Universidade de Goiás entrega título de Doutora Honoris Causa a líder quilombola

Título para Procópia dos Santos Rosa, de 89 anos, da comunidade Kalunga, foi aprovado por unanimidade pela instituição

Procópia dos Santos Rosa
Procópia dos Santos Rosa (Foto: Arquivo pessoal)


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247, com Agência Cora de Notícias - A Universidade Estadual de Goiás (UEG) entrega nesta quarta-feira (7) um título de Doutora Honoris Causa à líder quilombola Procópia dos Santos Rosa, de 89 anos. A cerimônia acontece na Comunidade Kalunga (núcleo Riachão), em Monte Alegre de Goiás.

A proposta foi feita pela Unidade Universitária de Campos Belos, que defendeu a notória atuação de Procópia na defesa do meio ambiente, a luta pelo reconhecimento do território Kalunga e a promoção da paz entre os povos como justificativas. A entrega do título foi aprovada por unanimidade pela UEG em agosto último.

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Durante as discussões na 138ª Sessão Plenária do Conselho Superior Universitário, a relatora Rejane Borges da Rocha Castro explicou que a Comissão designada para analisar o processo cumpriu todos os ritos necessários e comunicou aos conselheiros que várias cartas foram enviadas ao CSU em apoio à propositura, como do Dr. Boaventura de Souza Santos, da Universidade de Coimbra, em Portugal, um dos mais importantes intelectuais de língua portuguesa. Em sua carta, lida pelo professor Edson Arantes, do Câmpus Norte, Boaventura defende que o título a Dona Procópia valoriza os saberes do sul, que são fundamentais para “adiar o fim do mundo”.

A atriz e ativista das causas ambientais Lucélia Santos também se manifestou a favor do título, assim como o presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva, entre outras autoridades.

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Depoimentos

A concessão do título reconhece a importância da líder quilombola, reforça o poder das mulheres e destaca a luta contra o racismo no Brasil. “Temos povos que, no decorrer da história, foram escravizados e mesmo diante dessa realidade ainda contribuíram significativamente para que esse País pudesse se erguer”, disse o reitor da UEG, Antônio Cruvinel.

“Muito emocionante o que a UEG está fazendo hoje! Mudará a história do Brasil e de Goiás no sentido decolonial, que ainda é uma urgência em nosso País!’, disse o servidor Marconi Moura de Lima, da Unidade Universitária de Campos Belos, um dos autores da proposta.

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“Gratidão aos professores Luiz Marles e Adelino Machado, ao servidor Marconi Moura e a todos que conhecem e reconhecem a luta do povo Kalunga, em especial ‘iaiá’ Procópia dos Santos”, disse a neta da homenageada, Lourdes Fernandes de Souza, conhecida como Bia Kalunga.

A homenageada recebeu com humildade a notícia da concessão do título. “Eu achava que não merecia isso. Eu não sei de nada. Só sei que as coisas aqui era difícil (sic), mas eu reclamei, reclamei e as coisas melhorou (sic), mas não foi eu só. Foi nós tudo (sic), porque eu sozinha não dava pra resolver nada. Se eu estou tendo esse valor eu agradeço primeiramente a Deus e ao povo da UEG que viu qualquer coisa em mim”, explica.

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História

Nascida no dia 10 de fevereiro de 1933, a descendente de escravos Procópia dos Santos Rosa sempre viveu na Comunidade Kalunga Riachão, localizada à margem direita do Rio Paranã, no município de Monte Alegre de Goiás. “Meus avós, meus pais, eu e meus filhos nascemos aqui”, diz. Com 89 anos, a líder tem dois filhos, 12 netos, 70 bisnetos e 15 tataranetos.

Vivendo entre as montanhas, num lugar que já foi de difícil acesso, a líder quilombola rompeu uma tradição da comunidade de que somente os homens podiam sair da comunidade. Dona Procópia conta que a primeira vez que foi a Monte Alegre estava com 50 anos. Aos 60 foi a Goiânia.

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PROCÓPIA ROSA - LÍDER KALUNGA 3A

A matriarca não teve oportunidade de estudar, uma vez que não haviam escolas no quilombo e não lhe era permitido sair do território para estudar, devido, inclusive, aos problemas de acesso, como a falta de estradas, distância dos centros urbanos e falta de meios de transporte adequados.

Mesmo não tendo estudado, sua liderança foi sendo conquistada passo a passo. Parteira, rezadeira, ‘dançadeira’ de súcia (dança típica da comunidade), Procópia foi voz firme na defesa do território Kalunga quando havia a ameaça da construção de uma usina hidrelétrica que poderia inundar o local. Ela conta que teve a ajuda da antropóloga Meire Baiocchi para defender os interesses do povo kalunga. “Dona Meire nos ajudou muito e eu sou muito grata”, lembra.

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A titulação das terras da comunidade, a construção de escolas e da rede de energia elétrica foram outras conquistas que o povo kalunga teve com o empenho da matriarca.

Em 2005, Procópia dos Santos Rosa foi indicada para concorrer ao Prêmio Nobel da Paz da Organização das Nações Unidas. Na ocasião, foram selecionadas mil mulheres de diversas partes do mundo, e, destas, apenas 52 eram brasileiras. A indicação foi anunciada de forma simultânea para 40 países, e seu nome foi indicado devido a sua luta em prol dos territórios e dos direitos dos Kalunga. “Fui a São Paulo. Não ganhei. Ganhei apenas uma flor, mas fiquei muito feliz por levar o nome do Kalunga pra todo mundo”, diz.

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Com presença forte, apesar da dificuldade de se locomover por conta da idade, Dona Procópia ainda hoje é figura respeitada na Comunidade Kalunga e sempre é procurada pelos moradores em busca de conselhos sobre assuntos de interesse da coletividade.

Assista à cerimônia:

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