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Brasília

Freire Gomes e Baptista Jr.: como seria o golpe e por que não foi dado. Aviso de Toffoli e de Aras garantiu diplomação de Lula

Frouxos, Bolsonaro e sua corja de aloprados tentaram criar cenário de “caos” político e social para invocar o golpismo. Militares aconselharam antecipar diplomação de Lula

General Marco Antônio Freire Gomes (à esq.) e brigadeiro Carlos Baptista Júnior (Foto: Cleber Caetano / PR I Marcelo Camargo / Agência Brasil)
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Por Luís Costa Pinto, do 247 em Brasília - Ao cabo das 11 horas em que permaneceu na sede da Polícia Federal, em Brasília, depondo sobre as intentonas golpistas promovidas pelo ex-presidente Jair Bolsonaro e os elos que as conectam à violenta tentativa de abolição do Estado Democrático ocorrida em 8 de janeiro de 2023 no Brasil, o general Freire Gomes, comandante-geral do Exército entre março e dezembro de 2022, sabia que tudo o que disse fazia sentido para os investigadores. PF e Ministério Público Federal atuam em sintonia e sob comando do procurador-geral Paulo Gonet. O ministro Alexandre de Moraes é o responsável por denunciar, ou não, o ex-presidente e a corriola golpista aos demais integrantes do Supremo Tribunal Federal. A dinâmica dos fatos narrados pelo general, chamado de “cagão” pelo ex-ministro da Defesa, Walter Braga Netto, não só põe Bolsonaro na condição de co-autor intelectual do golpe pretendido como determina que sejam colocados nele - em breve - os grilhões da modernidade: a tornozeleira eletrônica, que virá como medida punitiva alternativa a fim de que o réu seja monitorado até o julgamento final da ação. Tudo o que Freire Gomes contou à PF e aos procuradores encarregados de acompanhar o longo depoimento estava perfeitamente sintonizado com a versão e a dinâmica dos fatos narrados pelo brigadeiro Antônio Baptista Jr., comandante da Aeronáutica entre abril de 2021 e dezembro de 2022.

GOLPISTAS QUERIAM CENTELHA EXTERNA. ERAM FROUXOS

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Havia uma certeza dominante na ala majoritária das Forças Armadas e entre os interlocutores estabelecidos por eles no Poder Judiciário, no Congresso e no Ministério Público: sem força para dar um autogolpe, o então presidente e os militares que lhe eram mais leais dificilmente agiriam de moto próprio. Queriam um estopim, um argumento, uma desculpa para endurecer o regime e instituírem uma GLO (Garantia da Lei e da Ordem) nacional ou a invocação do Artigo 142 da Constituição (segundo o blablablá bolsonarista, que é só lero-lero, as Forças Armadas seriam garantidoras da Ordem Constitucional e como tal poderiam ser chamadas a dirimir momentos de discórdia nacional). A centelha que incendiaria o País precisava vir, então, de alguma crise social ou institucional fabricada. Essa era a fórmula dos “laboratórios de Golpe de Estado” de Bolsonaro e de sua trupe de aloprados. E que tiraria o pino da granada ou acenderia o rastilho de pólvora podia estar num dos Poderes - um ministro do STF mais afoito, por exemplo, decretando prisão de alguém muito próximo do chefe do Poder Executivo, ou até mesmo um subprocurador determinando busca e apreensão em endereços do clã.

