A fracassada incursão armada na Venezuela

A operação Gedeón aumentou a tensão entre a Venezuela, a Colômbia, os Estados Unidos e o congresso nacional venezuelano

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A denúncia 

O governo venezuelano denunciou no dia 3 de maio a Operação Gedeón, uma tentativa frustrada de incursão armada por via marítima, no Estado de La Guaira, na costa norte da Venezuela, com o objetivo de capturar o presidente Nicolas Maduro. Oito pessoas foram mortas na operação e até o momento, a Guarda Nacional Bolivariana deteve 91 pessoas. Entre os detidos estão dois militares veteranos do exército dos Estados Unidos, identificados como Luke Denman e Airan Berry. Além dos estadunidenses, também foram detidos Antonio Saquea, que já havia participado de uma tentativa de Golpe de Estado em 2019, Robert Colina, suspeito de liderar um acampamento paramilitar na Colômbia e um sobrinho do General retirado Clíver Alcalá Cordones, que confirmou a autoria de parte dos planos para capturar figuras do regime bolivariano. As autoridades afirmaram igualmente que as armas utilizadas pelos mercenários na operação pertenciam ao parque de armas da Assembléia Nacional, liderada pelo autoproclamado presidente, Juan Guaidó. 

Pescadores de Chuao contribuem com a captura

Durante a operação, oito mercenários conseguiram fugir para o pequeno município de Chuao, no Estado de Aragua, porém, pescadores que fazem parte das Milícias Bolivarianas, avistaram a lancha. As Milícias Bolivarianas são forças regulares do exército venezuelano, ao contrário das milícias brasileiras que atuam na clandestinidade. A população de Chuao já havia sido alertada há dez dias sobre uma possível incursão armada. As fotos dos mercenários já estavam espalhadas pelo povoado. Cinco funcionários da Polícia regional de Aragua fizeram a detenção. Em entrevista à rede de televisão estatal, Telesur, uma policial que participou da ação disse que os detidos afirmavam realizar a operação em benefício do povo. Disse também que eles traziam dólares e que ela jamais aceitaria este dinheiro.

As provas apresentadas

Jordan Goudreau, militar reformado do exército dos Estados Unidos e fundador da empresa de segurança estadunidense chamada Silvercorp, deu uma entrevista exclusiva para a jornalista venezuelana Patricia Poleo no dia 5 de maio. Goudreau confessou que sua empresa foi responsável pela operação levada a cabo na Venezuela. Goudreau mostrou um contrato com as supostas assinaturas de Juan Guaidó, Juan José Rendón e Sergio Vergara, no valor de 212 milhões. Goudreau afirma igualmente que, em função do não pagamento por parte dos contratantes, a Silvercorp seguiu a operação por conta própria. Em entrevista à Reuters, Goudreau afirmou que participou da operação junto aos militares veteranos detidos, Denman e Berry. 

Em entrevista à CNN, o responsável do Comitê de Estratégia de Juan Guaidó, Juan José Rendón, admitiu ter firmado contrato com a Silvercorp e que pagou 50 mil dólares para levar a cabo uma operação que resultaria na detenção de vários funcionários do regime Maduro. Disse, no entanto, que Guaidó não assinou o documento e que não deu luz verde para a operação. No dia 11 de maio, Rendón e Vergara pediram demissão do governo interino de Juan Guaidó. 

No dia 6 de maio, as autoridades venezuelanas apresentaram um vídeo no qual um dos militares veteranos dos Estados Unidos, Luke Denman, aparecia. No vídeo, Denman afirma que participou do exército dos Estados Unidos por cinco anos e que depois foi contratado pela empresa de segurança estadunidense, Silvercorp, para treinar um grupo de venezuelanos na Colômbia para capturar Nicolas Maduro e levá-lo para os Estados Unidos. No final do vídeo, o estadunidense mostra a cópia de um documento no qual Juan Guaidó teria contratado o serviço para seqüestrar o presidente Nicolas Maduro. O mercenário afirma que o documento está assinado por Juan Guaidó e Jordan Goudreau, fundador da Silvercorp e veterano das forças armadas dos Estados Unidos. Em outro vídeo, o irmão de Denmam falou sobre a situação do seu familiar. Ele disse que ficou feliz ao constatar que  o governo da Venezuela não torturou o seu irmão. Diz que Denman está recebendo um tratamento humano, de acordo com as regras internacionais, e que espera a sua breve liberação. Disse ainda estar seguro que a motivação do seu irmão para participar da operação foi ajudar as crianças prejudicadas e as pessoas inocentes que sofrem. Esta fala é bastante similar à que foi narrada pela policial do Estado de Aragua, na qual os detidos afirmam que a operação armada foi feita em benefício do povo. 

