Golpe de 64: um flash

No dia 31 de março, faz falta o amigo torturado que nunca fez mal a ninguém. E que não foi o que sonhava ser



 

Jaime Estrela. Esse era o nome dele, mas todo mundo o chamava por Cebola. Cabelos cumpridos, sorriso permanente, devorador de livros. Lá naqueles anos 60, em Santos, a conversa dele e dos seus amigos – o Sady, o Julio, o Peninha, o Gerson, o Ernesto, o Mamão, o Iberê, o Milani, a Sonia Morozetti, a Sandra Nogueira, o Walter Uzzo, a galera da Faculdade Católica de Direito --, girava em torno da necessidade de o Brasil superar o golpe militar de 64 pela via da democracia. Nenhum deles, óbvio, aceitava a virada de mesa executada pelos milicos sabujos dos Estados Unidos, justo no momento em que, pelo voto, anunciavam-se as reformas de base e o País ensaiava uma alternativa de crescimento independente. Ninguém entre eles estava naquela de assaltar banco, fazer guerrilha rural, seguir o Carlos Marighela. Também não eram de fumar maconha, curtir sol e praia, ficar na, como se dizia, alienação. Eles amavam Vandré, desprezam a Tropicália, mal consideravam a Jovem Guarda. A moçada fazia parte, sim, do PCB, o Partido Comunista Brasileiro, e segurava o trabalho mais difícil. O trabalho de fazer política pelo convencimento por argumentos, pela sabedoria, por meio da comparação dos fatos. Tinham ótimo humor, viviam juntos, rindo, montando trotes contra o Erasmão. Todo mundo estudava, todos trabalhavam. Quem escapou da perseguição daqueles tempos, se tornou legenda em suas atividades, como o Sady, reconhecido por seus pares como um dos mais inteligentes, aguerridos e referenciais advogados trabalhistas do Brasil, o Uzzo, o Iberê, a Sônia, o Ernesto, o Mamão, o Peninha grande político sem mandato. O Cebola, porém, não teve a chance de ser o que ele queria ser quando crescesse. Mal invadindo os 30 anos de idade, no comecinho dos anos 70, ele ficou preso sem processo por três anos no circuito Codi-Doi, Dops. A lembrança dos que estiveram no porão com ele é a de que o Cebola foi um dos mais torturados, porque não entregava ninguém, não contava o que os caras queriam saber: da onde vem o dinheiro que mantém o PCB, onde você pega, para quem você distribui, onde moram as pessoas? Nada disso o Cebola contava, e apanhava mais e mais. Lembro de histórias que diziam, e eram verdadeiras, que ele, com sede na cadeia, tinha a boca lotada com sal. Pense três segundos nisso: sede, sal, sede, sal, sal, sal. Quando o Cebola saiu da cadeia, como ele poderia estar? Um trapo, mas que foi se recuperando. Até foi anfitrião de campeonato de futebol de botão, sorriu outra vez, mostrou o velho bom humor. E pouco mais tarde morreu, pelas seqüelas da tortura. Hoje, lembrar do Jaime Estrela é também pensar em todos os rapazes e garotas que não puderam ser o que queriam ser. Um abraço, amigo – e pro Sady um puta beijo.

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