A colcha de retalhos do Novo Ensino Médio

Mal concebido, o NEM nasceu de um golpe contra a democracia e a implantação desastrosa por Bolsonaro colocou uma pá de cal em qualquer ideia de aproveitamento

Estudantes protestam pela revogação do novo Ensino Médio
Estudantes protestam pela revogação do novo Ensino Médio (Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil)


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Existem, no século XX, três grandes modelos de educação: os que se baseiam num princípio utilitarista, em que a importância dos conhecimentos é medida a partir do quanto podem gerar de valor econômico, social ou cultural, num caso de cálculo custo-benefício. Neste modelo, saberes técnicos, ou que dão acesso a técnicas de transformação da matéria são sempre valorados de forma maior. Esse sistema utilitarista foi implantado, por exemplo, nos EUA após a segunda guerra com a criação da National Science Foundation, em 1950. Neste modelo, a educação é toda voltada para a geração de valor, em grande parte econômico. Diríamos, no Brasil, voltada “para o mercado”, ou “para fazer enriquecer os outros”.

O segundo grande modelo responde à lógica cultural-nacionalista. O objetivo é a criação de sistemas de educação autocentrados, que fortaleçam símbolos, valores e sentidos ligados normalmente à ideia de “nação”. O exemplo mais característico desse modelo é a reforma Gentile, feita na Itália fascista, a partir de 1922 e 1923. Neste modelo, a educação prima pela formação “do cidadão” que deverá ser o melhor possível para “engrandecer a pátria”. A ciência, neste processo, é toda centrada para atender aos “interesses da nação” e normalmente usa recursos públicos para atender aos “projetos estratégicos” do país.

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Há sistemas híbridos, que conjugam partes de ambas as racionalidades. Nos países do sul global, o exemplo da educação do Estado Novo e do regime militar nos mostram isso. Menos o sentido de geração de valor (utilitarista) e mais nacionalista, mas pode-se observar traços das duas lógicas para a criação de “ornitorrincos”, com seis períodos semanais de matemática (como um desespero para o uso do tempo com disciplinas “duras” e geração de valor) e, ao mesmo tempo, implementando OSPB (Organização Social e Política do Brasil) ou Educação Moral e Cívica (gastando o tempo dos alunos como se não houvesse amanhã).

No final do século XX (e início do XXI) surgem sistemas de educação com modelo crítico (muitas vezes ditos pós-modernos, embora o termo precise de melhor apuro), voltados para a formação dos sujeitos a partir de referenciais individualizantes. Todo o modelo de avaliação modifica-se, teorias das “inteligências” e a divisão em “competências e habilidades” procuram singularizar o olhar do educador sobre o educando. Nesse modelo, a ciência serve para modificar diretamente a vida nos territórios em que é praticada. O chamado “impacto social” de qualquer pesquisa científica precisa ser demonstrado. Todo o sentido de educar obedece a um complexo conjunto de interesses críticos que buscam “emancipação” dos círculos de construção de hierarquias políticas e econômicas e, ao mesmo tempo, formação de consciência nos sujeitos sociais.

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Estes três modelos partem de premissas sociais diferentes e querem atingir objetivos diferentes. Em algum sentido e por pouco tempo, eles podem operar juntos. Notadamente quando se propõem os “objetivos nacionais”. Há ali o interesse do “desenvolvimento”, e isso acaba irmanando os dois primeiros paradigmas em alguma medida. Contudo, enquanto o paradigma utilitarista procura buscar a formação para geração do maior valor possível, no menor tempo e com o menor investimento, o paradigma nacionalista estabelece como limite desse processo o “interesse nacional”. No Brasil, por exemplo, não há política de governo para desenvolver tecnologias de ponta ou pesquisa nas áreas sociológicas, históricas e políticas, mas há sempre verba para pesquisas sobre agricultura, pecuária e etc. O objetivo, claro é “formar” pessoas para cumprirem o “destino do Brasil” que, por anos, foi dito ser o “celeiro do mundo”.

Hoje, se entende o pior dos modelos, exatamente o nacionalista. Usa quantidades grandes de tempo e recursos para a fetichização de conceitos, símbolos e valores que – sabe-se – geram guerras e distanciamentos no tecido social. Replicam ordens sociais conservadoras e padrões hierárquicos duros.

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Hoje se entende também que o modelo utilitarista acaba por obedecer, em última instância, a uma lógica geopolítica, já que as elites dos países do norte não querem a formação de novas Coréias do Sul ou China’s para concorrerem de igual para igual com os senhores do mundo pelos mercados e pela demanda mundial.

O Novo Ensino Médio é, por isso tudo, um ornitorrinco desengonçado que serve para muito pouco aos jovens e à sociedade brasileira. Concebida pelo paradigma utilitarista, dentro do golpe neoliberal de Temer, houve a romantização da ideia de “liberdade” de escolha junto com a exaltação da ideia de “educação para o mercado”. Toda a lógica deste modelo se centra nesta perspectiva. Ocorre que, respondendo à pressão geopolítica, essa lógica se limita a formar gente para o “mercado” subdesenvolvido do sul global. Não se trata de uma educação para formar sociedades que concorram na geração de valor com as potências do século XXI (como poderia pensar o liberal ingênuo que lê os documentos do Novo Ensino Médio). Trata-se de um modelo limitante que se propõe a extrair o maior valor possível, através da formação de mão de obra barata, em sociedades entendidas como de “segunda classe”.

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Se mal concebido, o Novo Ensino Médio nasce de um golpe contra a democracia, sua implantação desastrosa pelo regime fascista de Jair Bolsonaro coloca uma pá de cal em qualquer ideia de aproveitamento. Esse NEM não se presta a um país que busca desenvolver suas potencialidades e concorrer no cenário internacional do século XXI. Esse NEM também não serve para criar (ou recriar) laços de coesão de uma nação com algum objetivo político “nacional”.

Se imaginamos que a ideia de uma educação crítica no Brasil se perdeu em algum lugar entre o momento em que Eduardo Cunha disse “que Deus tenha piedade desse país”, e que Jair Bolsonaro falou “Acabou, porra”, vemos que o Novo Ensino Médio não tem função nenhuma. Concebido de forma equivocada e implementado de forma desastrosa. Que não nos tornemos sócios nesta sequência de erros.

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