No dia 7 de maio, o vice-presidente de informação e comunicação da Venezuela, Jorge Rodriguez, apresentou um vídeo no qual o outro militar estadunidense, Airan Berry, se pronunciou. No vídeo, Berry diz que participou da operação organizada pela empresa de segurança estadunidense Silvercorp. Na segunda-feira, dia 11 de maio, o Ministro da Comunicação apresentou a confissão de dois desertores das Forças Armadas Nacional Bolivariana, envolvidos na operação Gedeón. Entre os testemunhos estava o de Antonio Saquea, que o governo venezuelano aponta como um dos líderes da operação. Em seu testemunho, Saquea implicou tanto governo dos Estados Unidos como Juan Guaidó na operação. O Procurador Geral da Venezuela, Tarek William Saab, afirmou que os estrangeiros que participaram da ação serão imputados por terrorismo, conspiração, tráfico ilícito de armas de guerra e associação. Os venezuelanos envolvidos na operação responderão por conspiração com governo estrangeiro, terrorismo, traição à pátria, rebelião, tráfico ilícito de armas de guerra, financiamento ao terrorismo e associação.   

Lanchas de guerra do exército colombiano 

No dia 9 de maio, seis dias após a tentativa frustrada de invasão, o governo da Venezuela anunciou que havia encontrado três lanchas de guerra pertencentes ao exército da Colômbia, abandonadas no Rio Orinoco, no Estado venezuelano de Bolívar. De acordo com o comunicado das Forças Armadas Nacional Bolivariana (FANB), as lanchas eram do modelo Evinrude do fabricante estadunidense Boston Wheeler e estavam equipadas com metralhadoras calibre 50 e M60, além de munição.  O material se encontra em resguardo da FANB. As autoridades colombianas afirmam que as três lanchas estavam próximas à fronteira com a Venezuela quando os guardas de plantão perceberam que estas foram “arrastadas pela corrente”. Disseram igualmente que os guardas buscaram resgatar as lanchas, porém, não puderam mais avançar quando estas entraram em território venezuelano.  Este evento gera suspeita em relação ao exército colombiano uma vez que as lanchas foram encontradas em menos de uma semana após a tentativa de incursão marítima à Venezuela partindo supostamente da Colômbia. Deve ser considerado igualmente que mais de uma pessoa envolvida na ação admite participar de grupos que realizam ações contra o governo venezuelano a partir da Colômbia e uma delas implica diretamente o governo deste país. 

39 desertores capturados

No dia 14 de maio, o Ministro da Defesa, Padrino Lopez, declarou a captura de 39 desertores do exercito venezuelano na fronteira com a Colômbia, vinculados à operação Gedeón. De acordo com o Ministro, os desertores buscaram entrar no país por via terrestre “a pesar do fracasso da incursão por mar levada a cabo há duas semanas”. Padrino Lopez afirmou igualmente que a ação preparada “em território estrangeiro, com financiamento e equipamentos financiados pelo governo dos Estados Unidos”. 

Sentença 

No dia 16 de maio, Três tribunais distintos julgaram casos de pessoas supostamente envolvidas na Operação Gedeón e proferiram quatro sentenças. O Tribunal Nacional 1º decretou a prisão preventiva do Capitão Antônio Saquea Torres por ter supostamente cometido os delitos de homicídio intencional qualificado em grau de frustração à pessoa do presidente da República e traição à pátria. O Tribunal 3º Nacional decretou igualmente a prisão preventiva do Capitão Antônio Saquea Torres, assim como do Capitão Víctor Pimenta Salazar, Gilbert Barillas Fernández e Josnars Baduel Oyoque, por terem supostamente cometido os delitos de terrorismo, associação para delinqüir e traição à pátria.  

O Tribunal Especial 4º de primeira instancia decretou as prisões preventivas por suposta participação nos delitos de traição à pátria, rebelião, conspiração com governo estrangeiro, tráfico ilícito de armas e associação, das seguintes pessoas: Douglas Contreras Arellano, Rafael Castro Sandoval, José Reyes, Junior De Jesús Silva, Jackson Taquiva Becerra, José Mendoza González, César Altamar Sarmiento, Jesús Colmenares Gallardo, Rawuy Rosales Farías, Jeremy González López, Leandro Chirinos Parra, Ángel Perdomo Hurtado, Alexander Chávez Mogollón, José Ruiz Delgado, Gustavo Álvarez Granadillo, José Blanco Volcán, José Moreno Peñaloza, José Barreno Cordones, Oscar Aguilon Garcés, Rafael Rosendo Rivero, Samaira Del Valle Romero Armario, Miguel Plaza Méndez, Ricardo Fonseca Mosquera, Jonathan Franco Quiñones, Evan Rincón Piñeiro, Jairo Bethermytt Carrillo, Carla Da Silva Marrero, Karen Hernández Rodríguez e Alejandro Torres Rodríguez, sendo que este último responde igualmente pelos delitos de financiamento ao terrorismo. Em outra sentença, o mesmo Tribunal Especial 4º de primeira instancia decretou a prisão preventiva de Leonardo Carrillo Primera, Ana Méndez Primera, Mari Marcano Vázquez, Oscar Pérez Romero, Tony Bravo Primera, Franciher Ramos Castillo e Leonardo Chirinos Parra, pelo suposto cometimento dos delitos citados anteriormente.

