassem numa onda de esperança por novos tempos na igreja. Á parte as revoluções, os pequenos passos em questões relevantes, tais quais os direitos sociais e os das minorias, são dados assim, com o apoio de instituições milenares. (não discutiremos aqui o efeito antirrevolucionário dessas micro reformas). Todavia, após discursos, viagens a lugares como Mianmare Bangladesh, que pela insipiência católica supõe-se motivos mais nobres do que política, mês passado Francisco nos chocou com uma declaração no mínimo incoerente com sua postura. Após ser indagado por repórter, dentro do avião do Vaticano, sobre o que as famílias deveriam fazer quando um jovem se declarasse homossexual, Francisco respondeu:

“...Primeiro rezar; não condenar; entender; dar espaço. Em que idade se manifesta essa “inquietude” no filho? Quando a coisa se “manifesta” quando criança, há muito a ser feito, como a psiquiatria...” 

Ora, a comunidade LGBTQ+ se manifestou, acusando o pontífice de catapultar a homossexualidade de volta ao rol das doenças mentais, como fora na Organização Mundial de Saúde (OMS) até o final da década de 1980. Mesmo tendo em seguida o Vaticano retirado a palavra “psiquiatria” da transcrição da fala, a polêmica estava lançada. Bom, no meu microcosmo também percebi os ânimos exaltados, as decepções, o sentimento de abandono e de retrocesso que uma declaração como essa é capaz de causar. Ouvi diversas opiniões, no entanto houve uma abundante: “Já não lhes bastam os direitos sociais!? Sou a favor do casamento civil. Que vivam juntos, mas para lá da igreja! Querer obrigar o padre a abençoar algo que vai de encontro ao DOGMA e à fé (GRAVEM E SUBLINHEM ESSA PRIMEIRA PALAVRA) já é abuso!” 

Ao ouvir isso me lembrei de um passado não tão distante assim, quando ainda me sentava nos bancos da faculdade de direito. O assunto em voga era a união civil entre iguais. Lembro-me de católicos, protestantes, espiritas, enfim, toda sorte de pessoas e crenças alegando algo parecido: “Que façam o que quiserem entre quatro paredes, mas daí a querer oficializar e gerar efeitos civis no Estado e igreja (uma separação ainda confusa essa...) via comportamento “não sociável”, “antinatural”, aí já é demais!” Lembrando-me disso eu fiquei me perguntando: houve ou não evolução, posto que hoje não se discuti mais a questão da união civil? 

“Se pagam impostos, que se casem! Mas na igreja!? Aí já é demais!” 

Não. Não houve. E minha negativa se dá não apenas levando em conta a questão LGBTQ+. Senão porque ele, o DOGMA, resta intocado na cultura humana e por isso se confunde com a “natureza” dessa imaginada humanidade. Enquanto parte dela, digo isso levando em conta que tudo o que existe, enquanto instituições gerando comportamentos esperados, surgiu da imaginação e não de processos lógicos guiados pela biologia (embora se alegue isso o tempo todo) caminhamos para os mesmos lugares. Com adequações de tempo, tecnologias... Mas para entender isso precisamos voltar na origem dos institutos e deles na crença de que se pode chegar na verdade (moral) universal, inquestionável, dogmática. Para a religião, historicamente, o que os Deuses instituíram não pode ser questionado. Dentro das sociedades em que a religião dominou proliferaram filósofos dogmáticos (creditavam aos seres humanos a capacidade de encontrar a verdade universal) já a herança de Diógenes, o cínico, foi assassinada ou queimada em fogueiras santas, porque bruxos descrentes nas “verdades naturais.” Natural é fazer fotossíntese, por exemplo. No beijo, um comportamento sexo-cultural, não há nada de biológico, ou vocês acham que a boca, um órgão de alimentação, foi desenvolvida por bilhões de anos para o beijo?

Nalgum momento, meus caros, o desenvolvimento imaginativo dos seres humanos desvencilhou a história da biologia. Não se pode definir Deuses e crenças analisando a interação genética dos seres, senão suas ideias, fantasias, filosofias, todas rastejando sobre os mitos dogmáticos que as exigiram. Se em trinta mil anos saímos das armas rudimentares aos caças supersônicos, foi graças a capacidade de unir físicos e camponeses sob as mesmas verdades dogmáticas. Fazê-los trabalhar juntos, sob a bandeira de uma nação, religião, e qualquer outra invenção cultural elevada, pelo dogma, à condição de natureza. “A verdade” foi fundamental para isso. Ser humano é viver de acordo com as fantasias criadas por nossos antepassados. A humanidade, em seu aspecto cultural, é quase nada movida pela biologia e sim fruto da imaginação coletiva. Realidades imaginadas cujos efeitos na dita moral e, consequentemente nas ações, nem mesmo o (pelo dogma) santo bispo de Roma escapa. Partindo disso os convoco a imaginar um mundo em que aceitemos reconstruir nossa sociedade analisando uma a uma as ilusões do passado e o desenrolar delas. Não vejo como evoluir julgando a fantasia a partir da fantasia, e sempre em busca da tal moral universal que só tem servido ao controle político dos grupos dominados. Que busquemos destruir seus efeitos sociais maléficos, a fim de que não precisemos mais de um pecador para nos sentirmos melhor, nem do pecado justificando a fome. Como faremos tal coisa? Com imaginação, oras! Outrora alguém já começou a imaginar isso... Muito, muito além do conceito de correto, natural, e outras inverdades recontadas à exaustão. Ele disse: amai-vos uns aos outros. 

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