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China emerge como potência estabilizadora e parceira do Sul Global no Oriente Médio, dizem analistas

Deterioração da imagem dos EUA no Oriente Médio, devido ao apoio à ofensiva israelense em Gaza, abre espaço para Pequim estreitar laços com países da região

(Foto: Reuters/Thomas Peter)
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Sputnik - A crise que eclodiu no Oriente Médio após a ofensiva de Israel contra o Hamas, lançada em 7 de outubro, e o envolvimento de outros atores no conflito — como o grupo libanês Hezbollah e as milícias houthis, que promovem ataques a navios no mar Vermelho em apoio à causa palestina — contribuíram para a corrosão da imagem dos Estados Unidos na região, por conta do apoio incondicional de Washington a Tel Aviv, apesar das críticas da comunidade internacional relativas à atuação das Forças de Defesa de Israel (FDI) na Faixa de Gaza.

Em contraponto, analistas apontam que o cenário atual favorece os planos da China de ampliar sua presença no Oriente Médio e fortalecer seu soft power na região. À Sputnik Brasil, especialistas explicam como a ampliação da presença da China no Oriente Médio beneficia os projetos da iniciativa da Nova Rota da Seda, bem como contribui para fortalecer a China como voz ativa do Sul Global na região.

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Doutor em relações internacionais pelo Instituto de Relações Internacionais da Universidade de São Paulo (IRI-USP), certificado em geopolítica pelo Instituto de Geopolítica de Genebra, especialista do think tank Observa China e secretário do Comitê de Estudos Asiáticos e do Pacífico da Associação Internacional de Ciência Política (IPSA, na sigla em inglês), Alexandre Coelho aponta que "os interesses da China no Oriente Médio são multifacetados e estratégicos".

"Em um contexto de tensões comerciais e diplomáticas crescentes com os Estados Unidos e a Europa, a China busca intensificar suas relações com o Oriente Médio e a América Latina, sobretudo a América do Sul. Essa diversificação reflete uma estratégia de Pequim para reduzir vulnerabilidades e ampliar sua influência global", afirma.

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Coelho aponta que o Oriente Médio oferece à China segurança energética, focada no petróleo e gás natural, mas acrescenta que os interesses de Pequim "são complementados por ambições geopolíticas e econômicas mais amplas".

"Os projetos de infraestrutura da Iniciativa Cinturão e Rota [BRI, como também é chamada a Nova Rota da Seda, na sigla em inglês] têm solidificado o engajamento chinês em infraestruturas críticas nos países do Golfo e no Irã, potencializando as relações comerciais e substituindo a União Europeia como principal parceira do Conselho de Cooperação do Golfo."

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Segundo o especialista, "a presença militar dos EUA no Oriente Médio é vista pela China como um risco potencial ao seu fornecimento energético, tornando a região um foco de vulnerabilidade", o que explica a ampliação dos esforços de vigilância e diplomáticos de Pequim.

"Nesse cenário, a China está atenta aos estratégicos pontos de tráfego marítimo, como o estreito de Ormuz e o canal de Suez, que, embora sob vigilância dos EUA, são suscetíveis a bloqueios. No âmbito diplomático, a China promoveu o primeiro China-Arab States Summit e o China-GCC Summit, bem como o acordo de distensão/trégua entre a Arábia Saudita e o Irã, reforçando a busca por parcerias estratégicas e desenvolvimento econômico regional. Investimentos significativos em infraestrutura, como joint ventures no Terminal Gateway do mar Vermelho e projetos no Iraque e Irã, evidenciam a importância do Oriente Médio para a BRI marítima."

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Por meio dessas iniciativas, aponta Coelho, "a China não só fortalece sua segurança energética e sua posição geopolítica, mas também promove estabilidade regional, essencial para a manutenção e expansão de suas rotas comerciais e projetos de infraestrutura".

"Exceção a essa lógica, no entanto, tem sido o posicionamento da China diante dos recentes ataques houthis no mar Vermelho, que têm prejudicado o comércio mundial como um todo e particularmente os países ocidentais e a própria China. O que explicaria esse posicionamento? O posicionamento histórico da China sempre foi evitar conflitos ou envolvimentos militares, mesmo quando seus interesses podem estar em jogo. A China procura sempre trabalhar nos bastidores ou por meio da diplomacia e pressões políticas e econômicas, o que me parece estar fazendo junto ao Irã, que patrocina os houthis. As atuações militares da China estão, na maioria das vezes, nas missões de paz lideradas pela ONU [Organização das Nações Unidas]."

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Para Renato Ungaretti, especialista residente sênior no Observa China, a deterioração da imagem dos Estados Unidos no Oriente Médio contribui para os esforços empregados pela China nos últimos anos para ascender "como uma potência responsável, um país em desenvolvimento com certas responsabilidades e como promotora de bens públicos globais".

