A conferência de Munique revela a cisão Leste-Oeste

O Ministro das Relações Exteriores Chinês Wang Yi ressalta a necessidade urgente de estabelecimento de uma coordenação internacional a fim de "construir um futuro compartilhado"

Fu Ying
Fu Ying (Foto: Reprodução CGTN)

Por Pepe Escobar, para o Asia Times

Tradução de Patricia Zimbres, para o 247

Poucas pantomimas políticas pós-modernas foram mais reveladoras do que a encenada por centenas dos assim chamados "tomadores de decisões", a maioria deles ocidental, que discorreram em tom lírico, indignado ou nostálgico sobre a "Westlessness" (desocidentalização)  na Conferência de Segurança de Munique. 

“Westlessness” soa como um daqueles conceitos constipados saídos de uma ressaca ruim ao final de uma festa na Rive Gauche na década de 1970. Em teoria (mas não na teoria francesa), essa Desocidentalização na era do Whatsapp deveria significar um déficit de ação multipartidária para tratar das ameaças mais prementes à "ordem - ou des-ordem -  internacional", como a prevalência do nacionalismo, ridicularizado como sendo uma onda de populismo tacanho.  

Mas o que Munique de fato revelou foi que o Ocidente tem uma profunda nostalgia dos efervescentes tempos do imperialismo humanitário, quando o nacionalismo, em todas as suas cepas, era pintado como o vilão que impedia o avanço implacável das lucrativas Guerras-Sem-Fim neocoloniais.

Por mais que os organizadores da Conferência de Munique - um bando de atlanticistas peso-pesado - tentassem fazer parecer que as discussões enfatizavam a necessidade do multilateralismo, um pacote de males indo desde a migração descontrolada até a "morte cerebral" da OTAN foi acusado de ser consequência direta da "ascensão de um campo iliberal e nacionalista no interior do mundo ocidental". Como se tudo isso fosse uma orgia destrutiva perpetrada por uma hidra todo-poderosa com cabeças de Bannon, Bolsonaro e Orban.  

Nem passa pela cabeça daqueles arautos do Ocidente-é-Mais terem a coragem de admitir que os variados contra-golpes nacionalistas também se qualificam como efeitos colaterais indesejados da implacável pilhagem que o Ocidente exerce sobre o Sul Global com guerras de todos os tipos – quentes, frias, financeiras, empresarial-exploradoras.

Só para constar, vai aqui o relatório da Conferência de Munique.  Duas frases bastariam para entregar o jogo: "Na era da pós-Guerra Fria, coalizões com liderança ocidental tinham a liberdade de intervir em praticamente qualquer país, na maioria das vezes com o apoio do Conselho de Segurança da ONU. Sempre que era lançada uma intervenção militar, o Ocidente desfrutava de uma liberdade quase incontestada para seus movimentos militares".

Aí está. Naquele tempo, a OTAN, com total impunidade, podia bombardear a Sérvia, perder vergonhosamente uma guerra no Afeganistão, transformar a Líbia em um inferno miliciano e tramar uma miríade de intervenções por todo o Sul Global. E, é claro, nada disso tinha a menor relação com o fato de os bombardeados e invadidos serem obrigados a se tornarem refugiados na Europa.

O Ocidente é mais

Em Munique, a Ministra das Relações Exteriores da Coreia do Sul, Kang Kyung-wha, se acercou do ponto central quando disse que via a "Desocidentalização" como um tema bastante provinciano. Ela fez questão de ressaltar que o multilateralismo é uma característica muito asiática, desenvolvendo o tema da centralidade da ASEAN.

O Ministro das Relações Exteriores russo Sergey Lavrov, com sua finesse de costume, foi mais contundente, observando que "a estrutura da rivalidade da Guerra Fria está sendo recriada" na Europa. Lavrov foi um prodígio de eufemismo quando observou que "a escalada das tensões, o avanço da infraestrutura da OTAN sobre o Leste, exercícios de amplitude sem precedentes próximos às fronteiras russas, a inflação desmedida dos orçamentos militares – tudo isso gera imprevisibilidade". 

