"Fazer o País crescer e a economia voltar a acontecer é obsessão”, diz Lula. "E não há como fazer isso sem juros menores"

O presidente conversou com jornalistas em café informal no Planalto. Lula espera voltar da China com negociação avançada para paz na Ucrânia

Luiz Inácio Lula da Silva
Luiz Inácio Lula da Silva (Foto: Ricardo Stuckert/PR)


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Por Luís Costa Pinto, da sucursal de Brasília do 247 – Embora este não fosse o tema da conversa e ele tivesse se referido ao personagem como “o coiso”, não faltaram análises ácidas do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em relação ao futuro do antecessor, Jair Bolsonaro, a quem derrotou nas urnas de outubro do ano passado. “Trabalho com a hipótese de que ele vai tentar voltar. Mas, terá de responder a muitos processos, a muitos inquéritos”, disse Lula em café informal com jornalistas e colunistas no Palácio do Planalto na manhã desta quinta-feira 6 de abril. “Agora, eu defendo que ele tenha o que eu não tive: amplo direito de defesa. Creio que haverá processos contra ele inclusive no exterior, por ter negado a Covid, a Ciência”, asseverou o presidente, dizendo que Bolsonaro terá de responder por ao menos uma parcela das mais de 700 mil mortes provocadas pela pandemia por coronavírus no País. Respondendo de forma irônica a uma pergunta de repórter da emissora CNN que tangenciou a grosseria, no tom, ao querer saber se ele pararia de falar em Bolsonaro e Sérgio Moro, Lula respondeu ponto a mão direita sobre o ombro do ministro-chefe da Secom, Paulo Pimenta, que estava a seu lado: “a ‘coisa’ e o ‘coiso’, e não vou falar o nome deles porque o Pimenta mandou eu parar de falar neles, têm que se explicar. Ganhei a eleição e tenho de governar”.O presidente da República centrou seu breve discurso inicial, formatado para saudar os 100 primeiros dias de gestão nesse terceiro mandato, naquilo que chama de sua nova “obsessão”: a retomada do crescimento, a redução dos juros para fazer a economia popular voltar a girar e a reinserção do Brasil nos grandes temas diplomáticos internacionais. “Digo aqui para os ministros que o foco tem de ser em três palavras para fazer a economia do Brasil voltar a crescer: ‘estabilidade’, ‘credibilidade’ e ‘previsibilidade’”, insistiu, retomando uma linha de discurso que havia adotado em outras entrevistas – entre elas aquela concedida com exclusividade há um mês para a TV 247. “Não vamos privatizar empresas. Quem quiser investir no Brasil vai ter de criar algo novo, criar algo novo”, anunciou no início da conversa. Logo depois, em outro momento, emendou falando especificamente da Petrobrás: “Mandei suspender a venda de ativos da Petrobrás. De 44 ativos que estavam sendo postos à venda, foram retirados 38 da relação”. Mais à frente, depois de detalhar as expectativas que tinha em relação à viagem de Estado que fará à China na próxima semana, o presidente disse que falaria com o líder chinês Xi Jinping sobre a construção da paz mundial (fim da guerra da Rússia contra a Ucrânia), sobre meio ambiente, e, sobretudo, sobre novos investimentos chineses no Brasil.

Houve um momento da conversa que foi especialmente dedicado à Reforma Tributária, ao novo marco fiscal do País e ao constante cabo-de-guerra que o Governo Federal vem entabulando com o Banco Central em razão da alta taxa de juros básicos da economia nacional, hoje fixada em 13,75 (o que transforma o Brasil no País com maior taxa de juro real do planeta). “Não vou ficar brigando com o presidente do Banco Central. Daqui a dois anos ele sai, nós indicamos outro”, disse Lula, pontuando que não há nenhum plano de forçar uma saída antecipada de Roberto Campos Neto da presidência do BC, para onde foi por indicação de Jair Bolsonaro. “Mas, podemos indicar novos diretores, porque a lei manda assim, alguns diretores estão saindo, e vou escolher nomes afinados com o que pensamos e de acordo com as regras”, ressaltou. Em dado momento, criticando o fato de Campos Neto ter dito na semana passada, em entrevista, que precisaria fazer a taxa de juros ser 26% para estancar a alta prevista para a inflação brasileira (que está acima da meta de 4,5%, e isso é atribuição central do BC), o presidente foi duro. “Essa é uma coisa no mínimo não razoável para ser dita”, reagiu. “Como um empresário vai tomar um empréstimo com essa taxa de juros?”. Neste ponto, Lula disse que seria mais fácil mudar a meta de inflação, e não falar em taxa de juros básica de 26%. Alguns dos jornalistas presentes passaram a informação truncada para suas redações, a fala chegou ao mercado financeiro antes mesmo do fim da conversa e, ao encerrar o bate papo, o presidente deixou claro que jamais havia falado em mudar a meta de inflação. E, de fato, não falou. Houve a compreensão, entre alguns repórteres, de que ele havia dito que mudaria a meta – ele não disse isso; os repórteres insistiram em registrar o que haviam “compreendido”.

