Espécie de sapo minúscula e fluorescente descoberta na Serra da Mantiqueira

O gênero Brachycephalus, a que essa nova espécie pertence, inclui os pequenos anfíbios que popularmente chamamos de sapinhos-pingo-de-ouro, endêmicos da Mata Atlântica do sudeste e sul do Brasil

(Foto: Eldécio Muscat)
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Victor Castanho, 247 - Segundo uma publicação da revista científica Plos One, realizada nesta quarta-feira (28), uma nova espécie de sapo do gênero Brachycephalus foi descoberta no sul da cadeia montanhosa da Mantiqueira por pesquisadores da Universidade do Estado de São Paulo (Unesp) e da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul (UFMS), em parceria com a ONG de preservação ambiental Projeto Dacnis. A espécie, batizada de Brachycephalus rotenbergae em homenagem a Elsie Laura K. Rotenberg (fundadora e líder da ONG Projeto Dacnis), mede aproximadamente 1,5 centímetro e vive entre a serrapilheira da Mata Atlântica, ocasionalmente subindo em áreas mais altas de até 30 centímetros acima do solo, segundo os dados do artigo. Ainda de acordo com o levantamento dos pesquisadores, a espécie atualmente está restrita ao sul da serra da Mantiqueira e às florestas semideciduais dos municípios de Mogi das Cruzes, Campinas e Jundiaí.

O gênero Brachycephalus, a que essa nova espécie pertence, inclui os pequenos anfíbios que popularmente chamamos de sapinhos-pingo-de-ouro, endêmicos da Mata Atlântica do sudeste e sul do Brasil. A área de ocorrência dessas espécies é restrita, o que as torna altamente sensíveis a quaisquer tipos de mudanças climáticas e alterações em seus habitats. Uma espécie desses sapinhos, Brachycephalus margaritatus, que foi descrita em 2011, por exemplo, apenas pode ser encontrada em uma pequena região entre os municípios de Eng. Paulo de Frontin, Paty do Alferes e Petrópolis, inteiramente no estado do Rio de Janeiro.

Por serem tão pequenos e ocorrerem em áreas tão restritas, a maioria das espécies dos sapinhos-pingo-de-ouro foram descobertas nas últimas duas décadas, tendo a última grande novidade ocorrido em 2015, quando pesquisadores da Faculdade Dom Bosco, da ONG Mater Natura, da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e STCP Engenharia de Projetos Ltda, revelaram sete novas espécies desse gênero.

Talvez a característica mais conspícua desses sapinhos, além de seu tamanho, seja sua coloração de um laranja fosforescente. Essa coloração extremamente chamativa se deve a uma estratégia que os cientistas nomearam de aposematismo. Basicamente, o aposematismo é um fenômeno em que um organismo vivo apresenta, em seu corpo, cores extravagantes que alertam os predadores de sua toxicidade. As principais cores aposemáticas na natureza são o amarelo, o preto, o vermelho, branco, cores metálicas e fosforescentes. No caso dos sapinhos-pingo-de-ouro, por exemplo, um estudo com a espécie Brachycephalus ephippium demonstrou a presença de tetrodotoxinas em sua pele – neurotoxinas extremamente potentes encontradas em baiacus e nos polvos-de-anéis-azuis.

O biólogo coordenador do Projeto Dacnis e autor sênior do artigo de descrição da nova espécie, Edelcio Muscat, comentou sobre a descoberta em conversa exclusiva com a Brasil 247. “Em 2017, eu encontrei a espécie na Serra da Mantiqueira e tive a impressão de não ser o Brachycephalus ephippium”, diz o biólogo, referindo-se a uma espécie de sapinho-pingo-de-ouro que já era anteriormente conhecida pela ciência. O biólogo conta que encontrou a espécie acidentalmente em um dos monitoramentos que realizava rotineiramente na Serra da Mantiqueira. Diante desse achado, Edelcio conta que se reuniu com especialistas de diversas áreas da biologia para estabelecer parcerias e organizar o projeto. Quando perguntado sobre os principais agentes, o coordenador da ONG diz: “eu e minha equipe do Projeto Dacnis (Mariana Pedroso e Matheus Moroti) iniciamos o trabalho”.

É a segunda vez que uma organização não governamental descreve um desses sapinhos para a ciência: em 2015, pesquisadores da ONG Mater Natura descreveram com parceiros as 7 novas espécies e na sua conseguinte proteção. No entanto, isso não impede que a família Bolsonaro ataque essas instituições e as vilanize, clamando que são “vagabundas”. Edelcio, que convive com essa realidade de perto, afirmou não ser fácil provar para a sociedade que as ONGs têm um papel importante na ciência. “A população, de um modo geral, acredita que somos bancados pelo governo ou por instituições que agridem o meio-ambiente”, diz o coordenador do Projeto Dacnis, ao que acrescenta, “nós, por exemplo, não recebemos sequer 1 centavo de apoio – somos independentes de auxílio e de financiamentos”.

Edelcio acredita fortemente que muitas novidades ainda nos esperam nas matas do Brasil. “Ainda que [a Mata Atlântica] tenha altas taxas de amostragem, nada impede que tenhamos novidades no futuro”, diz o biólogo. Ainda aponta que muito do que achamos conhecer pode esconder mistérios: “[essa nova espécie de sapinho], por exemplo, era conhecida na ciência como Brachycephalus ephippium, uma espécie que já havia sido descoberta, mas diante de nosso estudo mais aprofundado, ela acabou se revelando como algo novo. Isso mostra que muitas coisas novas certamente vão surgir, não necessariamente em áreas ainda nunca antes estudadas”.

Finalmente, perguntei a Edelcio sobre a razão de essa espécie de sapinho ser fluorescente, brilhando fortemente nos escudos dorsais e cefálicos quando apontado com lanternas UV. “Ainda não sabemos o motivo, existem algumas hipóteses, porém, que estamos trabalhando em outro trabalho”, foi a resposta do biólogo. Ele ainda recomendou a leitura de um outro trabalho em que isso fora discutido, porém ainda nesse trabalho não é dada uma explicação.

Essa descoberta de uma nova espécie tão próxima dos grandes centros urbanos traz uma nova luz de esperança para o futuro e nos demonstra o quanto ainda temos a descobrir abaixo de nossos narizes. Para podermos realizar essas descobertas, precisamos preservar a natureza e nos manter atentos aos arredores. Edelcio afirma que “ a única forma de proteger nosso patrimônio é a conscientização da população. Ele afirma “que trabalhos voltados à História Natural são importantes nesse quesito, pois podem ser facilmente traduzidos para uma linguagem popular e atingir um público maior”. O pesquisador afirma: “só a educação poderá amenizar o processo de extinção”.

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