"A China reforça muito a agenda do desenvolvimento em vez do conflito, da promoção da agenda de cooperação em vez do conflito, da estabilidade ao invés da instabilidade. Então, de uma certa forma, uma imagem dos Estados Unidos muito atrelada a esses conflitos e à instabilidade da região pode acabar reforçando a imagem da China como um certo contraponto, como um ator que se mostra comprometido com o desenvolvimento, com o financiamento de infraestrutura, entre outras questões que são muito necessárias para os países da região."

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Ungaretti acrescenta que muitos países do Oriente Médio são alinhados à política externa da China de não intervenção em assuntos internos de outros países, bem como ao princípio da não discriminação. Segundo ele, isso abre margem para que a China se apresente como voz ativa do Sul Global na região, promotora do desenvolvimento.

"A China acaba colocando a agenda do desenvolvimento muito como uma prioridade, em detrimento de outras agendas mais universais que os países desenvolvidos geralmente perseguem. Então, acho que isso pode ser a consequência de um processo que já está em continuidade, um processo contínuo da China se colocando nessa posição de promotora do desenvolvimento no Sul Global, digamos assim."

A opinião de Ungaretti é compartilhada por Coelho, que acrescenta que "os países do Oriente Médio podem ver na China um parceiro econômico e político mais confiável e menos volátil em comparação com os EUA, especialmente se a China continuar a promover a estabilidade por meio de sua diplomacia e de seus acordos econômicos".

"Além disso, a China poderia usar a oportunidade para promover suas empresas estatais e privadas como principais atores em projetos de desenvolvimento regional, ampliando seu acesso a mercados estratégicos e recursos naturais. A participação em projetos de infraestrutura, como a construção de terminais portuários e o desenvolvimento de redes de telecomunicações 5G pela Huawei, reforçaria sua influência econômica e fortaleceria sua presença estratégica no Oriente Médio", explica o especialista.

"Geopoliticamente, a influência crescente da China no Oriente Médio pode também contribuir para um realinhamento regional de poder que favoreça os interesses chineses de longo prazo, especialmente no que diz respeito à sua iniciativa Belt and Road [Nova Rota da Seda] e ao acesso garantido às rotas marítimas e aos recursos energéticos. A China pode também ser vista como um mediador mais neutro em conflitos regionais, aumentando seu soft power e sua capacidade de influenciar os resultados políticos na região", complementa.

Por que a China evita se envolver em conflitos? - Questionado sobre o que leva Pequim — uma potência militar e nuclear, com poder de veto no Conselho de Segurança das Nações Unidas (CSNU) — a evitar se envolver militarmente em assuntos estrangeiros, Coelho destaca que "ideologicamente, a postura chinesa é moldada pelos princípios de coexistência pacífica que enfatizam o respeito pela soberania e integridade territorial, a não agressão, a não interferência em assuntos internos, igualdade e benefício mútuo e coexistência pacífica".

"Esses princípios formam a base da abordagem de política externa da China desde o estabelecimento da República Popular. Pragmaticamente, a China percebe que se envolver militarmente no Oriente Médio poderia acarretar mais riscos do que benefícios. A região é conhecida por sua política extremamente complexa, que frequentemente resulta em conflitos prolongados e instabilidade. Ao evitar o envolvimento militar, a China pode manter relações comerciais estáveis com todos os Estados da região, sem se enredar em alianças ou hostilidades que poderiam afetar adversamente seus interesses econômicos", explica o especialista.

Ademais, ele acrescenta que a China também é hábil em usar sua posição no CSNU para influenciar os eventos na região sem recorrer à força militar.

"Embora tenha se dissociado dos fracassos dos EUA em conflitos no Iraque, na Líbia e na Síria, a China não tem exercido seu poder de veto de maneira agressiva, optando por uma abordagem mais sutil e estratégica. Em resumo, a abordagem chinesa no Oriente Médio é orientada por um desejo de estabilidade regional que favorece suas ambições econômicas globais e uma filosofia de relações internacionais que valoriza a soberania e a não intervenção."

Qual a importância do Oriente Médio para a Nova Rota da Seda? - Ungaretti, por sua vez, ressalta que ao optar pela diplomacia nesse momento de crise, a China beneficia a iniciativa da Nova Rota da Seda, que tem no Oriente Médio uma região estratégica por questões energéticas e logísticas de comércio.

"Evidentemente, há uma série de projetos e tratados da iniciativa que perpassam essa região, e ela é de amplo interesse da China por conta dessas questões de segurança energética e de desenvolvimento. E, obviamente, a Rota da Seda está inserida nesse processo."

