Apontamentos sobre as eleições na Câmara

Explicar vitórias é fácil, difícil mesmo é lamber feridas, juntar cacos e tentar entender os por quês das derrotas. Não foi de menor monta o resultado da eleição para a Câmara dos Deputados e desse episódio necessita-se extrair lições reais e verdadeiras, não meras verborragias e tripudiações, dada sua gravidade e desdobramentos

Arthur Lira foi eleito presidente da Câmara, com 302 votos
Arthur Lira foi eleito presidente da Câmara, com 302 votos (Foto: Pablo Valadares/Câmara dos Deputados)
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Explicar vitórias é fácil, difícil mesmo é lamber feridas, juntar cacos e tentar entender os por quês das derrotas. Não foi de menor monta o resultado da eleição para a Câmara dos Deputados e desse episódio necessita-se extrair lições reais e verdadeiras, não meras verborragias e tripudiações, dada sua gravidade e desdobramentos.

Quem comemorou a unção de Arthur Lira como prova do fracasso da Frente Ampla mostra que ainda não entendeu o que se passa no país, o preço será altíssimo e o embargo na distribuição dos cargos da Mesa Diretora - revertido parcialmente após o anúncio de ingresso com ação no STF -  e a indicação de Bia Kicis para a Comissão de Constituição e Justiça são apenas drops do que virá.

Obviamente, não cabe aqui "criticar e fazer igual", ou seja, reclamar da postura de um setor autoproclamado "mais à esquerda" e ficar de ranço com a vida, pois a luta política segue e, agora, sob condições ainda mais complicadas.

A concepção e esforço para construir uma Frente Ampla parlamentar, não era devaneio, tampouco subordinação, mas leitura e interpretação de um cenário desfavorável ao campo democrático e progressista e, consequentemente, medida relativamente sacrificante em prol de um objetivo maior: consolidar uma posição antibolsonarista (ou não governista) no Legislativo.

Há de se ter, então, compreensão sobre a natureza do processo (inclusive sobre as particularidades da luta institucional e parlamentar) e não cair no lugar comum de que o modelo e método eram um equívoco, mesmo porque a unidade da esquerda não existia (as bancadas de deputados não eram uníssonas na formação de uma chapa "esquerdista").

Tenhamos também capacidade de reconhecer que o Governo teve iniciativa e agiu com inteligência tática. Se fez de fraco aparentemente, mas se fez forte nos bastidores. Inverteu a lógica de que as bancadas regionais ficam à mercê de certo controle político dos governadores, inundando mandatos com verbas que lhes dará certa autonomia.

Também usou o timing a seu favor, dando os golpes sucessivos e decisivos na reta final das eleições. Soube camuflar seus movimentos e usou da agenda do impeachment tanto para desgastar a Esquerda quanto para afugentar os setores conservadores da chapa Baleia Rossi.

Aliás, um instrumento muito comum nas guerras foi solenemente ignorado: a mentira. Enganar o adversário, insinuando movimentação que não se realizará, simulando ações fictícias, enfim, induzindo o outro ao erro. A campanha aberta em todos os sentidos, inclusive quanto às suas fissuras, foram prova cabal de que na guerra é melhor deixar o comando aos generais do que pulverizar atribuições e diligências.

Portanto, a percepção - e risco - de que Baleia Rossi poderia ceder às pressões pela abertura do impeachment feitas pela Esquerda desencadearam uma operação de guerra por parte do governo. Feita a eleição e computados os votos, cada deputado levou mais de 10 milhões em emendas para mudar de lado.

Percebamos que as cúpulas partidárias (exceto o DEM, que liberou bancada) não mudaram sua orientação, foram os deputados - alheios a qualquer mecanismo de fidelidade partidária - que o fizeram por interesse, fisiologismo e garantia de impunidade (a começar pelo novo presidente da Casa).

Aliás, bom lembrar que Bolsonaro foi inteligente e não entrou em campo nas eleições municipais, o que lhe poupou de inimizades e ressentimentos posteriores. Mais do que o fracasso dessa ou daquela formatação política, ficou mais uma vez comprovado que o Bolsonarismo - a par de sua rotidão - é força política concreta e estável, inimigo poderoso ao qual não abateremos assim tão fácil.

O risco real é a tal Frente Ampla se consolidar do outro lado, daí o que já é um inferno de tornará insuportável. Reprisando os exemplos citados no início do texto - tentativa de anulação da chapa concorrente na composição das mesas e comissões e indicação de uma fiel escudeira para a CCJ - estão no horizonte próximo o sepultamento do impeachment, a Reforma Administrativa e até mesmo uma nova Constituinte que amplie poderes do Presidente, destrua os fundamentos do Estado Democrático de Direito, de Bem Estar Social e Nacional Soberano.

Ao contrário do que aparenta, a unidade e amplitude, duramente castigadas nesse episódio, ainda são as máximas que podem dar alguma resistência e enfrentamento ao desgoverno genocida, negacionista e fascista. Em condições mais severas, é verdade. Mas também em maior equilíbrio entre as partes, mesmo porque a derrota não foi só da Esquerda: a exemplo da candidatura Alckmin, PSDB e DEM, saíram menores do que entraram e têm menos imposição do que outrora. Se as oposições perceberem isso e conseguirem convergir num acordo e projeto mínimo, nem tudo estará perdido.

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