Tensões entre governos

A operação Gedeón aumentou a tensão entre a Venezuela, a Colômbia, os Estados Unidos e o congresso nacional venezuelano. Em diversas ocasiões, o Ministro da Comunicação da Venezuela, Jorge Rodrigues, afirmou que a Colômbia possui três acampamentos onde mercenários são treinados para ativar planos contra a Venezuela. A chancelaria colombiana afirmou que as acusações são infundadas e tentam comprometer o governo colombiano em uma trama especulativa. O secretário de Estado norte-americano, Mike Pompeo, negou a participação dos Estados Unidos na operação. O secretário disse que se os Estados Unidos tivessem “envolvidos, teria sido diferente”. Disse ainda que usará todas as ferramentas para garantir o retorno dos estadunidenses ao país. Em entrevista à Fox, no dia 8 de maio, Donald Trump afirmou que os Estados Unidos não têm nada a ver com a fracassada incursão marítima na Venezuela. Disse ainda que se quisesse entrar na Venezuela mandaria o exército e que a missão não iria falhar. Cabe ressaltar, neste contexto, que em março, o Departamento de Estado norte-americano ofereceu uma recompensa de 15 milhões por informações que levassem à captura ou condenação do presidente venezuelano. Juan Guaidó afirmou que nem o parlamento e nem o “governo encarregado”, que ele encabeça, têm relação com a tentativa de incursão armada. Segundo Guaidó, as acusações buscam invisibilizar outros problemas do país. Com sucessivas missões armadas fracassadas, Juan Guaidó divide a oposição a Maduro e perde apoio da sua base aliada, assim como da mídia internacional. Rendón e Vergara renunciaram aos seus cargos no governo do autoproclamado presidente. O Partido Primero Justiça, da base aliada, condenou os ataques e pediu a expulsão dos envolvidos. O jornal Whashington Post publicou o suposto contrato realizado entre Guaidó e a Silvercorp. 

Fontes: 

https://www.aporrea.org/tiburon/n354861.html

https://www.telesurtv.net/news/playa-giron-incursion-venezuela-paralelismo-victoria-popular-20200506-0044.html

https://www.nodal.am/2020/05/venezuela-entrevista-exclusiva-a-jordan-goudreau-contratista-militar-estadounidense-por-patricia-poleo/

https://www.reuters.com/article/us-venezuela-security-videos/detained-american-claims-he-plotted-maduros-capture-in-venezuela-tv-statement-idUSKBN22I2PJ

https://cnnespanol.cnn.com/2020/05/11/alerta-venezuela-guaido-acepta-renuncia-de-juan-jose-rendon/

https://cnnespanol.cnn.com/video/tarek-william-saab-detenidos-operacion-gedeon-imputados-tribunales-intvw-osmary-hernandez-digital/

https://www.youtube.com/watch?v=Mu7QEAEJc2g

https://www.youtube.com/watch?v=9J-7vNNh4o8

https://cnnespanol.cnn.com/2020/05/07/hermano-de-estadounidense-detenido-en-venezuela-me-alegro-de-que-no-le-hayan-dado-una-paliza/

https://operamundi.uol.com.br/politica-e-economia/64616/venezuela-apreende-lanchas-armadas-da-marinha-da-colombia-em-seu-territorio

https://www.washingtonpost.com/world/the_americas/from-a-miami-condo-to-the-venezuelan-coast-how-a-plan-to-capture-maduro-went-rogue/2020/05/06/046222bc-8e4a-11ea-9322-a29e75effc93_story.html

https://cnnespanol.cnn.com/2020/05/12/venezuela-gobierno-de-maduro-presenta-confesiones-de-dos-presuntos-implicados-en-la-llamada-operacion-gedeon-que-involucran-a-ee-uu-en-esta-incursion/

https://www.elnacional.com/venezuela/padrino-lopez-hemos-capturado-39-desertores-que-intentaban-ingresar-por-la-frontera/

https://www.vtv.gob.ve/tribunales-privan-libertad-grupo-operacion-gedeon/

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