Doação de oxigênio da Venezuela ao Brasil reflete ideia chavista de integração, aponta pesquisador

Para Rafael Araújo, professor de História da UERJ, as doações venezuelanas de oxigênio ao Brasil concretizam a visão chavista de relações exteriores no sentido da integração regional. "Sempre pairou no governo venezuelano de Hugo Chávez e que se perpetua no governo do Maduro: a ideia da integração", afirma

(Foto: Reuters | Divulgação)
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Agência Sputnik - A Venezuela já enviou pelo menos três remessas de oxigênio para ajudar o Brasil no combate à COVID-19, enquanto negociações semelhantes com os Estados Unidos não deram resultado. Sobre esse assunto, a Sputnik Brasil ouviu Rafael Araújo, pesquisador da UERJ e especialista em política e História da Venezuela.

Após o colapso do sistema de saúde do Amazonas, em 17 de janeiro, com a escassez de oxigênio nos hospitais, o governo do presidente brasileiro, Jair Bolsonaro (sem partido), buscou doações do insumo por nove dias junto aos EUA. Conforme publicou o jornal Folha de São Paulo na terça-feira (26), o esforço com os norte-americanos ainda não obteve êxito.

Ao longo desse período de negociação com os EUA, porém, a Venezuela enviou três remessas de oxigênio líquido para Manaus. Os envios foram autorizados pelo presidente venezuelano Nicolás Maduro, desafeto de Bolsonaro.

Para Rafael Araújo, professor de História da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e especialista em política e história da Venezuela, as doações venezuelanas têm objetivos políticos ao mesmo tempo que refletem uma visão particular sobre as relações internacionais.

"É uma tentativa de Maduro de transparecer para a opinião pública brasileira e latino-americana uma outra imagem, desconectada daquela imagem de ditador que ganhou forma, em especial na nossa mídia, nos últimos dois anos", avalia o professor em entrevista à Sputnik Brasil.

Para Araújo, essa medida concretiza a visão chavista de relações exteriores no sentido da integração regional.

"Ao mesmo tempo, em termos políticos, se insere em uma visão acerca das relações internacionais que, de certa forma, sempre pairou no governo venezuelano de Hugo Chávez e que se perpetua no governo do Maduro: a ideia da integração", afirma.

Os pedidos sem sucesso de ajuda aos EUA, teriam também influência do momento de mudança de governo no país, o que coloca "freios" sobre algumas negociações diplomáticas, segundo o professor. No dia 20 de janeiro, Joe Biden assumiu a Casa Branca no lugar de Donald Trump.

"Além disso, há toda uma questão de logística. De fato, em termos de logística, é mais fácil o oxigênio vir da Venezuela do que dos Estados Unidos", acrescenta Araújo.

Gesto de Maduro não mudará postura do governo Bolsonaro com a Venezuela

O professor da UERJ recorda que as tratativas com a Venezuela têm acontecido sem a intervenção do Ministério das Relações Exteriores do Brasil, um dos órgãos de governo mais críticos do país em relação ao presidente Nicolás Maduro. O pesquisador lembra que o atual chanceler brasileiro é um dos ministros mais alinhados à chamada ala ideológica do governo Bolsonaro.

"Como o Brasil não reconhece também o governo de Nicolás Maduro, isso coloca o Brasil em uma sinuca de bico, vamos colocar assim. Como receber oxigênio de um governo com o qual o Brasil não dialoga e não reconhece a legitimidade? É uma situação sine qua non que a gente está vivendo nesse apoio da Venezuela ao estado do Amazonas", diz o professor.

Para o pesquisador, o gesto humanitário do governo de Maduro não causará aproximações entre os países, uma vez que Bolsonaro tem na narrativa contra a Venezuela um dos pilares do apoio de suas bases políticas.

"As rusgas entre os dois mandatários tendem a se perpetuar, inclusive, pela postura de Jair Bolsonaro, que até agora não agradeceu a Nicolás Maduro pelo apoio. E vendo o Bolsonaro nesses dois anos de mandato, acho pouco provável que ele em algum momento agradeça à Venezuela", avalia o pesquisador.

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