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Vanessa Grazziotin

Ex-vereadora de Manaus e ex-senadora. Compõe a Direção Nacional do PCdoB

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Amazonas: porque um estado rico é o que pior enfrenta a Covid-19

Vanessa Grazziotin, ex- senadora pelo Amazonas, afirmou que o colapso do sistema de saúde do estado, por conta da pandemia do novo coronavírus, é "reflexo de continuada política equivocada e crescente privatização disfarçada, o que tem tornado o sistema ainda mais suscetível à corrupção".

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Ante as medidas de proteção e defesa da vida, indicadas pelos profissionais, pesquisadores e organismos internacionais de saúde, vivemos, aqui no Brasil, uma situação peculiar. Além do enfrentamento da pandemia e da crise econômica estamos no centro de uma crise política. O insciente presidente da república trama para colocar nosso país em caminho diverso das orientações científicas. Troca o ministro da saúde e segue incentivando as pessoas a voltarem às ruas, à “normalidade”, como se isso fosse possível, diante de uma situação real que é dramática, no mundo e no Brasil.

Os números se movem a cada segundo. Neste exato momento, segundo notícia em tempo real, temos no mundo aproximadamente 2,2 milhões de infectados e quase 140 mil óbitos. Nos Estados Unidos, o epicentro da pandemia hoje, são mais de 677 mil casos com quase 35 mil mortes. Na Itália as mortes ultrapassaram os 22 mil e no Brasil beiramos os 2 mil óbitos.

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E mais grave é saber que esses números  são irreais, uma vez que estão absurdamente subnotificados, tanto pela escassez de testes - o Brasil tem um dos menores índices do mundo, com apenas 296 por milhão de habitantes - como pela grosseira manipulação de dados. Estudos indicam que o número real de infectados pode ser de 7 a 15 vezes em relação aos números divulgados oficialmente. 

Um estudo divulgado pelo Portal Covid 19 Brasil, no último dia 14, com base em dados de 11 de abril, evidenciam essa brutal subnotificação. Esse estudo estima que o Brasil teria 313 mil casos; São Paulo 125 mil e o Amazonas 40 mil, embora os dados oficiais indicassem algo como 25,2 mil casos para o Brasil; 9,3 mil para São Paulo e 1050 para o Amazonas, respectivamente.

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Amazonas, uma tragédia anunciada

O Amazonas, aliás, é um caso à parte. Foi o primeiro estado em que o sistema de saúde colapsou, reflexo de continuada política equivocada e crescente privatização disfarçada, o que tem tornado o sistema ainda mais suscetível à corrupção. Tem a maior taxa de incidência com 19,1 casos/100 mil habitantes, enquanto a média nacional é de 7,5 casos.

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O caos que se abate no Amazonas diante da crise da Covid-19 não se constitui exatamente numa surpresa. É a expressão do desprezo pelas normas técnicas recomendadas ao redor do mundo e a completa incapacidade de gestão do governo local.

Mas, se não há surpresa, há revolta. Afinal, ninguém pode deixar de se indignar sabendo que essas mortes poderiam ser evitadas ou drasticamente reduzidas, especialmente por saber que o Amazonas dispõe de uma invejável saúde financeira: um orçamento da ordem de 18 bilhões de reais e uma população de pouco mais de 4 milhões de pessoas. Mas, infelizmente, o que se assiste é o caos. E com tendência de agravamento.

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De 31 de março a 10 de abril a taxa de infectados no Amazonas subiu, em média, 19,73% por dia. Por conta própria uma parcela da população passou a tomar medidas de prevenção e essa taxa caiu para 5,93% no período subsequente de 11 a 16 de abril. Poderia ser uma excelente notícia, se não fosse pelo fato de que, no mesmo período, a taxa média de óbitos fez trajetória inversa: saiu de 3,14% para 5,85%, demonstrando o colapso do sistema de saúde e evidenciando que as pessoas estão morrendo porque não conseguem ser atendidas adequadamente. Estão morrendo nos corredores de unidades já completamente saturadas.

Essa situação se agrava, ademais, pela lassidão com que o governo trata a reclusão social, a falta de sinergia com a Prefeitura de Manaus e pela troca de comando na saúde por alguém sem qualquer experiência para lidar com uma tragédia dessa magnitude.

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Dos 61 municípios do interior, 18 registram casos da doença e até o momento, não há notícias de casos de infeção dentro das comunidades indígenas. Dos sete indígenas que testaram positivo para a doença, dois foram a óbito.

É triste ver que pessoas estão morrendo pela ausência de atendimento; estão morrendo em casa ou nas Unidades de Pronto Atendimento - os SPAs - que além de não estarem equipados para enfrentar tamanho problema, ainda não dispõem de pessoal especializado. E, para agravar ainda mais a situação, os profissionais da saúde não dispõem de equipamentos de proteção individual (EPI), o que tem feito com que um número considerável desses profissionais tenha se infectado.

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Segundo relatos dos profissionais, há falta generalizada de  medicamentos, tanto para covid-19 como para H1N1, para todos os pacientes internados ou não.

E enquanto essa triste realidade avança no Amazonas, a principal medida do governador Wilson Lima foi alugar um hospital abandonado, sem nenhum equipamento, por 2,4 milhões de reais (cancelado por decisão judicial) e ameaçar não pagar salário dos servidores estaduais.

O que fazer?

Diante dessa tragédia nossa atitude jamais seria de indiferença ou de mero criticismo. Será sempre de respeito a decisão soberana do povo; de profunda solidariedade à população de meu estado que sofre uma tripla tragédia: uma pandemia, perdas de entes queridos e o desgoverno no plano nacional e estadual.

Mas essa tragédia também ajudará o povo a compreender melhor o risco das escolhas que se faz e, ao mesmo tempo, ter maior clareza do tipo de proposta que vai ser executada pelo governo que se está elegendo.

No mundo inteiro onde houve mais estado, mais governo, a tragédia foi menor. E o inverso é absolutamente verdadeiro. Um país de 1,4 bilhão de pessoas, como a China por exemplo, ter conseguido evitar uma catástrofe é um prova inconteste da capacidade de gestão e da eficiência operacional de seu sistema público de saúde; por outro lado, os Estados Unidos - 1/5 da população chinesa - mas onde o sistema de saúde é inteiramente privado, se aproxima de uma tragédia. E a declaração do 1º ministro da Inglaterra, Boris Johnson, de que “a saúde pública salvou minha vida” deve servir de alerta e, ao mesmo tempo, levar a população a repudiar os adoradores do “deus mercado”, do estado mínimo e outras vigarices, até então muito na moda.

É preciso colocar na ordem do dia, por exemplo, um projeto de saúde de escala nacional, de natureza preventiva, profilática, que evite doenças, que faça educação sanitária e reduza, portanto, a própria demanda por hospitais. É preciso também avançar no desenvolvimento de um importante projeto de ciência e tecnologia para o setor. Duas necessidades que lamentavelmente não constam da pauta do atual governo.

O passo inicial desse projeto é exatamente garantir e fortalecer o Sistema Único de Saúde- SUS, com seus princípios de universalidade, integralidade e equidade, procurando assegurar que nenhuma brasileira e nenhum brasileiro fique sem assistência. 

Para tal precisamos romper com a lógica neoliberal, estabelecida pelo atual governo, que, em favorecimento do capital relega a própria vida.

Se para o governo as mortes são apenas uma estatística, para quem perde parentes e amigos é uma grande TRAGÉDIA!

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