Resquícios da escravidão

Em pleno século 21, as tramoias escravagistas ainda se esgueiram e ocupam espaços consideráveis na sociedade brasileira

Mais de cinco séculos após o início de uma das principais ondas de sequestros que cooptou milhares de pessoas para o investimento braçal e forçado na estruturação do agressivo processo exploratório da antiga Pindorama*, os filhos dos seres humanos arrastados em navios com correntes no pescoço, feito cães que precisem ser controlados pelos donos, estão libertos, porém feridos. É que a pele dessas pessoas persiste como o alvo da chibata, agora pós-moderna. Em pleno século 21, as tramoias escravagistas ainda se esgueiram e ocupam espaços consideráveis na sociedade brasileira. O Brasil, acreditem, continua a cultivar um comportamento medieval, que tem ceifado a vida de centenas de cidadãos -  a condenação, usualmente, é baseada no tom da pele.  A cultura racista do país, ao contrário do que boa parte da sociedade imagina, ainda é alimentada diariamente, redirecionando o Brasil ao inferno dos anos em que ainda era estuprado por ingleses, portugueses e outros países sedentos por poder e dinheiro. O preconceito e a discriminação contra o negro são dois dos laços que mantêm o território tupiniquim amarrado a um passado inglório, repleto de valores que caracterizam governos e sociedades atrasados e pouco desenvolvidos. Hoje, convivendo em um país imerso no fracasso educacional e recheado de "tendências" ultrapassadas, os negros e outros grupos rotulados como "minorias" iniciam guerras cotidianas para vencer a ignorância, alcançar a justiça e viver com dignidade.

Mas não é fácil. Amarradas aos pés da população negra estão as pesadas correntes da escravidão. E a elas estão vinculadas identidades forjadas por práticas criminosas para marginalizar e discriminar o preto. Para a maioria das ocasiões, o brasileiro aprendeu a caracterizar os negros com quaisquer valores que os retirem a possibilidade de conviver em pé de igualdade com outros cidadãos. Aliás, boa parte da nação nacional não só desqualifica o negro como também impõe a ele, ou a ela, os traços culturais pirateados de países que condenaram o Brasil aos buracos do 3º mundo. Dessa forma, não bastasse a ditadura dos "padrões de comportamento", toda e qualquer expressão cultural afro é desqualificada e eliminada para facilitar o processo de dominação e concluir as etapas da exploração colonial, econômica, política e etc., iniciadas em 1500, no Brasil.  O preto, então, é obrigado a vivenciar a rotina perigosa de um país altamente preconceituoso e desigual, mas que esconde essa característica para projetar-se como justo, decente e "moral", e beneficiar uma pequena parcela da população.

O castigo ainda queima nas costas de quem é forçado a dividir espaço com a ignorância dos responsáveis por destilar discriminação e ódio racial, por meio de condutas baseadas na falta de bom senso e reflexão sobre a condição histórica do próprio país. E não há perspectivas de melhora ou previsões de pequenas mudanças para esse quadro. O Brasil, estado e sociedade, se recusa a reconhecer o erro cometido durante 512 anos, para enfim fomentar estratégias eficazes para a recuperação dessa doença perversa, que continua tomando vidas de inocentes: o preconceito racial. Entram e saem governantes, mas poucas políticas e soluções são pensadas para eliminar essa chaga. E a cada dia que passa o negro acrescenta novas previsões ruins ao seu destino, correndo riscos inaceitáveis devido à cor de sua pele. O debate sobre "mudança" e "reparação", dentro desse contexto, prossegue inalterado principalmente porque o grito do negro já foi engolido pelo tom em que são emitidas as falácias dos oligarcas que controlam os meios de comunicação.

