Matthew Ehret fala sobre reunião da OCX e a necessidade de uma nova arquitetura global de segurança

O tempo está passando rapidamente e, se nós perdermos esta oportunidade agora, a única paz que o mundo poderá encontrar algum dia será acompanhada por um longo inverno nuclear

www.brasil247.com - Organização de Cooperação de Xangai (OCX)
Organização de Cooperação de Xangai (OCX) (Foto: Sputnik)


Artigo de Matthew Ehret* originalmente publicado no Strategic Culture em 18/9/22. Traduzido e adaptado por Rubens Turkienicz com exclusividade para o Brasil 247

Durante um encontro entre Putin e Xi na recente reunião de cúpula da Organização para a Cooperação de Xangai em Samarkand, o líder chinês reafirmou o seu entendimento tanto do momento histórico que está conformando o mundo atualmente quanto do papel vital que a Rússia e a China devem desempenhar para navegar a humanidade através desta tempestade, ao dizer:

“Caro presidente Putin, meu caro e antigo amigo. Tenho muito prazer em encontrá-lo novamente. Nós estamos junto com os nossos colegas russos no enfrentamento das tremendas mudanças da nossa época em escala global e sem precedentes na história, para dar um exemplo de uma potência mundial responsável.”

O encontro foi especialmente estratégico, eis que foi o primeiro de tais encontros tendo o Irã como um membro pleno e a Bielorrússia a caminho e tornar-se membro à curto prazo, juntamente com outros estados – incluindo os Emirados Árabes Unidos, Bahrain, Myanmar, Kuwait e as Maldivas. É extremamente aparente que os alicerces para uma nova alternativa de arquitetura de segurança estão entrando em pauta, o que também inclui um componente financeiro vital – que é, talvez, a razão pela qual fogos também foram acesos com confrontações sangrentas lançadas pelo Azerbaijão contra a Armênia,membro da OCX, e também entre o Quirguistão e o Tajiquistão (ambos membros da OCX que são hospedeiros de bases russas e chinesas conectadas com infraestrutura vital da Iniciativa do Cinturão e Rota – ICR). Conquanto ainda não se conheçam todos os detalhes sobre como esses incendiários estão acendendo estes incêndios, o 'timing' e o caráter destes conflitos cheiram a operações de anglo-inteligência.

O tema comum dentre as discussões da Cúpula da OCX e da aliança multipolar mais ampla é moldado ao redor do bem comum, da segurança comum e da coordenação de ações para melhorar as condições de vida dos povos e nações soberanas, como é delineado pela Carta das Nações Unidas (que é uma criatura muito diferente da “ordem internacional baseada em regras” sobre a qual os unipolaristas amam espalhar boatos a respeito atualmente).

Infelizmente, mesmo as vozes mais sãs e que têm um mínimo de influência política dentre os estados ocidentais, parecem estar completamente ignorantes das decisões que marcam época que estão sendo tomadas agora pelos aliados da Aliança Multipolar – os quais têm deixado incrivelmente claro que prefeririam a cooperação com a comunidade transatlântica enquanto aliados, do que ir à guerra com esta – mesmo que os eventos os forçaram a se preparar para esta última de maneira que poucos pensavam ser possível apenas há poucos anos.

Se jamais houve uma oportunidade para a humildade e a autorreflexão entre os líderes do Ocidente, agora é chegado o momento.

A natureza das cúpulas de paz no passado 

Nas épocas anteriores às armas nucleares, as conferências de paz frequentemente eram arranjadas somente após anos de guerras devastadoras e quando o derramamento de sangue havia se tornado insuportável.

Vimos exemplos de tais conferências na forma da Paz na Westfália de 1648 , a qual surgiu após a Guerra dos 30 Anos e que estabeleceu o quadro do sistema moderno de nações-estados soberanas como centro da lei internacional. Vimos uma débil tentativa disso numa outra conferência, na forma do Congresso de Viena de 1815, depois que a Europa foi dizimada por duas décadas de guerras napoleônicas. Vimos uma tentativa surgir novamente na forma da Liga das Nações, após a máquina de moer carne da Primeira Guerra Mundial e, novamente, na forma das Nações Unidas e do sistema de Bretton Woods que foram instituídos após a Segunda Guerra Mundial.

Algumas vezes, estas conferências internacionais foram moldadas por pautas honestas, e algumas vezes não, porém em todas as instâncias, foi acordado por todas as partes que se fazia necessário um novo sistema para evitar um mergulho na guerra.

Infelizmente, a memória humana é fraca e a rede bizantina de poder político na qual o 'Deep State' anglo-estadunidense opera não é facilmente transformada por conferências ou acordos para jogar agradavelmente com os vizinhos.

Estando sentados, como estamos agora, no precipício de mais um mergulho na guerra e no colapso econômico, a mera existência das bombas atômicas torna intolerável os erros do passado no século XXI. Enquanto alguns 'think tankers' da Rand Corporation e representantes do complexo militar-industrial possam acreditar que um novo mundo é uma perspectiva excitante e até um empreendimento que se pode vencer (segundo os cenários modelados nos seus computadores), a realidade é muito diferente.

A realidade objetiva é que tal guerra jamais poderia ser vencida e que a mera existência das tecnologias da próxima geração de mísseis hipersônicos revelada pela Rússia e pela China, incluindo drones-submarinos, demonstrou que o monopólio do primeiro ataque por parte da OTAN é um sonho impossível.