DIPLOMAÇÃO DE LULA, BOMBA NO AEROPORTO JK E CONFRONTO NO QG ERAM SENHAS

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No fim do ano de 2022, quando a reeleição já estava perdida e Jair Bolsonaro fechou-se no Palácio da alvorada para urdir os derradeiros ataques ao Estado Democrático e forçar o açulamento dos militares golpistas, três eventos foram planejados como os detonadores do golpismo: o 12 de dezembro, dia da diplomação de Lula como presidente eleito, o que pôs fim ao processo eleitoral e instituiu a figura do Governo futuro legitimamente eleito, o atentado mal sucedido (graças a Deus) no aeroporto de Brasília na manhã de 24 de dezembro e o confronto entre os generais Freire Gomes, comandante-geral do Exército, e Dutra de Menezes, Comandante Militar do Planalto, no dia 29 de dezembro. Naquela data, a três dias da posse de Lula, Dutra de Menezes ordenou uma retirada à força - não planejada - do acampamento de bolsonaristas diante do Quartel General do Exército em Brasília. Haveria resistência. Os acampados estavam armados. Havia potencial para a detonação de uma baderna, com mortos e feridos. Ainda com Bolsonaro envergando a fantasia da personagem que sempre se jactou de ser - “Comandante Supremo das Forças Armadas” - a desordem nos portões do QG do Exército seria a senha para a decretação de uma Garantia da Lei e da Ordem com o candidato a autocrata ainda no comando do Governo. Em síntese, esses foram alguns dos pontos relatados por Freire Gomes em seu longo depoimento. O brigadeiro Baptista Jr., da Aeronáutica, corroborou tudo.

ROTEIRO DE GOLPE FOI DEBATIDO A SÉRIO NO PLANALTO POR MILITARES

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Os ex-comandantes do Exército e da Força Aérea ainda deixaram claro que o debate em torno da minuta de golpe, com decretação de Estado de Sítio e Estado de Emergência e o plano para mandar prender o ministro Alexandre Moraes, do STF e presidente do Tribunal Superior Eleitoral, de fato existiu. Nada daquilo que, hoje, soa como fantasia patética de uma choldra de malucos que vestiam uniformes militares e sentavam em cadeiras executivas do Palácio do Planalto e da Esplanada dos Ministérios, era mentira. Não, não era fake news: existiu. E o cenário de decretação de um Golpe de Estado e de uma esteira golpista rolando sobre Brasília foi debatido a sério por próceres de uma gestão caquistocrática.

ARAS E TOFFOLI ALERTARAM PT, LULA, MORAES E TSE PARA ANTECIPAR DIPLOMAÇÃO

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Por fim, tanto Freire Gomes quanto Baptista Jr. disseram em seus depoimentos no âmbito dos inquéritos sobre a abolição do Estado Democrático no Brasil, que no dia 25 de agosto de 2022 alertaram o então procurador-geral da República, Augusto Aras, e o ministro do STF, Dias Toffoli, da possibilidade de as celebrações dos 200 anos da Independência, no 7 de setembro daquele ano eleitoral, se converter em pantomina golpista com chances de subversão a partir de badernas programadas pelos bolsonaristas que começavam a acampar diantes de quartéis. Aras e Toffoli, que haviam atuando em conjunto em 2021 - inclusive com o auxílio de Alexandre de Moraes e de Luiz Fux, do STF, e de governadores de estado e de comandantes de Polícias Militares em todo o País - para desarmar o mesmo circo golpista, puseram o bloco na rua a fim de se certificarem de que não havia uma armação latente para eclodir. Não tinha, até porque Bolsonaro estava eleitoralmente enfraquecido. 

Novamente na última semana de novembro, Aras e Toffoli foram acionados pelos comandantes militares que não davam ousadia ao golpismo bolsonarista e nem chance ao azar, para advertir de “algo que se armava” para o dia 19 de dezembro, quando Lula seria diplomado. Nem Freire Gomes, nem Baptista Jr., contaram ali da existência de uma “minuta de golpe” ou de planos para prender Alexandre de Moraes. Contudo, era disso que se tratava. Eles deram os alertas ao procurador-geral e ao ministro do STF, que acionaram contatos no governo de transição, no TSE e no próprio Supremo e no PT. Em razão disso, a diplomação de Lula foi antecipada para 12 de dezembro - desarticulando parte do núcleo que detonaria a centelha golpista. A baderna diante da sede da Polícia Federal no início da noite de 12 de dezembro foi o que puderam produzir, sem articulação alguma, de última hora.

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