Mas foi o Conselheiro de Estado e Chanceler chinês Wang Yi que realmente chegou ao cerne da questão. Ressaltando que "o fortalecimento da governança global e da coordenação internacional é da máxima urgência", Wang disse que "Precisamos nos libertar da cisão entre Leste e Oeste e ir além da diferença entre Sul e Norte, na tentativa de construir para a humanidade uma comunidade com um futuro compartilhado".

"Uma comunidade com um futuro compartilhado" talvez seja terminologia padrão em Pequim, mas a expressão carrega um significado profundo por incorporar o conceito chinês de multilateralismo, que significa que nenhum estado tem prioridade, e que todas as nações compartilham os mesmos direitos.

Wang foi ainda mais longe: o Ocidente - com ou sem a Desocidentalização - deve se libertar da mentalidade subconsciente de supremacia civilizacional, abrir mão de seu preconceito com relação à China e "aceitar e acolher o desenvolvimento e a revitalização de uma nação do Leste com um sistema diferente do sistema ocidental". Wang é um diplomata sofisticado o suficiente para saber que isso não vai acontecer. 

Wang, como seria de se esperar, fez com que as sobrancelhas da turma da Desocidentalização se arqueassem a alturas alarmantes quando ele, mais uma vez, ressaltou que a parceria estratégica Rússia-China será aprofundada - ao mesmo tempo em que serão explorados "caminhos de coexistência pacífica" com os Estados Unidos e uma cooperação mais intensa com a Europa.

A reação do chamado "líder do sistema", em Munique, foi perfeitamente previsível. E ela foi apresentada, como seria de se esperar, pelo atual dirigente do Pentágono, Mark Esper, mais um praticante das portas giratórias de Washington. 

A ameaça do século XXI 

Toda a lista de tópicos do Pentágono foi exposta. A China não passa de uma ameaça crescente à ordem mundial - entendendo-se por "ordem" os ditames de Washington. A China rouba know-how do Ocidente, intimida seus vizinhos menores e mais fracos e procura "vantagens por qualquer meio, a qualquer custo".

Como se lembretes fossem necessários a essa plateia tão bem-informada, a China, mais uma vez, foi citada pelo Pentágono como a principal "ameaça", seguida da Rússia, dos estados-párias do Irã e da Coreia do Norte e de "grupos extremistas". Ninguém perguntou se a al-Qaeda na Síria faz parte dessa lista.

O "Partido Comunista e seus órgãos associados, incluindo o Exército Popular de Libertação", foram acusados de "operar em cenários externos às fronteiras da China, inclusive na Europa". Todos sabem que apenas uma "nação indispensável" tem autorização auto-concedida para operar "em cenários externos às suas fronteiras" e instaurar com bombas a democracia.

Não é de admirar que Wang tenha se sentido obrigado a qualificar todas as acusações acima como "mentiras": "A verdadeira causa de todos esses problemas e questões é que os Estados Unidos não querem assistir ao rápido desenvolvimento e rejuvenescimento da China, e ainda menos aceitar o sucesso de um país socialista". 

Então, ao final, a conferência de Munique degenerou na briga de rua que irá dominar todo o restante do século. Com uma Europa irrelevante de facto e a União Europeia subordinada aos desígnios da OTAN, a Desocidentalização, na verdade não passa de um conceito vazio e constipado: toda a realidade é condicionada pela dinâmica tóxica da ascensão da China e do declínio dos Estados Unidos.

A irreprimível Maria Zakharova, mais uma vez, acertou na mosca: "Eles falaram daquele país [a China] como uma ameaça a toda a humanidade. Eles disseram que a política da China é a ameaça do século XXI. Tenho a impressão de que estamos testemunhando, nos discursos proferidos na conferência de Munique, em especial, o renascimento de novas abordagens coloniais, como se o Ocidente não visse mais como vergonhoso reencarnar o espírito do colonialismo, dividindo povos, nações e países". 

O ponto alto absoluto da conferência de Munique foi quando a diplomata Fu Ying, comissária para assuntos externos do Congresso Popular Nacional, reduziu a pó Nancy Pelosi, a Presidente da Câmara dos Deputados dos Estados Unidos, com uma simples pergunta: "Você realmente vê o sistema democrático tão frágil a ponto de ser ameaçado pela Huawei?"

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