Ele destaca que a importância do Oriente Médio para a China foi demonstrada quando Pequim apoiou a ampliação do BRICS, mediando a entrada de países da região, como o Irã e a Arábia Saudita.

"A relação, digamos, harmônica, menos conflituosa entre o Irã e a Arábia Saudita, esse acordo foi mediado pela China e, inclusive, propiciou a entrada desses dois países no BRICS, além do Egito e de outros países. Então a gente tem o Oriente Médio numa área de crescente interesse da política externa chinesa por questões econômicas, estratégicas, energéticas. E acredito que a China pode, sim, reforçar esse seu papel e fortalecer seu discurso de país parceiro do Sul Global, país que contribui para o desenvolvimento, país que se mostra como uma alternativa a esse cenário internacional bastante adverso, de crise e de incertezas."

Coelho observa que "a eficácia do soft power chinês em meio à crise geopolítica no Oriente Médio, especialmente considerando o conflito entre Israel e o Hamas, reflete uma abordagem calculada de Pequim".

"As iniciativas humanitárias durante a pandemia de COVID-19 e a promoção cultural, assim como os esforços educacionais, incluindo o estabelecimento de Institutos Confúcio, são expressões dessa estratégia para cimentar uma imagem positiva e responsável."

Ele afirma que essa estratégia não é livre de riscos, já que "a falta de engajamento direto nos esforços de paz pode ser percebida como uma falta de liderança global", o que traz um desafio para Pequim.

"A China, assim, caminha sobre uma linha tênue entre manter sua imagem de respeitabilidade e exercer uma influência ativa na resolução de conflitos, essencial para a projeção de soft power efetiva."

Segundo Coelho, o Oriente Médio possui uma importância estratégica significativa para a Nova Rota da Seda da China, não apenas por conta da segurança energética que a região garante a Pequim, mas também pela posição estratégica.

"A localização geográfica do Oriente Médio, como uma ponte entre a Ásia e a Europa, faz da região um ponto de trânsito crucial para as rotas comerciais e de infraestrutura da BRI. Os investimentos em portos, estradas, ferrovias e outras infraestruturas são fundamentais para a conectividade e eficiência logística da iniciativa, facilitando o fluxo de comércio e investimento."

Ele acrescenta que os investimentos da China em países como Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Irã e Qatar vão além da energia, abrangendo setores como construção, telecomunicações, tecnologia e finanças, e afirma que "esses projetos não apenas diversificam as relações econômicas da China, mas também aumentam sua influência geopolítica e fortalecem os laços diplomáticos com nações-chave da região".

"Portanto, o Oriente Médio é vital para a BRI não apenas como um fornecedor de recursos energéticos, mas também como um parceiro estratégico em projetos de infraestrutura e um elo crucial nas rotas de comércio e investimento que visam melhorar a interconectividade global."

Ataques houthis no mar Vermelho podem beneficiar ferrovias da China? - Os ataques perpetrados por milícias houthis no mar Vermelho afetaram o fluxo do comércio global e impulsionaram a busca por rotas alternativas para o transporte de cargas.

Questionado se essa tendência pode elevar a demanda por ferrovias construídas ou financiadas pela China, Coelho aponta que "no contexto dos transportes transcontinentais, a dependência de um sistema multimodal é a norma, não a exceção".

"O transporte exclusivamente ferroviário para o transporte de cargas entre China e Europa, África e Oriente Médio enfrenta inúmeras barreiras práticas que tornam tal opção improvável e, em muitos casos, inviável", explica o especialista.

"A eficiência do transporte multimodal reside em sua flexibilidade e capacidade de adaptação frente a desafios logísticos. O aumento do uso das ferrovias como parte desse sistema pode ser uma resposta às interrupções no transporte marítimo, mas não substituirá os outros modais. Em vez disso, é mais provável que haja um reforço da integração e cooperação entre os diversos modais de transporte para garantir a continuidade e segurança do comércio internacional", complementa.

Nesse contexto, ele afirma que enquanto a iniciativa da Nova Rota da Seda busca fortalecer e expandir as rotas comerciais entre a China e outras regiões, incluindo o Oriente Médio e a Europa, a realidade do comércio transcontinental continuará a depender de uma abordagem multimodal.

"As ferrovias desempenham um papel importante nesse sistema, mas como parte de uma rede integrada que inclui e, frequentemente, depende de rotas marítimas."

Ungaretti afirma que essa tendência é difícil de prever. Ele afirma que é possível que haja um aumento na demanda por ferrovias, mas sublinha que "isso é um fenômeno que já vem acontecendo".

"Foi justamente uma das propostas da Nova Rota da Seda, de ampliar esse comércio terrestre por ferrovias e rodovias, ligando a China e o Leste Asiático de uma maneira geral, que seria o epicentro produtivo da economia mundial com a Europa como um grande centro consumidor."

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