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A nova obsessão: o crescimento e a volta do crédito

À vontade em um dos seus ternos cinza e na camisa branca, conjunto cuja paleta parece ter escolhido preferencialmente para despachar nesse terceiro mandato, lançando olhares brincalhões para a plateia de jornalistas e colunistas de diversos veículos, o presidente da República abriu a conversa fazendo um breve comercial dos primeiros 100 dias de gestão. “Estou muito satisfeito com as coisas que já fizemos até agora”, afirmou. “E é claro que tem dificuldades, que elas surgiram. Se não tem dificuldades, não tem por que ter política”. Neste momento, fez breve citação a uma frase de Ulysses Guimarães, um dos maiores parlamentares brasileiros do Século XX, morto num desastre aéreo em 1992. “A política é o orgasmo do ser humano”, disse Lula. Ulysses falou algo um pouco diferente. O “Senhor Diretas”, como era conhecido, que foi primeiro-ministro de João Goulart, presidente do MDB, da Câmara, da Assembleia Constituinte e que liderou o movimentos Diretas, Já, dizia que “o poder dá orgasmos”.

Depois dessa breve bolsa-memória, Lula disse estar muito satisfeito por retomar as políticas sociais que deram certo. Ele se referia, sobretudo, aos programas Bolsa Família, Mais Médicos e Minha Casa, Minha Vida, que haviam sido explicitados pelo ministro Paulo Pimenta em pequena introdução à fala presidencial. “Vamos fazer a economia voltar a crescer, voltar a acontecer. E, para isso, é preciso ter crédito. Não é possível um País crescer com taxas de juros de 15%, 17%, 30%”, realçou. “É preciso ter crédito para o agronegócio, para os pequenos e microempresários, para os agricultores familiares, para os empreendedores individuais”. Dito isso, Lula falou de suas novas obsessões: “A minha obsessão nos primeiros 100 dias era retomar as políticas sociais que deram certo. Agora, a obsessão é fazer a economia voltar a crescer, voltar a funcionar, para pôr o pobre no orçamento, para fazer a massa salarial crescer, para fazer quem ganha mais, pagar mais impostos; e quem ganha menos, pagar menos impostos”.

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Segundo o presidente da República, o “companheiro Alckmin” (Geraldo Alckmin, vice-presidente da República e ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços) foi instado a chamar os executivos da indústria automobilística e os líderes sindicais das regiões que têm produção automotiva para que juntos estruturem um programa destinado a fazer com que o setor retome investimentos, crescimento e geração de empregos. “Em 2010, quando deixei meu segundo mandato, o Brasil matriculava 3,8 milhões de automóveis novos por ano. E a expectativa que se tinha naquela época era que a gente estivesse agora em 2023 matriculando 6 milhões de carros no Brasil. Hoje, não conseguimos matricular nem metade daqueles 3,8 milhões de carros novos por ano no País. Então, tem um problema. E o Governo, as empresas e os sindicatos estão sendo chamados para resolver”, afirmou.

Política de preços da Petrobrás: fim do PPI

Ecoando o insistente discurso de sua campanha presidencial de 2022, que hoje encontra respaldo em alguns setores acadêmicos e entre economistas do mercado financeiro, o presidente Lula disse também que havia determinado ao ministro das Minas e Energia, Alexandre Silveira, e comunicado ao presidente da Petrobrás, Jean Paul Prates, que era preciso “abrasileirar o preço da gasolina”. Ou seja, o chefe do Poder Executivo, controlador da Petrobrás, determinou que a Política de Preços Internacionais da Petrobrás (PPI) adotada nos tempos em que Michel Temer despachava no Palácio do Planalto iria mudar. “O Brasil não tem que estar submetido à PPI”, afirmou ele. “Quero discutir a política de preços da Petrobrás e também a política de investimentos da empresa. Não é possível a manutenção desses pagamentos de dividendos da Petrobras. O Brasil todo precisa dos investimentos da Petrobrás”, asseverou.

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Esperança na viagem à China: Paz e o Brasil de volta

O presidente brasileiro demonstrou estar plenamente satisfeito com a recuperação dos espaços do País no tabuleiro geopolítico internacional. Ao dizer que via com muita satisfação a ida do líder chinês Xi Jinping a Moscou, onde encontrou-se com o presidente Vladimir Putin, e para onde ele mesmo enviou o assessor especial Celso Amorim, Lula traçou uma teoria da ampla negociação da paz internacional. “A paz é mais complicada do que a guerra”, disse. ‘A guerra só precisa de um insano para decretá-la. A paz precisa de um grupo para construí-la”. Ele deixou claro quão satisfeito está porque sua ida a Pequim é antecedida pela visita de Estado do presidente francês Emmanuel Macron à China. “Vamos todos conversar”, disse. O presidente observou que achou açodada a forma como a União Europeia adotou um lado na guerra da Ucrânia antes de extinguir as negociações de paz. Ele ressalvou que a Rússia jamais – e ressalvou o “jamais” – poderia ter invadido a bombardeado a Ucrânia. Mas, diante do fato, era necessário agora negociar a paz – e que vê Brasil, China e Índia como essenciais nessa construção da paz.

Sobre Blumenau: "não é humanamente explicável"

Antes de começar a conversa mais rígida sobre temas diversos com os jornalistas, o presidente Lula pediu um minuto para se pronunciar em relação à barbárie ocorrida ontem em Blumenau (SC), onde um homem matou quatro crianças a machadadas numa creche. “O dia de ontem foi um dos dias mais tristes da minha vida”, disse ele. “Sou avô, bisavô... não é humanamente explicável o que ocorreu em Blumenau. Só pode ter sido coisa de alguém que veio de um planeta diferente... matar crianças!”, indignou-se. “Não é humanamente explicável”, repetiu. “É preciso mudar a cabeça da humanidade, e não só no Brasil. O mundo está tomado por um clima de ódio, de intolerância, de uma forma que não conhecíamos”.

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