Então, o que deve ser feito?

Obviamente, uma opção seria que a Rússia, a China, a Índia e outras nações que se organizam atualmente ao redor da aliança multipolar abandonem 1) as suas soberanias e 2) os seus desejos de estabelecer um novo sistema baseado na cooperação vence-vence.

Estas nações também teriam que concordar em fazer um Great Reset [Grande Reinicialização] do mundo em termos de um ninho de sacerdotes tecnocráticos unipolares gerenciando um novo governo mundial, sobrepondo-se às estruturas dos regimes eleitos. Obviamente, isto sigificaria a eliminação ou remodelação da Carta da ONU – a qual atualmente baseia a lei internacional na santidade da soberania nacional e a não-interferência militar de um Estado sobre outro, e na cooperação mútua. Estes Estados também teriam que acordar um novo sistema draconiano de redução de população, sob a rubrica da “descarbonização”. Se isso fosse feito, eles nos dizem que será possível atingirmos uma nova ordem mundial de paz, de crescimento e sustentabilidade, e finalmente será revelado o utópico “fim da história” tão esperado.

Baseando-se nos perfis, palavras e desempenhos dos líderes da Aliança Multipolar, como testemunhado na década passada, eles não o farão.

A necessidade de um tipo diferente de Reinicialização

A outra opção seria que uma cúpula ocorresse ANTES que a próxima guerra nuclear torne a humanidade um experimento falido e ao invés de um Great Reset anti-humanista, ou uma Nova Ordem Mundial trans-humanista – modelando os termos e metas desta cúpula de emergência ao resolver problemas objetivos sobre os quais todas as pessoas do mundo possam concordar e que Franklin Roosevelt delineou nas suas Quatro Liberdades.

A liberdade da carência, a liberdade do medo da guerra, da liberdade de expressão e da liberdade de consciência que são universais e estabelecem a espinha dorsal tanto do espírito da Carta Atlântica (antes das edições de Biden/Bojo), a Carta das Nações Unidas e os projetos originais do sistema de Bretton Woods. Estas liberdades universais foram delineadas novamente na Declaração dos Direitos Humanos da ONU em 1947 e os Cinco Princípios de Coexistência Pacífica que emergiram da Conferência de Bandung em 1955 que deram o tom para o Movimento dos Países Não-alinhados.

Em Bretton Woods, em duas semanas, foi criado um novo sistema financeiro fundamentado nos princípios bancários que exigiam taxas fixas de câmbio para bloquear a especulação ilimitada que foi usada como guerra econômica contra as nações pobres durante séculos. Este sistema tinha originalmente como premissa a ideia de emitir créditos de longo-prazo para projetos de grande escala, para internacionalizar o New Deal sob uma era imaginada para ser uma era de cooperação multipolar e de desenvolvimento vence-vence. A ONU, como imaginada por Roosevelt ou Henry Wallace, jamais teve a intenção de ser um governo mundial; ao invés disso, seria uma plataforma para o diálogo e a harmonização dos interesses de econômicos e de segurança entre civilizações.

Apesar do fato de que as instituições de Bretton Woods – como o FMI e o Banco Mundial (e o próprio governo dos EUA) – terem sido sequestradas por operadores do 'Estado profundo' (deep state operatives) que representavam as piores inclinações oligárquicas da humanidade nos anos após a Segunda Guerra Mundial, a verdade das origens nobres destas instituições que John Kennedy tentou reviver (e Trump, em menor, porém relevante extensão), não devem ser ignoradas.

Por que não arranjar uma conferência similar hoje em dia, congregando representantes de diversas nações?

Como eu mencionei no início deste artigo, esta discussão já foi iniciada e importantes figuras representativas da maioria da população mundial estão fazendo-o – como vimos em Samarkand.

O desenvolvimento de programas que já foram revelados pela arquitetura financeira produtiva da China e o seu crescente leque de aliados, já lançou investimentos de larga escala de mais de US$ 3 trilhões em torno da Iniciativa da Rota da Seda – ligada cada vez mais à União Econômica Eurasiana, que está preparando rapidamente as bases para uma nova arquitetura financeira completamente integrada, fundada nos valores do mundo real, como delineado por Sergey Glazyev em numerosas ocasiões; este compacto mais saudável de forças civilizatórias deixou claro tanto o seu desejo de sobreviver quanto de prosperar no século XXI e mais além.

A ironia das Quatro Liberdades de Roosevelt que estão sendo avançadas atualmente pelas potências eurasianas consideradas como os grupos mais “não-americanos” do planeta, não devem passar despercebidas

Não há carência de projetos cooperativos para serem construídos juntos em toda a Ásia, na Europa, no Oriente Médio, na África e nas Américas que podem facilmente criar empregos reais, reconstruir as nossas decaídas fábricas e infraestruturas, e estabelecer a confiança entre as nações que estiveram por tanto tempo em conflito umas com as outras. As forças sãs que não estão dispostas a sacrificar as suas tradições e os seus povos dentre os cidadãos ocidentais e os tomadores de decisões fariam bem em organizar-se como nunca antes para trazerem as suas nações em harmonia com esta discussão mais saudável que está ocorrendo atualmente. 

O tempo está passando rapidamente e, se perdermos esta oportunidade agora, a única paz que o mundo poderá algum dia encontrar será acompanhada por um longo inverno nuclear.

*Matthew J.L. Ehret é um jornalista, palestrante e fundador da 'Canadian Patriot Review'.

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