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Roberto Ponciano

Escritor, mestre em Filosofia e Letras, especialista em Economia

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A história se repete, a segunda vez como farsa

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Foi com supremo estupor que acolhi os brados de indignação pela peleja de rua que aconteceu entre militantes do PSDB e do PCO, supostamente arrependidos, que resolveram desembarcar do nada em um ato nosso. Carregar uma bandeira do PSDB, em um ato de esquerda, rolar uma pancadaria e alguém reclamar da pancadaria e colocarem a culpa na esquerda, é como você fumar num paiol de pólvora, acontecer uma explosão e você colocar a culpa na pólvora.

Antes que alguém apressado diga que estou apoiando a atitude dos militantes do PCO, é fundamental explicar 2 coisas. 

1. Não acho que seja inteligente baixar a bordoada nos tucanos, na era digital, tudo vira algo muito maior que é, e sim, a reação vai explorar contra nós.

2. Mas não, não dá para sair condenando os militantes, que foram o tempo inteiro massacrados e reprimidos por todos os governos do PSDB, por cultivarem um salutar ódio à bandeira do PSDB.

Só quem nunca esteve num ato de rua pode querer o comportamento de monges budistas de quem está em um ato. Ainda mais com o que significa o tucanato, e para não falar de FHC e sua entrega do patrimônio nacional, basta ficar na gestação do golpe, de 2013 até hoje.

O PSDB foi artífice de primeira hora do golpe, nas ruas e na Câmara. O golpe começa com o Aécio não aceitando os resultados das eleições de 2014 e com o PSDB promovendo a pauta bomba na Cãmara. O PSDB gestou o fascismo em seu seio, apoiou e financiou MBL e Vem para a rua e, numa noite de amor comprado, pariu bolsonaro numa trepada mal dada com a cadela do fascismo.

Alguém vai me dizer, mas, Ponciano, “eles se arrependeram” e são nossos aliados agora. 

Queridos, parem de tentar voltar a bancar a esquerda Polyanna republicana que alimentou o golpe até o fim. Nunca vou esquecer os delegados da Polícia Federal treinando tiro ao Álvaro com a imagem da Dilma e nosso Ministro da Justiça assistindo passivamente, usando frases de Voltaire, fora de contexto. A esquerda adora usar a frase dele sobre a tolerância sem investigar o contexto histórico e sem saber que ele apenas defendia, na verdade, Rousseau – a quem chamava “simpaticamente” de o “idiota do bom selvagem” – contra a inquisição e os Jesuítas. Com certeza, nunca se deram ao trabalho de ler o que Voltaire falava sobre as crendices e a superstição. Talvez, aí, entendessem que Voltaire não era tolerante com os intolerantes.

Ser tolerante com os intolerantes é ser intolerante.

Tirando a estética da pancadaria, que sim, é daninha a gente, o PSDB marchar junto conosco NÃO TEM NENHUMA JUSTIFICATIVA. 

Contra o fascismo a consigna é, golpear juntos, marchar separado.

O PSDB continua defendendo a entrega da Petrobras, a entrega da Eletrobras, o fim das aposentadorias e pensões, a entrega do SUS, a retirada de TODOS os direitos trabalhistas, a reforma administrativa, a dependência eterna do Brasil ao imperialismo estadounidense, uma política externa que reduza o Brasil a uma semicolônia ianque, e, em todos os governos em que está no poder, uma repressão feroz e continuada a todos os movimentos sociais, com bombas e tiros de borracha nos trabalhadores.

A boiada continua passando alegremente na Câmara, com o apoio permanente e total do PSDB. O PSDB continua fazendo parte da bancada que apoia integralmente Bolsonaro na Câmara, então, não, NÃO DÁ PARA DEFENDER BANDEIRA DE ENTREGUISTA E REPRESSOR DOS MOVIMENTOS SOCIAIS NOS NOSSOS ATOS!

No fundo, há uma galera da esquerda que nem esquerda é mais, e adora um fascista que saiba comer de garfo e faca e adote um discurso identitarista. A luta de classes para esta galera desapareceu faz tempo e acham que “ampliar” a luta é esmaecer a pauta dos atos.

2021 começa diferente de 2013. Os atos são nossos, banhados de vermelho e bandeiras, pautados pela esquerda e pelo movimento social, sem a babaquice do “apartidarismo” ou do “abaixa a bandeira”. Sim, há bandeiras do Brasil, é óbvio, quem defende a nação somos nós, mas a estética vermelha predomina e o verde amarela é muito bem-vindo, a estética tucana, não.

É salutar que a esquerda cultive um ódio de classe permanente ao tucanato, que não, não é adversário político, É INIMIGO DE CLASSE. Representa o que há de pior de projeto de nação no país.

Um certo povo de esquerda que adora um fascista que saiba sentar à mesa e comer de garfo e faca, uma galera que já embarcou e defendeu Lava Jato, que tirou foto com Bretas, esta galera embarca num discurso que não há problema de eles marcharem no nosso lado.

Este é todo o problema!

A rua tem que ter pauta definida. Tomar o golpe em 2015 e não aprender nada com aquele festim diabólico que foi 2013 e escrever um atestado definitivo de burrice. 

A história se repete, a segunda vez como farsa. Em 2013 as pautas eram de se fazer um monge budista perder a cabeça: Sob a retórica Udenista de “luta contra a corrupção”, havia a palhaçada do “não vai ter copa”, a infantilidade do “hospitais padrão Fifa”, o delírio do “fora todos”, a cafonice do “não é só por 20 centavos”, o reacionarismo do “todo poder ao Ministério Público” e, na cereja do bolo, Sininho e Batman cantando música da Globo na Cinelândia e lutando por um “mundo melhor”, qualquer semelhança com um discurso pateta de miss universo não é exagero do subscritor deste texto.

2021 começa com a pauta da esquerda. Vacina no braço, comida no prato e fora Bolsonaro, mas vai além disto. Desfazimento de todas as reformas, não à entrega da Petrobras e da Eletrobras, contra a reforma administrativa, pela retomada do crescimento com distribuição de renda. O discurso moralista classe média contra a corrupção está basicamente ausente, ainda que, é óbvio, a gente acuse o miliciano roubar nas vacinas, faturando com a morte do povo. 

O que esta pauta tem que ver com o PSDB? Nada?

Que MBL, Vem pra rua, as viúvas do Moro, todos os bolsonaristas arrependidos e o PSDB marquem a quermesse deles em outra freguesia. Não são bem-vindos, porque apoiam a destruição do Brasil.

A quem quer ampliar o movimento a ponto em que ele perca a pauta, das 2 uma: ou sofre de um amor platônico mal resolvido pelo príncipe dos sociólogos e sonha em ser classe dominante, como o Napoleão de A Revolução dos bichos, e ser aceito no baquete à mesa com o explorador; ou não aprendeu nada com 2013 e quer repetir os mesmos erros.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.