Na prática isso significa um retrato tão cruel da realidade, que parece mentira. A cor da pele, infelizmente, envia cidadãos ao julgamento do raciocínio racista e antiquado de indivíduos com a capacidade de conservar comportamentos e características sociais de épocas que já deveriam estar enterradas. Os negros ganharam estigmas perversos e tornaram-se sinônimo de criminalidade, miséria e subdesenvolvimento, na avaliação de boa porte dos cidadãos brasileiros. Em pleno século 21 ainda são tratados como pessoas sem a mesma capacidade ou direitos que outra s quaisquer. São julgados em tudo. O negro nasce sendo observado e analisado, passa todos os anos de sua vida com um público esperando e tramando tropeços, e mesmo quando consegue escapar das estatísticas, concluindo a faculdade e conseguindo um emprego, por exemplo, a cor da pele permanece sendo o primeiro e mais importante fator para determinar o seu caráter e até a sua competência. O que pode parecer "mania de perseguição" é na verdade um traço agressivo da história que resiste a qualquer "mudança de tempo". Não adianta ser rico ou ser pobre, ter ou não ter acesso a informação, estudar ou não em boas escolas, ter pouco ou muito cabelo, ser gay ou hétero, homem ou mulher, criança ou adulto, presidente ou servidor, gordo ou magro... O negro é sempre negro, não importa a ocasião, características físicas ou status social. E mesmo que isso simbolize orgulho, algo dessa natureza ou simplesmente nada, ainda há quem utilize esse atributo com intenções menos honrosas, objetivando a desqualificação dessa ou daquela pessoa. E assim sendo, o preto está sempre sendo revestido do produto das tragédias enfrentadas desde antes da descoberta da ilha de Vera Cruz. Poucas são as ocasiões em que os pretos são, antes de tudo, encarados como cidadãos e seres humanos, independente da cor da pele. Aliás, poucos momentos refletem a vontade dos cidadãos brasileiros em enxergar a luta secular dos negros por igualdade, dignidade e os mesmos benefícios que chegaram à maioria dos brancos ao longo da história, por exemplo. No geral, o preto persiste avaliado pela crítica de quem ainda não evoluiu a consciência. Pela doença de um mundo preso a séculos menos iluminados para a "raça" humana.

E o conflito "mais interessante" esta ainda no gênesis do debate. O que é ser negro? Ou melhor, qual a dificuldade das pessoas, até mesmo dos negros, em se identificar como tal? Aqui mora um dos primeiros preconceitos, porque o próprio negro já não se reconhece como tal, devido às pressões da sociedade racista, e os demais, que carregam descendências biológicas e históricas, não compreendem que "ser negro" pode ir muito além da cor da pele. Milhares de pessoas, hoje, mesmo não sendo pretas, confrontam dificuldades provocadas às suas famílias distantes, ao longo da história. O preconceito pode não existir para esses grupos, mas as marcas continuam vivas e traumáticas. É um antigo sistema de castas com tendências racistas. Muitos "filhos de negros" continuam afastados em "senzalas" e sobrevivendo à avarias condicionadas por centenas de duros e sangrentos anos.

Hoje, segundo o senso 2010, o número de pessoas que se auto proclamam como pardos (83 milhões) cresce consideravelmente mais do que a quantidade de pessoas que respondem que são negras – cerca de 14 milhões. E O número de brancos, 90 milhões, já simboliza quase metade da população. É claro que a miscigenação brasileira pode alterar positivamente a quantidade de pardos e brancos, mesmo que que as relações inter-raciais ainda sejam um tabu polêmico para a nossa "evoluída" sociedade, facista o suficiente para impedir "misturas". No entanto, a quantidade de negros "identificados" pelo IBGE frente à quantidade de pardos e brancos, surpreende até o que conta a  própria história. Com negros deixando de se reconhecer como tal e com a invasão de uma cultura imperialista, que prega violência contra quem insiste em não seguir os padrões determinados, os cidadãos negros facilitam o acesso de práticas discriminatórias. Abrem mão da sua cultura e até da cor da sua pele para evitar represálias.

