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Cultura

Chico Anysio e o avanço do deserto

A morte de Chico Anysio lembra o quanto nosso patrimônio cultural se desfalca sem qualquer compensação à vista

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A morte de Chico Anysio lembra o quanto nosso patrimônio cultural se desfalca sem qualquer compensação à vista. É perda do mesmo quilate de Drummond, de Tom Jobim, de Paulo Francis, Joãozinho Trinta, e tantos outros que , partindo, não deixaram sequer o consolo de iguais, continuando por eles o enfrentamento da feiúra e da pobreza simbólica, próprias de países que evitam acertar contas com seu atraso, ora se iludindo com êxitos discutíveis , ora se refugiando em nacionalismos infantis. Países assim, quando perdem um item cultural, a muito custo superam esta perda. Ficam tempo considerável entregues a fenômenos de mídia, apenas.

Um talento como o de Chico Anysio, que se espalha por vários setores (humor radiofônico, humor televisivo, análise de futebol, letrista de canções, pintor, romancista, show man etc) costuma florescer em ambientes onde talentosos não precisam temer os medíocres, sempre dispostos a se vingar de suas deficiências boicotando os abençoados com talento. Ou seja, outro Brasil. Seus contemporâneos de rádio e TV eram profissionais inventivos e competentes e por isto Chico Anysio desfrutou de décadas de sucesso e prestígio. Mas estas eras de ouro costumam se revezar com eras de material menos nobre. Por azar de Chico Anysio, seu Outono de vida coincidiu com Outono na paisagem cultural do Brasil. Dias de gênios no freezer.

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Agora reprisam entrevistas, programas humorísticos. Dedicam dias inteiros a prantear e colher depoimentos sobre o artista, que segundo revelou ao jornalista Leonardo Attuch em entrevista, esperava com a ansiedade de um novato telefonemas que não vinham. Convites não se cristalizavam, desvanecendo-se ao sabor das justificativas mais risíveis. Ou se concretizavam pela metade, no feitio do “João sem braço”, como quando o convidaram a interpretar um pintor numa novela (salvo engano “Esperança”) garantindo-lhe que seriam utilizados quadros de sua autoria e, ao chegar ao estúdio, se deparou com quadros alheios.

Como se respeitava, recusou o papel (revelação feita no programa da Marília Gabriela no GNT - aliás, justiça se faça á Globo, vários entrevistados se referiram ao peso do ostracismo no desaparecimento do humorista - sem censura). Por que tratar um talento, veterano na casa, desta maneira? Qual o prazer experimentaram ao humilhar um profissional da estatura de Chico Anysio, dispensando a ele tratamento de mero figurante? Desforra de recalques?

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Ele sozinho superava elencos inteiros de programas humorísticos cujo único humor é o involuntário. Programas que causam o conhecido efeito “vergonha alheia” nos telespectadores que padecem esta dieta nas noites da TV aberta. Nota-se que, nos últimos tempos, davam-lhe algumas pontas nos programas da casa. Mas sempre com parcimônia, como um favor.

A campanha “Volta Chico” promovida pelo “Pânico na TV”, lembram-se? Humoristas da concorrência protestando contra a “geladeira no Chico”. Isto não causou o escândalo que causaria em outros tempos, ao contrário: a insensibilidade patológica que acomete muitos não se abalou minimamente com o que foi interpretado como uma provocação dos “meninos do ‘Pânico’”. Como observava Chico, os mais jovens não o conheciam. Logo, não tinham a mais remota ideia do que estavam sendo privados, acostumados que estavam sendo aos “novos nomes do humor”, em processo de nivelamento por baixo em tudo, coerente com a inversão geral de todos os valores, registrada no Brasil. “Não sabem o que perdem e por isto que continuem perdendo", parecem dizer os homens que tomam as decisões neste país a respeito de tudo, sobretudo no setor cultural, o qual parece congregar muitos incapazes e recalcados.

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Como seguiremos sabendo que Chico Anysio não tem mais volta? Que seu humor único não tem seguidores à altura (e temos bons humoristas) e que seus bordões e personagens que invocamos em diversas associações mentais tiveram a fonte interditada pela morte?

Da mesma maneira que suportamos viver sem Drummond, Tom Jobim, Luiz Gonzaga e Raul Seixas (entre outras baixas culturais) - rebaixando o nível de exigência, ou não os aceitando mortos. Desfrutando do que deixaram, mantendo a guarda levantada contra falsificadores.

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Saudade do “Chico City”, dos “Estados Anysios de Chico City”, os mais jovens não a terão. Isto pode consolar o que perdem por desconhecimento. Nós não teremos este consolo, e sim a lembrança das noites de ouro do humor, nas quais muito de nosso complexo de inferioridade experimentava certo alívio - “se temos um artista deste porte num programa tão divertido, o Brasil pode ser um grande país, podemos desejar ser algo mais.”

Com sua partida, o deserto imensurável se amplia, parece mesmo tomar toda a paisagem, moldando-a com sua feição assustadora. O Brasil ganha uma cratera que levará mais tempo que o suportável para cicatrizar, na sua desertificação embrutecedora, ficaremos mais selvagens e mais tristes até que outro gigante surja para cultivar nova floresta.

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