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Maria Luiza Franco Busse

Jornalista há 47 anos e Semiologa. Professora Universitária aposentada. Graduada em História, Mestre e Doutora em Semiologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, com dissertação sobre texto jornalístico e tese sobre a China. Pós-doutora em Comunicação e Cultura, também pela UFRJ,com trabalho sobre comunicação e política na China

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As ilhas

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Telejornal local do meio-dia de um dia deste início de fevereiro de 2021. A pauta da matéria: efeitos do fim do auxílio emergencial na vida das mulheres pobres donas de casa e chefes de família. Na casa de uma delas, o repórter pergunta ao menino, um dos três filhos, qual é o café-da-manhã: _” a mamãe faz umas torradas e a gente vai assim até a hora do almoço”. E no almoço? _ “às vezes não tem”, responde. O repórter não está em quadro mas dá para ver o susto no tom da pergunta: “E o que vocês comem? ”. A resposta vem da menina que também estava fora do enquadramento, o que faz a câmera dar uma pequena e surpresa chicotada: _”farinha com açúcar”, diz ela relevando nos olhos não menos assustados a realidade que sai pela boca.  

De 2017 a 2020, pesquisas realizadas pelas instituições IBGE, ONU, e Banco Mundial, informam que o final de 2020 terminaria com 14,7 milhões de brasileiros, 7% da população, em situação de fome e insegurança alimentar. A previsão do Banco Mundial para o início desta década de 20 do ano 2000, é de que 5,4 milhões de brasileiros não terão nada para comer. Passarão fome no país que em 2014, primeiro ano do governo Lula, saiu do mapa mundial da fome.

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Um espanto a infelicidade que sentou praça no Brasil em 2016 com o governo Temer e segue chafurdando no pântano representado pelo nazista que ocupa o palácio do Planalto. A miséria política que está posta na mesa dos desvalidos tem se aproveitado da pandemia para ampliar o estrago nos corpos e na sensibilidade generosa de valores que são um direito de todas e todos. A vacina é escassa, a democracia é escassa, e o dinheiro do auxílio é nenhum. No combate ao programa mais radical para a implantação da escassez, princípio primordial do capitalismo, a esquerda e os progressistas reagem com as consignas VACINA JÁ, AUXILIO EMERGENCIAL e FORA B. Fazem política em meio à guerra declarada pela direita e seu duplo extremado.

O ser humano não é uma ilha, assim falou certa vez o filósofo que viveu o século XIX. Entretanto a máxima parece obsoleta. Por aqui, basta ver as declarações e manifestações de autoridades que teriam a função de manter lubrificado os freios e contrapesos do Estado contra a barbárie dos delírios individualistas. Um procurador da Operação Lava-Jato que produziu convicções falsas agora desmascaradas contra o presidente Lula, o mantiveram preso por 580 dias e cassaram seus direitos políticos, posta no Telegram: “Sem dúvida, o sítio é do Lula, porque a roupa de mulher era muito brega. Decoração horrorosa. Muitos tipos de aguardente. Vinhos de boa qualidade, mas malconservados. (...)não me deixaram ficar na adega com medo que eu pegasse um Brunello, botasse um chapéu do MST no patinho e saísse pedalando!!!”. A ex-procuradora geral da República envia mensagens de congratulações ao conjunto da força-tarefa da mesma operação: ‘Liguei para cumprimentá-lo e a todos os excepcionais colegas desta equipe pelo primoroso trabalho. Vocês transformaram a justiça penal e a tornaram melhor. Estão mudando o Brasil. Muito obrigada!'”. Em outra situação, o presidente da Caixa Econômica Federal vem a público mostrar a emoção pela descoberta de que tem gente morando no lixo e dele tirando o sustento. São apenas breves, pequenos, e recentes exemplos possíveis de serem acessados nas redes sociais.

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 O Brasil é hoje um pedaço de terra continental cercado de ilhas de mitos. Todos ridículos. O guerreiro Ulisses, da Odisseia, enfrentou muitas ilhas violentas e ardilosas nos dez anos do retorno acidentado na volta para casa. Dez anos contados nos 12 mil versos de Homero são deleites poéticos. Qualquer um dia a mais no regime de atos, reformas, projetos, ordens-do-dia, e narrativas, da República militarizada do Templo de Salomão, significa escrever uma história que em menos de um ano já soma 231 mil mortos pelo vírus que encontrou acolhida e conivência no governo do nazista instalado na presidência da República.

FORA JÁ COM VACINA PARA TODOS E TODAS E AUXILIO EMERGENCIAL PARA QUEM PRECISA, são o canto da odisseia brasileira para a retomada de um caminho que leve a alguma coisa que não seja nem isso nem aquilo que deu nisso. 

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