Vacina x cloroquina = oxigênio: o surreal

(Foto: Leo Costa)
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A crise da saúde em Manaus é fruto da insensibilidade e da incompetência. Nada muito mais que isso, aliás, o padrão neste Brasil de agora.

A defesa e a propaganda oficial, brasilense, do fármaco Cloroquina, inacreditavelmente não sacudiu o inerte Conselho Federal de Medicina a minimamente desmoralizar – ou mandar logo calar a boca-  aventureiros e achólogos que acordam um dia e resolvem ‘recomendar’ cloroquina para o povo. Desgraçadamente no Código Penal não há um crime para isso. O editorial do Estadão de 20.5.2020, intitulado A Cloroquina e o Crime de Responsabilidade, tentou construir, pela Lei 1079, artigo 7º, um crime de responsabilidade aí, pela ditadora influência no Ministério da Saúde para que se impusesse a cloroquina ao país.

Ao que se pôde perceber, o vaidoso Ministério Público igual, nada, quieto. Mas também, vai se ‘incomodar’ para quê?

Relativamente ao conceito de ciência, muita gente tem ideia equivocada. O filósofo da ciência Alan Chalmers, no seu livro O Que é Ciência Afinal?, p. 41, afirma ‘Conhecimento científico não é conhecimento comprovado, mas representa conhecimento que é provavelmente verdadeiro’. A ciência acaba sendo, para muitos, um mistério. Muitos acham que ciência é dado acabado, provado, inquestionável, a coisa boba da ‘verdade absoluta’ e outras sandices. Já os malandros de botequim, quando querem ‘lacrar’, simplesmente exigem a tal prova cabal, final. O desconhecimento é triste.

A ciência continua sendo, disparadamente, o melhor método da humanidade – ou a melhor ‘tradição’, conforme o filósofo Paul Feyerabend-, para um conhecimento seguro sobre qualquer coisa.

No surrealismo deste Brasil 20-21, há também as duas sociedades a se discutir. A sofrida e a alegre. Da alegre espera-se pouco. A futilidade é fiel e confiável. É shopping, aglomeração e furor por festas. Um ‘chiquismo’ só. Há aí uma antropofágica alienação em duas das quatro dimensões da alienação em Marx: ao seu ser genérico e à de uns em relação aos outros.

Mas da sociedade sofrida se espera muito, ainda que também possa receber críticas. Com as duas pandemias, a da saúde e a ‘pandemia’ do governo, esperam-se revoltas, desobediências e outros vetores sociais éticos, legítimos e verdadeiros. Como os ódios aos céus dos pais que perdem filhos. Pois é, em relação à sociedade brasileira, a esperança continua a arrastar sua umbilical carga de utopia.

E daí, enfrentamento. Este belíssimo sentido democrático e ético que as criaturas primárias acham que é sinônimo de violência. O equivalente à ‘desobediência civil’ ensinada magistralmente por ninguém menos que Jürgen Habermas, na obra A Nova Obscuridade, p. 131: “Toda democracia ligada ao Estado de direito que é segura de si mesma considera a desobediência civil como um componente normalizado, visto que necessário de sua cultura política.’

Numa sociedade como a brasileira, pós-ameaçada pela ditadura há 2 gerações atrás, pela sumição das gentes e falta de liberdade, e ainda mais com a dor presente das tais duas pandemias – cada um ao seu dano-, não se há cobrar muito dessa sociedade sofrida. Antes, haveria que educá-la, mas isso também nunca se quis eficacialmente.

É surreal que este Brasil 2020-2021 esteja discutindo terraplanismo, aquecimento global, cloroquina, resistência à vacina, invasão de tribunal, retorno de ditadura e outros impropérios próprios de um total analfabetismo científico e histórico.

É surreal que governantes se digladiem em mentiras e safadezas politiqueiras, quando toda a população pode assistir em tempo real este baixo teatro bufo, sendo que daqui a um ou dois anos esses mesmos acabam se compondo e apertando as mãos para fotos, quando o assunto é a canalhice-mor da política de cem por cento dos políticos: a reeleição.

É surreal que 28 milhões de habitantes, em 48 países já tenham sido vacinados e o Brasil, este mesmo que continua a montar trilho com uma bitola para um trem que compra com outra e não cabe, continue sem vacina, e agora criminosamente sem oxigênio em Manaus, e tentando vender cloroquina. Deve ter alguém ganhando com essa venda, não é possível!

Cadê o vaidoso (íssimo) Ministério Público, cadê o Conselho Federal de Medicina, o de Farmácia e tantos outros, minimamente para ‘berrar’ e exigir? De todos estes atores, a imprensa é um dos poucos que se concertou eticamente para apontar o desmando, o descalabro e a estupidez. Cadê a nossa própria sociedade lúcida e inteligente? Furtaram a esperança do brasileiro e reintroduziram a vergonha nacional.

Por fim, é como Darcy Ribeiro sentenciava: eles são sagazes e ladrões demais para que digamos que são apenas idiotas.

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