A reconstrução da Síria - sem o petróleo sírio

Compare-se a pilhagem dos Estados Unidos com a participação ativa da Rússia-Irã-Turquia na busca de uma solução política para normalizar a Síria

Por Pepe Escobar, publicado originalmente no Asia Times

Tradução de Patricia Zimbres

O que ocorreu em Genebra nesta quarta-feira, em termos de finalmente instaurar a paz na Síria, não poderia ter importância maior: a primeira sessão da Comissão Constitucional Síria.

A Comissão Constitucional Síria teve origem em uma resolução aprovada em janeiro de 2018 em Sochi, na Rússia, por um órgão denominado Congresso Sírio de Diálogo Nacional.

A comissão tem 150 membros, sendo cinquenta representantes da oposição síria, cinquenta do governo de Damasco, e os outros cinquenta representando a sociedade civil. Cada um dos grupos indicou quinze especialistas para o encontro em Genebra, realizado a portas fechadas.

Esse desdobramento é consequência direta do laborioso processo de Astana - articulado pela Rússia, Irã e Turquia. As contribuições iniciais mais importantes vieram do antigo Enviado Especial da ONU para a Síria, Staffan de Mistura. O atual Enviado Especial da ONU para a Síria, Geir Pedersen, está atuando como uma espécie de mediador.

A comissão iniciou seus trabalhos em Genebra, em inícios de 2019.

É de importância crucial o fato de que não há membros graduados do governo de Damasco nem da oposição - com a exceção de Ahmed Farouk Arnus, um diplomata de baixo escalão do Ministério do Exterior Sírio.

Entre os representantes da oposição, como seria previsível, não há nenhum líder de facções armadas. Nem qualquer "rebelde moderado". Os delegados são antigos e atuais parlamentares, reitores de universidades e jornalistas.

Foi importante que, após essa primeira rodada, o vice-presidente da comissão, Ahmad Kuzbari tenha declarado: "Esperamos que nossa próxima reunião possa ter lugar em nossa terra natal, em nossa amada Damasco, a mais antiga capital continuamente habitada da história".

Até mesmo a oposição, que também faz parte da comissão, espera que um acordo político possa ser alcançado no ano que vem. Segundo o vice-presidente Hadi al-Bahra, "Espero que o 75º aniversário das Nações Unidas, no próximo ano, seja uma oportunidade de celebrar uma outra conquista da organização universal, ou seja, o sucesso dos esforços que, sob os auspícios de um enviado especial para o processo político, trarão paz e justiça aos sírios".

Juntem-se à patrulha

O trabalho da comissão, em Genebra, se desenvolve paralelamente a fatos concretos que mudam continuamente, o que certamente irá exigir novas negociações cara-a-cara entre o Presidente Putin e Erdogan, como confirmado pelo próprio Erdogan: "Uma conversa com Putin pode acontecer a qualquer momento. Tudo depende do desenrolar dos acontecimentos".

Os "acontecimentos" parecem não estar tão incandescentes, pelo menos até agora, embora Erdogan tenha deixado no ar um sopro de ameaça: "Nós nos reservamos o direito de retomarmos operações militares na Síria caso os terroristas se aproximem a uma distância menor que 30 quilômetros da fronteira da Turquia, ou continuem a atacar de qualquer outra região da Síria".

Erdogan disse também que a zona segura de fato ao longo da fronteira turco-síria poderia ser "expandida", algo que ele teria que esclarecer em detalhes minuciosos com Moscou.

Essas ameaças já se manifestaram no solo. Na quarta-feira, a Turquia e facções islâmicas aliadas lançaram um ataque contra Tal Tamr, um histórico enclave assírio-cristão em território sírio, localizado a cinquenta quilômetros da fronteira - muito além da faixa de dez quilômetros da zona de patrulha, ou da zona "segura" de trinta quilômetros. Tropas sírias insuficientemente armadas bateram em retirada sob ataque violento e, aparentemente, sem cobertura russa. As forças armadas sírias, naquele mesmo dia, fizeram um pronunciamento público conclamando as Forças Democráticas Sírias (FDS) a se reintegrarem sob seu comando. As FDS afirmaram que, antes, seria preciso chegar a um compromisso quanto a uma semi-autonomia para a região nordeste do país. Enquanto isso, milhares de moradores fugiram para o sul, para a cidade mais protegida de Hasakek.

Dois fatos são absolutamente cruciais. Os curdos sírios completaram sua retirada antes da data combinada, o que foi confirmado pelo Ministro da Defesa russo Sergey Shoigu. E, nesta sexta-feira, a Rússia e a Turquia dão início a suas patrulhas militares conjuntas na faixa de sete quilômetros a partir da fronteira, parte da zona segura de fato do nordeste da Síria.

O diabo está nos infindáveis detalhes de como Ancara irá administrar os territórios que ela agora de fato controla, e para onde planeja reassentar até dois milhões de refugiados sírios.

Seu petróleo? Ou meu?

E  há ainda a questão exasperante que se recusa a sair de cena: a fixação norte-americana em "garantir o petróleo" (Trump)  e "proteger" os campos de petróleo sírios (Pentágono), para todos os fins práticos, contra a própria Síria.

Em Genebra, o Ministro do Exterior da Rússia, Sergey Lavrov - juntamente com Javad Zarif, do Irã, e Mevlut Cavusoglu, da Turquia, não poderiam ter sido mais contundentes. Lavrov disse que o plano de Washington é "arrogante" e uma violação do direito internacional. A própria presença estadunidense em solo sírio é "ilegal", disse ele.

Por todo o Sul Global, em especial nos países do Movimento Não-Alinhado, essa situação vem sendo interpretada, em termos curtos e grossos, como o que ela de fato é: o governo dos Estados Unidos ilegalmente se apropriando dos recursos naturais de um terceiro país por meio de ocupação militar.

E o Pentágono já adverte que qualquer um que tente contestar será fuzilado sumariamente. Ainda resta saber se o Departamento de Estado dos Estados Unidos estaria disposto a se lançar em uma guerra quente com a Rússia por uns poucos campos de petróleo sírios.

Nos termos do direito internacional, toda essa farsa de "garantir o petróleo" não passa de um eufemismo para pilhagem pura e simples. Qualquer bando de takfiris ou jihadis operando no "Grande Oriente Médio" chegará, inevitavelmente, à mesma conclusão: todos os "esforços" dos Estados Unidos nas terras islâmicas têm como objetivo o petróleo.

Agora, compare-se isso com a participação ativa da Rússia-Irã-Turquia na busca de uma solução política para a normalização da Síria - sem falar na atuação nos bastidores da China que, discretamente, doa arroz e planeja investimentos maciços em uma Síria pacificada, posicionada como um nó de importância-chave nas Novas Rotas da Seda do Mediterrâneo Oriental.

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