As agressões desse quadro só não são maiores do que a marginalização do negro, como o citado no início do texto. Não conseguem os mesmos salários, os mesmos cargos ou sequer um emprego, pelo fato de serem negros. Ora, a essas pessoas é colocada durante toda a vida a cruz do período escravagista. Todo negro carrega esse peso para qualquer lugar. São forçados a subir duas vezes o mesmo degrau já subido por uma pessoa branca, na maioria dos casos, sendo que muitos desses degraus nem existem! Foram retirados devido às truculências que edificaram uma história desigual e preconceituosa. E Além de "metafórica" essa também é uma violência literal. De acordo com o Conselho Nacional de Juventude (CONJUVE), da Secretaria Nacional de Juventude (SNJ), com informações do DataSUS/Ministério da Saúde e do Mapa da Violência de 2011, em 2010, mais de 70% das vítimas de homicídio eram negras. Nesse ano, os negros mortos representavam 139% a mais do que os brancos assassinados. Entre os jovens (15 a 29 anos) a situação era similar. Das 26.854 vítimas de 2010, 74% eram pretos. A diferença entre jovens brancos e negros assassinados chegou a 12.190 homicídios a mais para os negros, em nove anos de levantamento (2000 – 2009). Ou seja, até os 30 anos uma pessoa negra corre um sério risco de vida, independente do quanto tenha no banco, das escolhas que tenha feito na vida ou até mesmo de qualquer doença que possa vir a ter.

O Mapa da Violência 2012, divulgado no final de dezembro do ano passado,  evidencia o problema a ponto de deixa-lo "atrativo" até para quem tem por costume negligenciá-lo. Entre 2002 e 2010, o número de pessoas brancas assassinadas caiu de 18.852 para 13.668, já com os negros a situação foi reversa, 26.952 mortos em 2002 e 33.624 em 2010, um aumento de 23,4% no número das mortes. Em 2011, para cada branco morto, dois negros eram baleados, esfaqueados ou espancados até a morte. O Distrito Federal, onde está localizada a capital do país, figura entre as localidades com mais pretos mortos por homicídios. São mais de 50 cidadãos assassinados para cada 100 mil. Uma das maiores taxas do país.

E as estatísticas preveem futuros difíceis para muitas pessoas. Isso mesmo sem considerar o fato de o negro ser configurado como criminoso, sendo abordado violentamente por policiais, seguranças e gerentes de lojas, ou como menos capaz, como o mais pobre, o menos confiável e até o mais feio, pasmem. Isso tudo delineia uma vida perturbadora para quem quer que seja. A sociedade, a política e a hipocrisia afastaram o negro do poder de se representar. Basta conhecer a representatividade do preto nos órgãos públicos e até no Congresso Nacional. Em muitos lugares como esses os negros continuam a apenas "servir" os brancos. Não que isso seja menos ou mais digno, mas essa é uma condição que se concretizou ao longo da história. E mesmo com esses claros sinais de irresponsabilidade daqueles que edificam o país, diariamente, poucas pessoas e instituições realmente se mobilizam ou se posicionam por mudança.

Esse é o retrato de um caos instalado há muitos e muitos anos. E aqui nem sempre a educação pode resolver o problema sozinha, porque estamos falando de um quadro que já compõe o comportamento cultural do brasileiro. Por isso a necessidade de governos e cidadãos dialogarem buscando novas medidas para conter uma epidemia que vem conduzido o país a um caminho contrário ao esperado a partir da  "evolução intelectual". Isso não apenas serve para livrar pessoas da violência racial, como também para promover valores igualitários para mulheres, gays, pobres e todas as "minorias",  que têm sofrido com os impactos negativos de agressivas resultantes da história,  possam enfim se recuperar e retomar o espaço que lhes é de direito. Por isso a necessidade de conhecer passado e abrir os olhos para o futuro. O país precisa fechar os buracos abertos pela escavadeira de regimes políticos, modelos econômicos e comportamentos culturais e sociais que "queimaram" as possibilidades de um Brasil mais prospero  É preciso recuperar para recomeçar e progredir. Os contribuintes, independente da cor, agradecem.

* Pindorama - Pindorama (em tupi-guarani pindó-rama ou pindó-retama, "terra/lugar/região das palmeiras") é uma designação pré-cabralina dada a regiões que, mais tarde, formariam o Brasil. Por extensão de significado, é o nome indígena por excelência desse país sul-americano. (Wikipédia)

** Desconsiderando o fato de algumas análises levarem em conta o número de pessoas que se declaram pardas – cerca de 85 milhões – somado àqueles declarados pretos para então resultar no número de "negros", que seria perto de 97 milhões.

Rafael Querrer é jornalista, repórter de política e economia

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