“Para a taxa de desmatamento melhorar, o presidente deve calar a boca”, diz ex-presidente do Ibama

Em entrevista à TV 247, Suely Araújo, do Observatório do Clima, explica que a postura de Jair Bolsonaro “acaba dando, para quem mora nas comunidades e para infratores, uma mensagem de que a legislação ambiental está equivocada, e parte dos brasileiros assumiu essa narrativa como certa”

Jair Bolsonaro e queimada no Pantanal
Jair Bolsonaro e queimada no Pantanal (Foto: Alan Santos/PR | REUTERS/Amanda Perobelli)
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247 - “A política ambiental sem participação da sociedade civil não existe”. A afirmação é de Suely Araújo, da ONG Observatório do Clima e ex-presidente do Ibama, que esteve no programa Ecologizando 247 nesta semana.

Na entrevista à TV 247, a ambientalista afirma que, com a constituição de 1988, houve a democratização da discussão no campo ambiental e “a partir daí, a marca da política ambiental no plano federal [se tornou a] participação da sociedade em vários programas, em vários órgãos colegiados com poderes importantes e deliberativos”. 

Suely ainda diz que desde que entrou no Congresso, em 1981, “a atuação das ONGs ocorre o tempo todo, com os parlamentares que se dedicam a essa área” pois “o quadro do Congresso sempre foi de domínio da bancada ruralista, com poucos parlamentares atuando no meio ambiente e por isso [precisa-se] do apoio da sociedade civil”. Dessa forma, a especialista contraria as falácias demagógicas do bolsonarismo, que constantemente ataca ONGs, e demonstra o papel fundamental da sociedade civil na formação de políticas públicas efetivas. 

Ainda contradizendo o bolsonarismo, Suely trata dos principais retrocessos da atual gestão governamental no meio ambiente, comandada pelo ministro Ricardo Salles. A também urbanista e advogada faz questão de ressaltar que o papel simbólico do discurso do governo é o fator que mais danifica o setor ambiental. 

“Eu acho que se tem uma deslegitimação da política ambiental que é o mais forte”, diz Suely e logo acrescenta que “desde a campanha eleitoral a gente já sentiu efeitos na fiscalização, devido a uma espécie de ‘liberou-geral’ na narrativa do então candidato Bolsonaro”. A ex-presidente do Ibama explica que a postura de Jair Bolsonaro “acaba dando, para quem mora nas comunidades e para infratores, uma mensagem de que a legislação ambiental está equivocada, de que a fiscalização do Ibama está exagerada, [...] e parte dos brasileiros assumiu essa narrativa como certa”. Ela ainda afirma que a primeira ação a ser tomada “para a taxa de desmatamento ter chance de melhorar” é fazer “o presidente calar a boca e parar de falar mal de política ambiental, e o próprio ministro do meio ambiente também”.

Questionado sobre o que faria para melhorar o cenário atual, ela responde: “a gente tem que voltar a dar força tanto para o Ibama quanto para o ICMBio, dar mais autonomia para os servidores tocarem o serviço do dia a dia [...] e retirar esses ETs todos que estão em cargos de coordenação [para retornar] cargos de chefia aos servidores”. De um ponto de vista do funcionamento a nível federal das instituições ambientais, Suely destaca a necessidade de um concurso emergencial para o Ibama e o ICMBio, pois “o total da equipe está muito pequeno e todos estão envelhecidos”. Segundo ela, também é importante a retomada da capacidade de administração direta do Ministério do Meio Ambiente através de diretrizes para a política ambiental e afirma que “o ministro deveria estar realmente se preocupando com questões de clima, com o porquê de o desmatamento estar aumentando e como ele pode ajudar”. 

Finalizando sua fala, Suely, que atualmente também dá aulas voluntariamente na Universidade de Brasília (UnB), demonstra sua fé na educação como principal ferramenta e nas gerações futuras como principais agentes. “Temos que trabalhar o máximo possível com educação ambiental, ajudar os jovens e formar uma nova geração com uma nova cabeça”, defende.

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