Bolsonaro faz aceno a Macron, sinalizando que não tem cacife para comprar brigas

Parece que Bolsonaro se deu conta de que não pode sair comprando brigas, avalia cientista político Paulo Velasco em entrevista à Sputnik Brasil, depois que o presidente brasileiro acenou a Macron positivamente sobre a ratificação do acordo de livre comércio entre o Mercosul e a União Europeia

Jair Bolsonaro, Emmanuel Macron
Jair Bolsonaro, Emmanuel Macron
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Sputnik - Nesta terça-feira (9), Jair Bolsonaro fez um aceno ao presidente da França, Emmanuel Macron, após ambos terem trocado uma série de críticas ao longo dos últimos meses. No lançamento do programa "Adote um Parque", que permite que empresas e pessoas contribuam para a proteção ambiental, Bolsonaro disse que Brasil e França são países "vizinhos", em referência à Guiana Francesa: "Não tem por que Brasil e França se distanciarem. Afinal de contas, somos vizinhos. […] Temos que ser amigos", disse o presidente.

Para Paulo Velasco, coordenador do programa de pós-graduação em relações internacionais da UERJ (Universidade do Estado do Rio de Janeiro) e pesquisador do Cebri (Centro Brasileiro de Relações Internacionais), o aceno é mais um sinal da mudança de postura do presidente, assim como foram os recentes cumprimentos aos presidentes Joe Biden (EUA), por meio de uma carta, e Alberto Fernández (Argentina), em reunião bilateral.

"Parece que o Bolsonaro se deu conta de que não pode efetivamente sair comprando brigas com parceiros tão estratégicos", avalia o cientista político.

A relação de Bolsonaro com Macron é desgastada por ataques mútuos. Desde 2019, os presidentes de Brasil e França trocam ofensas, principalmente por conta da política ambiental brasileira. Enquanto Macron disse que Bolsonaro mentiu sobre compromissos climáticos, o presidente brasileiro disse que seu homólogo francês tem uma "mentalidade colonialista" e chegou a ofender a esposa de Macron.

Apesar do histórico turbulento, Bolsonaro comemorou nesta terça-feira (9) o fato de uma empresa francesa, o Carrefour, ser a primeira companhia a participar do programa "Adote um Parque". O programa tem o objetivo de atrair recursos para a conservação dos parques da Amazônia Legal e configura uma aposta para diminuir o desmatamento na região.

Velasco chama a atenção para as presenças dos ministros Ricardo Salles (Meio Ambiente) e Tereza Cristina (Agricultura) no evento de lançamento do programa, simbolizando uma tentativa de melhorar a imagem da política ambiental brasileira.

O pesquisador destaca ainda que a França sempre foi, historicamente, um importante parceiro do Brasil nos mais diversos setores, como o econômico, o social e até mesmo o cultural. Nas relações militares, Velasco lembra da cooperação entre os países na fabricação de submarinos. Por isso, o especialista acredita que Bolsonaro esteja em uma tentativa de mudar sua relação com Macron.

"É bem possível que o presidente tenha se dado conta da importância de um relacionamento mais cordial com a França, um país com quem temos parceria estratégica. […] Que não vejamos mais bate-bocas e trocas de acusações pessoais absolutamente desnecessárias", diz Velasco.

Velasco chama atenção para outro possível interesse de Bolsonaro em manter boas relações com a França: o acordo de livre comércio entre o Mercosul e a União Europeia. Era esperado que o acordo, definido ainda em 2019, tivesse sido assinado já nos primeiros meses de 2020. No entanto, a política ambiental de Bolsonaro e a pandemia adiaram a ratificação do acordo.

"Não só o atraso no acordo, mas a própria ratificação do mesmo pode ser atrapalhada por críticas às posturas irresponsáveis do Brasil em matéria ambiental", opina Velasco.

Por isso, o cientista político acredita que o aceno de Bolsonaro "tenha a ver com o interesse brasileiro em permitir uma tramitação mais tranquila desse acordo na União Europeia".

O especialista lembra também que o acordo não é de interesse dos agricultores franceses, que temem a concorrência com os produtos primários oriundos do Mercosul. Este grupo depende diretamente de medidas de apoio do governo, como subsídios e protecionismo.

"Nem sempre as críticas ao Brasil e à destruição da Amazônia resultam verdadeiramente de uma preocupação ambiental, mas podem também vir a reboque de interesses protecionistas", diz o especialista.

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