Por que a CPI não segue o dinheiro

"Onde estão, por exemplo, as providências para investigar quem botou dinheiro no bolso no processo de compra e distribuição de milhões de doses da cloroquina?", questiona a jornalista Helena Chagas

Comissão Parlamentar de Inquérito da Pandemia
Comissão Parlamentar de Inquérito da Pandemia (Foto: Marcos Oliveira/Agência Senado)
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Por Helena Chagas 

A CPI da Covid já chegou ao crime de (ir)responsabilidade do presidente da República na condução do combate à pandemia com a comprovada negligência na compra de vacinas e a propaganda ostensiva do uso da cloroquina sem aval da medicina. Apesar do desgaste da exposição diária e repetida desses delitos, o atual contexto político não indica que serão suficientes para lastrear um processo de impeachment - o que já não se poderia afirmar se as investigações revelassem um caso cabeludo de corrupção.  A pergunta que não quer calar agora é se a CPI quer isso.

Pelo andar da carruagem, a CPI não quer chegar à corrupção. Continua focada no espetáculo - escandaloso e macabro, é verdade, mas longe do que costuma ser um inquérito. Onde estão, por exemplo, as providências para investigar quem botou dinheiro no bolso no processo de compra e distribuição de milhões de doses da cloroquina? 

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Há uma lista de nomes de empresários relacionados à fabricação do remédio. Embora não se possa, em princípio, acusar ninguém de ter cometido qualquer irregularidade, seria importante apurar o que aconteceu nesse processo e em outros. Para isso, a CPI teria que sair um pouco dos holofotes, quebrar sigilos e trabalhar com investigação de documentos.

Ao que parece, falta foco para isso, e não surgem linhas de investigação que vão além do show nosso de cada dia. Até agora, a CPI continua ouvindo pessoas sobre o comportamento indefensável de Jair Bolsonaro  e integrantes do governo na questão das vacinas, da cloroquina e da falta de oxigênio em Manaus. 

Mas não resolve mais pesquisar por que a dra Luana Araújo teve sua nomeação vetada - o que não é crime - e nem saber o que cada integrante do chamado "gabinete paralelo" da Saúde aconselhou o presidente a fazer. Quem fez foi o chefe do governo, e ele deve responder por isso, inclusive criminalmente. Mas vai ser difícil condená-lo por ouvir a opinião de pessoas que não são do governo. 

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Nesse sentido, a convocação do deputado Osmar Terra, um adepto do  obscurantismo cloroquínico, poderá render um espetáculo - mas não um avanço objetivo na investigação do que interessa. Assim como pouco se avançou com o segundo depoimento do ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, que só serviu para mostrar sua fidelidade ao chefe.

A CPI pensou até em convocar dirigentes da CBF para falar sobre a realização da Copa América no Brasil   durante a pandemia, e discute chamar o auditor do TCU que elaborou um relatório fraudado diminuindo o número de mortes pela Covid - sendo que o sujeito já está sob investigação do tribunal. Ouviu, num ótimo depoimento,  a médica que foi sem nunca ter sido secretária de combate à covid no MS - mas que, em termos de avanço no inquérito, acrescenta pouco.

Mas não se vê entre integrantes da CPI da Covid  - com raras exceções -  maiores apetites para seguir o dinheiro, sabe-se lá por quê. Segundo corre, porque teme esbarrar em governadores e desvios nos estados e acabar fazendo o jogo do Planalto, que usa o assunto para desviar a comissão de Bolsonaro. Há também, pelo que se sabe, certo temor de criar nova crise militar se aprofundar as investigações sobre a fabricação da hidroxicloroquina pelo Exército. 

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Só que um dia vai pegar mal, apesar dos efeitos midiáticos da CPI na atualidade. A esta altura, com metade de seu prazo de 90 dias esgotado, os senadores da Comissão têm que escolher como desejam passar à história: como investigadores eficientes ou como protagonistas de reality show.

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