O papel da ganância e do mercado no desastre ferroviário com substâncias tóxicas nos Estados Unidos

Jornalistas, sindicalistas e ativistas concordam que o modelo de negócios guiado por Wall Street é o maior culpado pelo acidente

Agentes ambientais removem peixes mortos pela contaminação em um rio próximo ao local de descarrilamento de trem na Palestina Oriental, Ohio, EUA, 6 de fevereiro de 2023
Agentes ambientais removem peixes mortos pela contaminação em um rio próximo ao local de descarrilamento de trem na Palestina Oriental, Ohio, EUA, 6 de fevereiro de 2023 (Foto: REUTERS/Alan Freed/File)


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Por Pedro Paiva, correspondente do Brasil  247 em Nova York - Na noite do dia 3 de fevereiro, nos Estados Unidos, um trem descarrilou na cidade de East Palestine, no estado de Ohio, na divisa com a Pennsylvania. Dos 141 vagões da locomotiva, 20 carregavam substâncias inflamáveis e tóxicas, dentre elas o Cloreto de Vinila, utilizado na produção de canos de PVC e bancos de automóveis. Duas semanas depois do desastre, a busca por responsáveis se intensifica.

Após o descarrilamento, autoridades locais decidiram fazer o que chamaram de uma “queima controlada” da substância que tinha vazado dos vagões. Para isso, moradores que vivem em um raio de 1 milha (1,6 km) do local foram evacuados. A justificativa era o risco de explosão, mas o resultado foi uma grande bola de fogo que jogou toneladas de material tóxico na atmosfera.

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Apesar da pouca atenção da grande mídia, o tema foi tomando força nas redes sociais, com vídeo de moradores que levaram muitos a chamar o evento de “Chernobyl 2.0”. Matthew Conninghm-Cook, um repórter do The Lever, um jornal independente e investigativo dos EUA que está cobrindo o desastre, afirma que a mídia “não está dando a atenção necessária”, segundo ele por uma incapacidade de tratar de questões econômicas complexas.

Matthew foi um dos autores de um artigo intitulado “Empresas Ferroviárias Barram Regras de Segurança Antes do Descarrilamento em Ohio”. A matéria mostrou como a empresa Norfolk Southern atuou para que normas de segurança adotadas pelo governo Barack Obama fossem relaxadas durante o governo de Donald Trump.

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“Em 2012 aconteceu um grande desastre em quebec onde, não a Norfolk Southern, mas outra empresa, destruiu completamente uma vila”, explica Matthew. “Mais de 40 pessoas morreram. No ano seguinte, outro grande acidente aconteceu na Dakota do Sul, o que trouxe ainda mais atenção para a questão da segurança nas ferrovias. Então o governo Obama promulgou uma regra que teria expandido o uso de freios eletrônicos nos trens”. Atualmente a maior parte da malha ferroviária nos EUA ainda usa uma tecnologia do século 19, dos tempos da Guerra Civil, um freio de ar que vai parando vagão por vagão, o que pode causar um descarrilamento caso uma carga mais pesada seja colocada na parte de traseira da locomotiva, por engano.

Perguntado sobre como as empresas conseguiram reverter a obrigatoriedade de adoção desse novo sistema de freios, visto por elas como muito caro, durante o governo Trump, o repórter respondeu prontamente: “Eles injetaram milhões e milhões nas campanhas de republicanos no Congresso”.

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Depois da reportagem do The Lever, a empresa assumiu que o trem que descarrilou em Ohio não possuía o sistema elétrico de frenagem. Mas esse não é o único exemplo de como a ganância da empresa pode ter sido a grande responsável pelo desastre.

Por telefone, Clyde Whitaker, um dos diretores estaduais do smart em Ohio, o sindicato que representa, dentre outros, os trabalhadores ferroviários nos Estados Unidos e no Canadá, explicou que as medidas de segurança vêm sendo colocadas em segundo plano há muito tempo. “Eu  não sei se isso teve alguma relação com este descarrilamento”, explica, “mas eu sei que os inspetores faziam uma inspeção de 100 pontos que levava de 3 a 4 minutos por vagão. Agora as empresas querem que eles façam essa inspeção em 90 segundos ou menos”.

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A diminuição de pessoal e a agilidade do processo de inspeção dos trens estão entre os motivos que levaram a Norfolk Southern a ter um lucro recorde em 2022. Segundo nota do próprio site da empresa, o aumento foi de 14% em comparação com 2021. Em 2018, o mercado já celebrava esses resultados. Uma matéria da Yahoo Finance, da época, afirmava que “os esforços da empresa para cortar custos a fim de impulsionar seus resultados eram impressionantes”.

Para Adam Rea, um dos diretores do Subcomitê de Clima e Economia do Comitê Internacional do Democratic Socialists of America (DSA), uma das maiores organizações da esquerda dos EUA, isso não é nenhuma novidade. “É obviamente um sintoma do maior desejo das corporações e dos capitalistas, que é colocar o lucro acima das vidas humanas e do meio ambiente”, afirmou.

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Donald Trump, durante o seu governo, foi um forte defensor das desregulamentações, o que, segundo ele, daria impulso à economia. Mas Adam vê esse discurso com outros olhos: “A gente vê esse conceito de captura do regulador, da corrupção, da influência do capital e de corporações de dinheiro sujo que, essencialmente, vão fazer qualquer coisa para escapar da responsabilidade e maximizar os lucros às custas de vidas humanas”.

O SMART, sindicato do qual Clyde Whitaker é diretor, soltou uma nota na última quinta-feira, na qual afirma que “enquanto for mais barato lidar com um desastre do que o prevenir, essas corporações guiadas por wall street continuarão fazendo comunidade como east palestine de reféns”.

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Matthew, o repórter do The Lever, explica que esse não é um problema exclusivo da indústria ferroviária, que nos Estados Unidos é 100% privada. Segundo ele, os balanços financeiros trimestrais são os que ditam os bônus dos grandes executivos e, consequentemente, é o que guia as tomadas de decisão. “Existe essa epidemia nos EUA”, conta o repórter, “que não é só da indústria ferroviária. É a do pensamento em curto prazo, mesmo que os freios eletrônicos sejam nitidamente benéficos à indústria no longo prazo, porque os custos de acidentes são enormes, eles não querem aderir porque estão focados exclusivamente nos resultados trimestrais”.

De acordo com as autoridades, os moradores estão seguros e podem voltar pra casa. Mas o problema, ao que tudo indica, pode ser bem maior do que parece. Diversos moradores da região estão se queixando de dores de cabeça, enjoo e da presença do cheiro químico forte no ar. No rio Ohio, que abastece 5 milhões de pessoas, milhares de peixes apareceram mortos a quilômetros de onde ocorreu a queima do material tóxico.

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Pelo twitter, Peter Buttigieg, secretário dos Transportes do governo Biden, afirmou que não tem muito o que possa fazer no sentido de restaurar as medidas de segurança adotadas no governo Obama. O democrata foi muito criticado e questionado, mas, para Adam, do DSA, a prioridade precisa ser outra: “Eu não acho que a solução final para esse tipo de problema estrutural vai vir simplesmente de um ajuste, de colocar as pessoas certas em lugares chaves e em algumas agências reguladoras.  Eu acho que essa solução vai vir de um amplo movimento democrático de trabalhadores, com o intuito de melhorar as condições de trabalho, a qualidade de vida e de reverter toda a destruição ambiental que a gente já está vendo”.

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