A caminho de Odessa

'Como a integração eurasiana irá se tornar um vetor ainda mais forte, a diplomacia russa irá solidificar o novo normal', analisa o colunista Pepe Escobar

Vladimir Putin, guerra na Ucrânia, Planeta e a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), liderada pelos EUA
Vladimir Putin, guerra na Ucrânia, Planeta e a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), liderada pelos EUA (Foto: Reuters)


Tradução de Patricia Zimbres 

Dmitry Medvedev, sem teleprompter, como é de seu feitio, decretou a lei da Operação Militar Especial (OME). De forma curta e grossa, ele afirmou que há "um cenário e meio": ou ir até o fim ou um golpe de estado militar na Ucrânia, seguido da aceitação do inevitável. Não há terceira opção. 

Nada poderia ser mais incisivo: a liderança de Moscou está deixando bem claro, para públicos internos e internacionais, que o novo plano consiste em cozinhar em fogo lento a máfia de Kiev em um enorme caldeirão e, ao mesmo tempo, polir sua condição de buraco negro financeiro para o coletivo ocidental. Até que se chegue ao ponto de ebulição, que será uma revolução ou um putsch.

Paralelamente, os Senhores da Guerra (por procuração) levarão adiante sua própria estratégia, que é de saquear uma Europa enfraquecida e temerosa, para então fantasiá-la de colônia perfumada para ser cruelmente explorada ad nauseam pela oligarquia imperial.

A Europa, agora, é um TGV fora de controle – embora sem os valores da produção cinematográfica exigidos por Hollywood. Supondo-se que o trem não descarrile – uma proposta arriscada – ele talvez acabe por chegar na estação ferroviária chamada de Agenda 2030, de a Grande Narrativa, ou alguma outra denominação inventada pelo combo OTAN/Davos.

No pé que as coisas andam, o que é notável é que a economia russa "marginal" nem precisou suar para "pôr fim à abundância" da região mais rica do planeta.

Moscou sequer leva em conta a possibilidade de negociar com Bruxelas, porque não há nada a ser negociado  – considerando que os fraquíssimos eurocratas só serão ejetados de seu estado zumbificado quando as tenebrosas consequências econômicas do "fim da abundância" acabarem por se traduzir em camponeses brandindo ancinhos vagando a esmo pelo continente. 

O que talvez ainda demore muito. Mas é fatal que o italiano, o alemão ou o francês médios acabarão por ligar os pontos, dando-se conta de que seus "líderes" – nulidades nacionais e em sua maioria não-eleitos, estão pavimentando o caminho para a pobreza.

Vocês ficarão pobres. E vocês gostarão disso, pois estarão apoiando a liberdade para os neonazistas ucranianos. Isso leva o conceito de uma "Europa multicultural" a um nível totalmente novo. 

O trem fora de controle, é claro, poderá sair dos trilhos e mergulhar em um abismo alpino. Nesse caso, algo pode ser salvo dos destroços – e a "reconstrução" talvez seja possível. Mas reconstruir o quê?  

Há sempre a possibilidade de a Europa reconstruir um novo Reich (que  colapsou com um estrondo em 1945); um Reich brando (erigido ao final da Segunda Guerra); ou cortar relações com seus fracassos passados, cantar "Eu Sou Livre" – e conectar-se à Eurásia. Não apostem nisso.

Recuperem aquelas terras taurianas 

A OME talvez esteja em vias de mudar radicalmente seu rumo – algo que irá enlouquecer ainda mais os já atarantados habitantes dos Estados Unidos, a Terra dos Think Tanks, e seus vassalos europeus. 

O Presidente Putin e o Ministro da Defesa  Shoigu vêm dando sérias indicações de que o nível da dor só irá aumentar – considerando as crescentes evidências de terrorismo dentro do território russo, o vil assassinato de Darya Dugina, o incessante bombardeio de civis nas regiões de fronteira, os ataques à Crimeia, o uso de armas químicas e o bombardeio da usina de Zaporizhzhya, aumentando o risco de uma catástrofe nuclear.  

Nesta última terça-feira, um dia antes de a OME completar seis meses, o representante permanente da Crimeia junto ao Kremlin, Georgy Muradov, praticamente entregou o jogo.

Ele ressaltou a necessidade de "reintegrar todas as terras taureanas" – Crimeia, o Norte do Mar Negro e o Mar de Azov – em uma única entidade "nos próximos poucos meses". Ele definiu esse processo como "objetivo e reivindicado pela população dessas regiões".  

Muradov acrescentou: "face não apenas aos ataques na Crimeia, mas também ao contínuo bombardeio da usina nuclear de Zaporizhzhya, da represa do reservatório de Kakhovka, de instalações pacíficas no território russo, da República Popular de Donetsk e da República Popular de Lugansk, todas as precondições estão presentes para qualificar de terroristas todas as ações do regime banderista".  

A conclusão é inevitável: "a questão política de alterar o formato da operação militar especial" entra na agenda. Afinal, Washington e Bruxelas "já prepararam novas provocações contra a Crimeia da aliança OTAN-Bandera". 

Portanto, ao examinarmos as implicações da "restauração das terras taurianas", vemos não apenas os contornos da Novorossia, mas, acima de tudo, que não haverá qualquer segurança para a Crimeia – e portanto para a Rússia – no Mar Negro, sem que Odessa volte a ser russa. O que, além de tudo, resolverá o dilema da Transnitria.  

Acrescente-se a isso Kharkov – a capital e o principal centro industrial do Grande Donbass. E, é claro, Dnipropetrovsk. Todas essas questões são objetivos da OME, e todo esse combo mais tarde será protegido por zonas-tampão nos oblasts de Chernihiv e Sumy.

Só então as "tarefas" – como as chama Shoigu – da OME serão dadas por cumpridas. O prazo seria de oito a dez meses – após uma certa calmaria comandada pelo General Inverno.  

Enquanto a turbinadíssima OME se desenrola, é óbvio que o Império do Caos, das Mentiras e da Pilhagem continuará a armar a máfia de Kiev até o Dia do Juízo Final – e isso se aplicará principalmente após o retorno de Odessa. O que não está claro é quem e que gangue permanecerá em Kiev posando de poderosos e aparecendo em matérias da Vogue, ao mesmo tempo em que, obedientemente, cumprem a grande parte dos ditames imperiais.

É óbvio também que o combo CIA/MI6 estará incessantemente ocupado em refinar os contornos de uma maciça guerra de guerrilha contra a Rússia em múltiplas frentes – abarrotada de ataques de terror e de todos os tipos de provocação.  

No entanto, no Grande Quadro, é a inevitável vitória militar da Rússia no Donbass, e em seguida em "todas as terras taurianas" que atingirão o coletivo ocidental tal como um asteroide letal. A humilhação geopolítica será insuportável, para não falar da humilhação geoeconômica da Europa vassalizada.  

Como a integração eurasiana irá se tornar um vetor ainda mais forte, a diplomacia russa  irá solidificar o novo normal. Nunca se esqueçam que Moscou não teve qualquer problema em normalizar as relações, por exemplo, com China, Irã, Qatar, Arábia Saudita, Paquistão e Israel. Todos esses atores, de maneiras diferentes, contribuíram para a queda da URSS. Agora, com uma única exceção, todos esses países estão focados no Alvorecer do Século Eurasiano.

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