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Valter Pomar

Historiador e integrante da Direção Nacional do PT

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A presidência do PT e o X da questão

"Se quisermos derrotar um movimento reacionário de massas, precisamos opor a ele um movimento político-social de massas", escreve Valter Pomar

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Luiz Inácio Lula da Silva (Foto: Ricardo Stuckert/PR)

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Pessoa amiga acaba de me ligar, para informar que X teria dito que o presidente da República o convidou para ser presidente do PT.

A mesma pessoa amiga informou, ainda, que X teria aceito o convite. 

A pessoa perguntou se eu sabia disso tudo.

Respondi que já tinha ouvido falar que X fora um dos nomes citados pelo presidente.

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Respondi, também, que não saberia dizer se era verdade ou não que X teria sido convidado.  

Ademais, embora ache os termos e a conduta inadequados, "convidar" e "aceitar" é direito de todo mundo. 

Entretanto, embora tenha virado hábito alterar o estatuto partidário, desconheço que alguém queira que nossos diretórios e presidências deixem de ser eleitos pela base, via voto direto e secreto, e passem a ser indicados.

Assim, sendo ou não verdade o convite, o mais relevante é saber se X combinou com os russos e com a “nação petista”. 

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Os russos, como na futebolística história original, são os russos propriamente ditos. 

Ao atacar a Ucrânia, a Federação Russa rompeu com o monopólio que os Estados Unidos mantinham desde o início da década de 1990. Nesse sentido, a guerra entre Rússia e Ucrânia abriu um novo capítulo na disputa pelos rumos do mundo. Capítulo que inclui, entre outros, o conflito entre EUA e China.

Não há como saber quanto tempo vai durar esta disputa, nem qual será o seu desfecho. Mas os acontecimentos – econômicos, sociais, políticos, culturais, sanitários, ambientais – não deixam dúvida: vivemos tempos não apenas de crise e guerra, mas de catástrofes. 

Qual nossa estratégia para enfrentar este período histórico? 

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Alguns de nós tem opiniões a respeito, que podem estar mais ou menos certas, mais ou menos erradas. Mas o Partido dos Trabalhadores enquanto tal não possui uma estratégia desenhada, muito menos aplicada, para enfrentar os desafios do presente e do futuro. 

Começamos a elaborar esta estratégia no 6º Congresso Nacional do PT (2017). Mas desde então, temos focado no enfrentamento dos desafios imediatos – prisão de Lula, campanha de 2018, governo neofascista e ultraliberal, pandemia, eleições de 2022, intentona golpista de 2023, reconstrução, agora catástrofe no Rio Grande do Sul, eleições municipais de 2024 etc. 

E a verdade é que, de urgência em urgência, estamos deixando em segundo lugar a reflexão estratégica. 

O que cada uma das pré-candidaturas à presidência nacional do PT tem a dizer sobre como mudar o lugar do Brasil neste mundo cada vez mais perigoso? Não sei. 

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Mas sei que outro dos nossos desafios estratégicos consiste em recuperar a autoridade coletiva do Partido. Sem autoridade coletiva, não haverá autonomia. E, sem autonomia, mais cedo ou mais tarde seremos atropelados pela implacável biologia. E aí pode ser tarde demais para salvar o Partido, inclusive salvar da quase absoluta dependência financeira frente aos fundos do Estado e da crescente dependência política frente às bancadas e governos. 

Neste sentido, no início de 2024, numa das pouquíssimas vezes em que tive a oportunidade de conversar pessoalmente com o companheiro presidente, disse a ele que na minha opinião era melhor que “deixasse a disputa correr”, antes de declarar seu apoio a alguma das candidaturas que disputarão a presidência nacional do PT. 

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Disse isto, não apenas por motivos óbvios e pragmáticos, mas também por um motivo mais nobre, a saber: quem quer que venha a ocupar a presidência nacional do Partido, deve conquistar este lugar mais devido a seus méritos próprios e menos devido ao QI. 

Até porque precisamos, entre muitas outras coisas, de um Partido com muita autonomia frente ao governo. Inclusive para defender o governo, é muito melhor que nossa presidência partidária não seja ocupada por um "ministro sem pasta", indicado pelo chefe do governo. 

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(Perdoem a brincadeira séria, mas às vezes melhor perder certos amigos do que perder a piada: se for para ser um ministro, que seja do tipo Mucio, que é um representante dos militares junto ao Presidente. Por analogia, precisamos de um representante do Partido junto ao governo e não de um representante do governo junto ao Partido). 

Não se trata apenas de uma questão de método, mas principalmente de uma questão política. 

