Paulo Arantes: insurgência bolsonarista veio para ficar algumas gerações

'Ruptura pelo pior' deve ser estancada na urna, mas seguirá conquistando adeptos entre os excluídos pelo desemprego e pela emergência ambiental, diz filósofo; veja vídeo na íntegra

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Paulo Arantes


Por Pedro Alexandre Sanches, do Opera Mundi - O filósofo Paulo Arantes defende que o bolsonarismo é um título provisório para a insurgência permanente da extrema direita, novidade política que deve permanecer no cenário brasileiro por algumas gerações e tende a se agravar diante da ausência de soluções materiais, sociais, econômicas e políticas no país. “Vamos acrescentar, à massa daqueles que não têm mais noção do que seja emprego ou salário, mais populações em estado precário ou desesperador. A massa de gente estropiada que vai se multiplicar no próximo período é gigantesca”, prevê o professor do Departamento de Filosofia da Universidade de São Paulo (USP), em entrevista ao jornalista Breno Altman, no programa 20 MINUTOS desta segunda-feira (26/09).

Ele credita a multiplicação “condenados da terra” à emergência ambiental provocada pelo capitalismo. “Na tempestade perfeita que se armou sobre o planeta, a ameaça principal é o desequilíbrio do aquecimento global, a mudança climática, o desastre já anunciado”, afirma.

Para Arantes, o caldo insurgente guarda analogias com o fascismo clássico por constituir uma revolta dentro da ordem, que no Brasil se iniciou nas Jornadas de Junho de 2013. 

O professor, no entanto, rejeita a designação de fascista para o bolsonarismo, assim como a recusa a ideia de que o junho de 2013 tenha significado o ovo da serpente que gestou a ala. 

Em sua avaliação, os eventos de 2013 marcam uma ruptura da sociedade com o centro político que vinha, desde o impeachment de Fernando Collor, se alternando no poder como um “condomínio tucano-petista”. “As Jornadas de Junho aconteceram porque a população em geral achava que não estava vivendo naquele paraíso descrito não só por petistas e lulistas, mas por tucanos também”, afirma, 

A esquerda, então no poder, não compreendeu que ela era o establishment em 2013, nem que poderia, sim, eclodir um inconformismo de massa até então inédito no Brasil. 

Bolsonarismo: um regime político

Arantes ressalta diferenças que, semelhanças à parte, não permitem classificar o bolsonarismo como um movimento fascista. “Eu definiria o bolsonarismo como um regime político de exercício do poder numa sociedade de empreendedores, portanto uma sociedade sem classes, em que todos concorrem com todos, sem pesos e contrapesos”, formula. 

A figura de Jair Bolsonaro surge como representante desse empreendedorismo que traz a extrema direita de volta ao poder, como vanguarda mundial, nas palavras do filósofo: “a rigor, fomos o primeiro regime de poder de extrema direita puro-sangue, sem alianças com partidos tradicionais como foi o caso de Donald Trump, que surfou ao ganhar apoio do Partido Republicano. Esse capitão veio do nada, do submundo político congressual, e em pouco tempo chegou ao topo, sozinho. Arrastou consigo a direita, mas não é um produto da direita brasileira clássica, que foi humilhada nas eleições de 2018”.

Arantes argumenta que a exaltação do empreendedorismo popular pelo bolsonarismo é estrutural, e não oportunista e eleitoral. O atual presidente seria um empreendedor político de si mesmo numa empresa familiar, que ascende a partir de uma carreira mambembe via redes sociais, entre o lícito e o ilícito.

A ação política bolsonarista, essencialmente pragmática, busca o apoio do grande capital mais por conveniência que por afinidade ideológica liberal, neoliberal ou ultraliberal. A grande novidade em relação ao fascismo histórico, segundo o professor, é que o bolsonarismo reuniu condições para ganhar eleições. Os grandes capitalistas precisam de Bolsonaro para ganhar porque sozinhos não conseguem mais ganhar, conclui.

Na hipótese de Arantes, o projeto é seguir ganhando eleições. “Bolsonaro pode sair no dia 2, pode desabar politicamente, pode puxar uma cadeia, fugir ou sair de cena, mas o bolsonarismo veio para ficar, tem 35% do eleitorado. É uma realidade sociológica incontornável e temos que inventar um jeito de enfrentá-la”, projeta os anos difíceis que virão pela frente. 

Em uma analogia com o nazismo, Arantes descreve o cenário na semana do primeiro turno da eleição: “Bolsonaro é a ruptura pelo pior, que tem que ser estancada, contida. É frente ampla com todo mundo, cobrança de passado neste momento é estupidez”. 

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