Ou recuperamos a autonomia e autoridade partidária, ou não seremos capazes de enfrentar os desafios do atual período histórico, entre os quais se destaca, também, o de libertar o Brasil do contubérnio rentista-primário-exportador. Falando pela positiva: industrializar o país. 

Uma industrialização de novo tipo, a serviço do desenvolvimento com ampliação do bem-estar social, da soberania com ampliação das liberdades democráticas, da ampliação da capacidade produtiva com redução dos impactos sobre a natureza. 

A classe dominante brasileira é incapaz e não tem motivos para fazer tudo isso; só a classe trabalhadora tem os motivos e a capacidade necessária. Motivos pelo quais, no Brasil, desenvolvimento e socialismo têm tudo que ver. 

O que cada pré-candidatura à presidência nacional do PT pensa disso? Não sei. Ou melhor, até imagino, mas vamos deixar isso na conta do benefício da dúvida.

Um terceiro desafio estratégico é o da “união e reconstrução”. Não do Brasil, mas da força da classe trabalhadora brasileira. 

O fracasso do primeiro de maio de 2024 em São Paulo capital é apenas um de inúmeros indícios de que estamos desacumulando forças, no que diz respeito a capacidade de organização e mobilização da classe trabalhadora. E isto é produto de um combo de fatores objetivos e subjetivos, entre os quais há pelo menos quatro que são de nossa inteira responsabilidade: a fragilidade de nossa política de comunicação, a fraqueza de nossa política de formação, o desmonte de boa parte de nossas organizações de massa e o conservadorismo de nossa política eleitoral. Desconheço dirigente partidário que não reclame de nossas políticas de formação e comunicação. Assim como desconheço quem não tenha reparos a fazer sobre a situação dos chamados movimentos sociais, sindicatos inclusive. Mas conheço poucos dirigentes que estejam dispostos a enfrentar o processo de adaptação do nosso partido a determinados hábitos eleitorais e institucionais, hábitos que estão fazendo setores de nosso Partido ficarem cada vez mais parecidos com aquilo que é dominante nos partidos tradicionais e cada vez menos presentes – enquanto partido - no trabalho cotidiano de organização da classe. 

Sem enfrentar estes "hábitos de partido tradicional", não haverá formação, comunicação nem empenho real no reerguimento dos movimentos sociais.

As candidaturas à presidência nacional do PT precisam se posicionar a respeito destes e de outros problemas políticos e organizativos. Por fim, mas não menos importante, temos o desafio estratégico de impor derrotas tanto à extrema-direita neoliberal, quanto à direita neoliberal tradicional. Sobre isso, é preciso reconhecer que não estamos nada bem. 

Depois de um ano e meio de governo Lula, todas as pesquisas confirmam a resiliência da extrema-direita e as fragilidades do nosso lado, parte das quais deriva das concessões que fizemos não apenas à direita neoliberal tradicional, mas principalmente ao capital financeiro e ao agronegócio. 

Ademais, a extrema-direita não é uma oposição normal. Trata-se de um movimento político-social de massas, orientado por um programa reacionário. Programas exitosos de governo não são suficientes para derrotar este tipo de movimento. 

Se quisermos derrotar um movimento reacionário de massas, precisamos opor a ele um movimento político-social de massas, em torno de um programa de transformações revolucionárias em nosso país: soberania de fato frente aos Estados Unidos e seus aliados imperialistas; liberdades democráticas e bem-estar social para toda a população brasileira e não apenas para quem tem dinheiro; desenvolvimento de verdade e não destruição de tudo e de todos em benefício do lucro de alguns. De conjunto, tudo aquilo que faz parte de um programa socialista. 

Espero que o processo de eleição diretas das novas direções partidárias, que deveria ter ocorrido em 2023, mas foi adiado para 2025, seja um momento para debatermos essas e muitas outras questões. E que nos permita eleger, não a pessoa que vai ocupar a presidência, mas coletivos de direção, em torno de uma linha política para o período.

É isso o que o PT precisa e merece, se quisermos que a roda da história não ande de novo para trás, como ocorreu entre 2016 e 2022. 

Espero, também, que não percamos o foco. A hora é de vencer as eleições municipais de 2024. Entre outros motivos, para que tenhamos um ambiente político melhor em 2025, quando formos debater os rumos do nosso Partido e escolher nossas novas direções.

Ajudaria muito nisso se o governo fizesse uma inflexão em sua política. Mas, infelizmente, nosso partido também tem seus bourbons. Este é, aliás, o verdadeiro X da questão.

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